A eternidade mais breve da vida
ou: como um ser de 16 quilos me proibiu de ir ao banheiro sozinho
Meu filho mais velho, Otto, fez 4 anos semana passada.
Quatro anos. Parece pouco. É uma eternidade.
Antes dele, eu acordava no sábado às 10h, tomava um café sem pressa, lia o jornal, talvez voltasse a dormir. Hoje, às 5h30 de um domingo, tenho um metro e um centímetro de energia pura sacudindo meu braço perguntando se já é hora do café da manhã.
Não é. Nunca é. Mas ele não se importa.
Antes dele, eu ia ao banheiro sozinho. Parece piada. Não é. Existe um ser humano de 16 quilos que considera uma afronta pessoal qualquer porta fechada dentro de casa.
Privacidade, para uma criança de 4 anos, é um conceito tão abstrato quanto derivativos de crédito.
O Otto nasceu prematuro. Trinta e uma semanas. Passou o primeiro mês de vida numa UTI neonatal. Um mês que, convém dizer, ele enfrentou com uma serenidade desconcertante.
Certo dia, cheguei na UTI e ele estava fazendo fototerapia — ele havia tido uma leve icterícia. De óculos de proteção, braços grudados atrás da cabeça, pernas cruzadas. Parecia que estava na beira da praia. Só faltava a caipirinha ao lado.
Com um mês de vida, meu filho já tinha mais equilíbrio emocional do que eu. Quatro anos se passaram e a vantagem só aumentou. Ele teve o terrible two; eu tive o terrible forty e segui comendo poeira na corrida da maturidade.
Houve um período em que eu achava que entendia de negociação. Eu tinha sócios difíceis, advogados caros, reuniões tensas.
Nada disso me preparou para o dia em que, passando pela Marginal Pinheiros, meu filho viu o trem da Linha Esmeralda e pediu para andar. Eu disse “outro dia”.
Dias depois, passamos pelo mesmo trecho. Ele apontou o trem e repetiu o pedido. Eu disse “outra hora”.
Ele me olhou e disse: “o papai prometeu”.
Tomei a única medida possível: estacionei na primeira rua que encontrei e cruzamos a catraca.
Não existe jurisprudência que te prepare para a lógica de uma criança. Eles não argumentam. Eles simplesmente têm razão.
Ele tem quatro caminhões de lixo. Não miniaturas decorativas; caminhões com caçamba articulada, que fazem barulho. Quatro. Se mantiver esse ritmo de aquisição, em seis meses a frota dele supera a da prefeitura.
Às vezes olho pra aquilo e penso que estou criando um futuro magnata do saneamento básico. O que, no Brasil, possivelmente exija algum nível de tráfico de influência com a prefeitura. Mas ele tem 4 anos. Ainda dá tempo.
Se você perguntar para ele o que o pai faz, a resposta dele é simples: “o papai fica no escritório batendo no teclado”.
Tecnicamente correto. Na prática, a descrição mais precisa que qualquer pessoa já fez do meu trabalho.
Pessoas sem filhos acham que sabem o que é cansaço. Eu também achava.
Cansaço de verdade é uma coisa silenciosa. É você sentar no sofá, às 22h, após uma sequência infinita de jantares negociados, banhos resistidos e histórias repetidas pela décima vez, e perceber que não tem energia nem pra assistir a um episódio de série.
Você só fica ali. Olhando pro nada.
É a coisa mais difícil que já fiz na vida. Mais do que qualquer negociação societária, qualquer deadline, qualquer crise de mercado. Educar exige medidas duras que depois dão remorso. Exige uma paciência que eu não sabia que não tinha — e que às vezes de fato me falta.
Não há uma semana sequer que passe sem que eu não me sinta, em algum momento, um grandessíssimo lixo de pai. E nada na vida me dói tanto quanto esse sentimento. Mas ele não tarda a aparecer no escritório e dizer: “papai, eu estou muito feliz com você”.
E instantaneamente o dia se ilumina de novo.
Eu canto as músicas favoritas dele errado. Sempre. E é 100% de propósito. Ele se irrita e me corrige: “papai, você errou”. E eu reconheço: “é, filho, o papai errou. Acontece.”
Isso tem três razões de ser: encorajar ele a ter voz, ensinar que errar faz parte e, não menos importante, confessar minha enorme imperfeição. Não sei se um dia ele vai compreender a intenção por trás disso. Mas, assim espero, os ensinamentos implícitos hão de ficar.
O tempo de solitude, que eu sempre tratei quase como um vício, simplesmente desapareceu. Ou melhor: se escondeu. Hoje ele mora nas horas que eu roubo do sono, ficando acordado até a madrugada só pra ter silêncio.
O custo aparece na manhã seguinte, quando 16 quilos de entusiasmo desembarcam na minha cama às 6h e eu tenho só quatro horas de sono no corpo. É raro, mas acontece sempre.
Tem um conselho que todo pai veterano dá e que todo pai de primeira viagem ignora: se puder, se couber no bolso, contrate ajuda.
Nós ignoramos. Eu e a Ana, por trabalharmos de casa, achamos que daríamos conta.
No primeiro mês sem nenhuma das avós por perto, eu me desdobrava entre cozinhar todos os dias, gerir a lavação de roupa infinita que um recém-nascido produz, e tocar minha recém-fundada empresa de um homem só.
Faturei cinco mil reais naquele mês. Cinco mil. Não dava pra sustentar nem meus vinhos, nem as fraldas dele.
Logo, contratamos babá. Depois, empregada. O conselho dos pais veteranos não era gentileza: era tão somente a boa e velha matemática.
Mas a história começa um pouco antes do Otto.
Quando a Ana descobriu a gravidez, nós não éramos um casal. Não no sentido “oficial” da palavra.
Eu estava no meio de uma batalha societária com meus ex-sócios. Minha avó estava internada em estado terminal. Cheguei a fazer reunião com meu advogado por teleconferência ao lado do leito dela. Uma semana antes, eu havia assinado o contrato de venda da minha participação na empresa.
Enquanto eu estava lá, no olho do furacão, a Ana foi a Porto Alegre num domingo me contar da gravidez. Eu, trouxa, achei que ela havia se deslocado de São Paulo até o Rio Grande do Sul apenas para me prestar solidariedade.
A tal “solidariedade” era uma caixa da Paola da Vinci com um par de sapatinhos de tricô branco e dez testes de gravidez. Sim, eu disse dez.
Na segunda de manhã, por conta de um sangramento, fomos parar na emergência obstétrica pela primeira de muitas vezes. Vi aquele minúsculo saco gestacional num monitor pela primeira vez. No final daquele mesmo dia, minha avó morreu.
Em sete dias: vendi uma empresa, descobri que seria pai e enterrei minha avó. O roteirista da minha vida não tira folga. E é um sádico.
Quando a Ana me contou, meu mundo parou por alguns minutos. Todos os planos que eu imaginava para os próximos doze meses se desfizeram instantaneamente. Eu tinha acabado de sair de uma sociedade. Estava, tecnicamente, desempregado. E agora seria pai.
A vida não pede licença. Ela não consulta seu planejamento financeiro, seu estado emocional ou sua disponibilidade. Ela simplesmente acontece, toda de uma vez, num domingo em Porto Alegre.
Tem uma frase que eu repito pra mim mesmo nos dias mais difíceis: ter filhos pequenos é a eternidade mais breve da vida. Cada dia parece não acabar nunca. Mas, quando você olha pra trás, os quatro anos passaram como se fossem quatro semanas.
E um dia aparece uma lembrança de uma foto dele ainda bebê. E você se dá conta de que ele nunca mais vai ser daquele jeito. O coração aperta. E, por mais que você tenha feito de tudo para aproveitar cada minuto, fica a sensação de que faltou. Sempre vai faltar. E o tempo não retrocede. Nunca. Pelo contrário: ele te atropela, impiedoso.
Não se passa um dia sequer sem que o Otto escute um “eu te amo” meu. Para além do motivo óbvio, uma confissão: eu nunca ouvi isso dos meus pais enquanto criança. Pelo menos não que eu lembre. Azar o meu. Sorte de vocês: se tivesse ouvido, talvez meus textos fossem menos interessantes.
Aqui é o momento em que eu deveria dizer que tudo vale a pena, que o amor compensa, que eu faria tudo de novo. Mas não: eu vou poupar você. Você já deve estar pré-diabético só de ler esse velho clichê.
Se você já é pai: você não precisa de conselho. Precisa de sono. Se descobrir como, me avise. Mas já aviso: dopar os filhos não é uma opção. Pelo menos não uma opção publicamente declarável.
Se você ainda não tem, mas pretende: aproveite cada segundo de silêncio que ainda te resta. Vá ao banheiro de porta aberta, só pra sentir o luxo de escolher fazê-lo. E durma. Durma muito. Estoque sono como quem estoca comida pra guerra, porque é exatamente isso que é. “Tem uma guerra lá fora” uma ova: minhas batalhas mais duras foram travadas com arsenais de Aptamil, Pampers e Novalgina. No lugar das armas nucleares, Clavulin e Zinnat — anota esse último e me agradece depois.
Se você escolheu ser pai de pet ou de planta: eu respeito. Vocês têm sono, silêncio e banheiros com portas que funcionam como portas. Parece ótimo.
Mas existe algo naquele metro e um centímetro me acordando às 5h30 pedindo para assistir Om Nom que, por razões que desafiam qualquer análise racional, eu não trocaria por nada.
Talvez a paternidade seja isso: o pior negócio que você faria de novo. Sorrindo.
Feliz aniversário, filhinho. Eu te amo. Agora, o papai agora precisa ir bater no teclado.
-Ricardo Schweitzer



