A Noruega sumiu 28 anos para nos ensinar a parar
ou: sobre times, países e pessoas que confundem parar com morrer.
Sumi por cinco semanas deste espaço e não vou dar a essa ausência um verniz que ela não merece.
A explicação do sumiço é simples: em meio a um ritmo acelerado de produção e à temporada de balanços das empresas que acompanho, fiquei cansado e senti que, se não puxasse o freio de mão, acabaria colapsando. As crônicas foram a primeira coisa a ceder espaço: troquei os textos pelo releases trimestrais e por mais tempo de descanso e autocuidado, sem drama e sem nenhum maior projeto da minha vida a anunciar antes que os poderosos o tirem do ar.
Assim escolhi, e assim faria de novo.
Conto isso porque a tal da alta performance virou a virtude mais superestimada que temos. O mundo pede presença perpétua de todo mundo, o tempo inteiro, em todas as frentes: produza sempre, apareça sempre, esteja sempre no seu auge. E, em meio a essa enxurrada imperativa, fingimos não saber aquilo que qualquer adulto sabe na própria carne: ninguém aguenta dar o seu máximo em tudo ao mesmo tempo e indefinidamente. Alguma coisa sempre cede.
A única pergunta honesta é se você admite em qual cedeu, ou se prefere a mentira reconfortante de que sempre consegue dar conta de tudo.
Independente da resposta, temos os fatos: quem não admite que precisa parar é quem acaba quebrando sem aviso. E, domingo passado, o país inteiro assistiu a uma aula prática disso, em rede nacional.
O Brasil perdeu para a Noruega. Dois a um. Oitavas de final. Eliminado. Escrevo a frase e ela parece, na tela, ainda mais estranha do que na minha cabeça.
A Noruega. Um país que passou vinte e oito anos sem pisar numa Copa do Mundo. A última vez tinha sido em 1998 — quando quem hoje tem trinta e poucos recém começava a brincar de figurinha (eu ia dizer ainda brincava, mas a idade média dos pontos de troca da minha cidade sugere que o tempo verbal é mesmo outro).
De lá para cá, enquanto o Brasil se cobrava o tetra, o penta e o hexa como se a vitória do campeonato mundial do esporte mais popular do planeta fosse um direito adquirido… a Noruega simplesmente não estava lá. Sumiu do mapa do futebol que importa por quase três décadas. E não tenho notícias de que se tenha decretado um dia sequer de luto em Oslo por causa disso.
E é exatamente aí que mora o veneno da história: a Noruega pôde se reconstruir com paciência justamente porque não tinha obrigação nenhuma de ser grande. Ninguém nasce norueguês devendo uma taça ao passado. Livre do peso de honrar uma glória antiga, um moleque chamado Haaland cresceu jogando futebol focando em ser bom, não em ser herói nacional; sem uma nação inteira pendurada no seu tornozelo como se suas chuteiras carregassem o destino de seu povo.
No domingo ele fez os dois gols. Ao Brasil restou um pênalti nos acréscimos, quase uma esmola do placar, para não voltar para casa com a rede intacta.
É a queda mais precoce do Brasil numa Copa desde 1990. Faz tanto tempo que parece outro país.
E talvez seja.
Aqui a crônica de futebol vira outra coisa — e ainda bem, porque futebol não é minha praia. O que derrubou o Brasil no domingo não cabe numa prancheta de tática. É uma doença bem mais antiga, e ela tem nome: a incapacidade de deixar de ser “1970”.
Existe um tipo de país, e um tipo de gente, que confunde constância com identidade. Que acredita, lá no osso, que parar é morrer. Que trata qualquer período de vacância como humilhação a ser negada, quando vacância é apenas uma estação natural de qualquer coisa viva. O Brasil futebolístico é o retrato acabado disso: carrega as glórias do século passado como se fossem cláusula contratual do presente; cobra de cada nova geração a taça que a geração anterior ganhou — e cobra com juros e correção monetária. Como assim nós (eu adoro esse nós vindo de alguém que nunca chutou uma bola) ainda não somos hepta? Octa? Nunca se permitiu aquilo que a Noruega se permitiu sem nem perceber que estava se permitindo: assumir que ficou ruim, que precisa sair de cena por um tempo e se reconstruir do zero.
Reconstruir exige uma humildade que o culto da constância proíbe terminantemente: reconhecer-se pior do que ontem; dizer em voz alta uma dolorosa frase de cinco palavras: eu não sou mais aquilo. E essa é justamente a frase que o Brasil não consegue pronunciar. Prefere performar perplexidade quando cai diante de uma Noruega a admitir que talvez seja hora de realmente recomeçar de baixo, vestindo as chuteiras da humildade e aceitando não ser favorito por alguns anos.
Mas acredite: essa ainda é a parte fácil (!). É no que vem a seguir que complica.
Reparem numa coisa curiosa. Em pouquíssimos assuntos o brasileiro parece tão implacável consigo mesmo quanto no futebol. Basta a Seleção cair para o país inteiro se converter, da noite para o dia, num seminário de autoexame. Precisamos nos olhar com seriedade. Chega de improviso. É hora de repensar tudo, da base ao topo. A lucidez brota nas mesas de bar, nas colunas de jornal e nos grupos de família com uma fartura que faria inveja a qualquer divã.
Só que essa autocrítica toda carrega um defeito fatal: ela é sempre a mesma. Sai idêntica em 2026, saiu idêntica em 2022, em 2014, e sairá de novo em 2030, palavra por palavra, tão decorada que já dá para recitar de olhos fechados. Cumpre a catarse da derrota e devolve, ao final, a expectativa exatamente onde ela estava: ano que vem a gente ganha. Nada muda, porque o objetivo secreto do ritual nunca foi mudar coisa alguma: era apenas sobre atravessar o luto depressa e voltar a cobrar o título como se a derrota tivesse sido uma ofensa à ordem natural das coisas que será prontamente corrigida.
O que a gente chama de autocrítica no futebol é teatro. Tem a mesma função de uma peça que volta ao cartaz de quatro em quatro anos: o público se comove, sai aliviado, e no dia seguinte a vida está exatamente como estava antes de a cortina subir. Autocrítica de verdade seria a coisa silenciosa e sem plateia que a Noruega fez durante vinte e oito anos, longe dos holofotes, sem prometer revanche a ninguém, remontando um time do zero enquanto o resto do mundo nem lembrava que ela existia. O barulho da nossa autocrítica é a prova mais robusta de que ela é falsa. Exame que presta é quieto. O que precisa de plateia é encenação.
Há algo de desconfortável em eu escrever isso, confesso, porque a vaidade da constância também é minha. Mas talvez admitir, sem cerimônia, que sumi cinco semanas porque estava cansado seja mais autocritico do que qualquer discurso vazio de coletiva de imprensa. Não pede plateia. Não promete revanche. Reconhece um limite e segue em frente.
No fim das contas, a constância que vale alguma coisa não é a de estar sempre presente, sempre no auge, sempre entregando. Essa é fácil de fingir e impossível de sustentar. A constância honesta é mais modesta e muito mais difícil: escolher com franqueza onde você vai ser inteiro, e admitir sem drama onde você deixou de ser. Saber que parar faz parte, que a vacância não é vergonha, e que toda reconstrução começa pela frase que o Brasil se recusa a dizer.
Voltei às Cartas do Exílio não porque me reconstruí em algum retiro espiritual, mas porque a temporada de balanços passou e abriu espaço na agenda. É pouco épico, eu sei. Mas é verdade, e eu prefiro a verdade pequena à mentira grandiosa. A Noruega levou vinte e oito anos. Eu levei cinco semanas. Guardadas as devidas e enormes proporções, o princípio é o mesmo: quem aceita sumir na hora certa tem alguma chance de voltar inteiro. Quem se recusa a parar volta como o Brasil voltou de campo no domingo. De cabeça baixa, e sem ter entendido absolutamente nada.
Constância em tudo é a mentira que a gente conta para não ter que escolher.
Ricardo Schweitzer



