A oficina e o palco
ou: masculinidade em crise, polêmica entre artistas e o pai mais celebrado da História que nunca falou em público
O ator Juliano Cazarré anunciou semana passada um retiro de três dias para homens, em julho, em São Paulo. Chama-se “O Farol e a Forja”. Promete recuperar propósito, disciplina, liderança familiar, fé. O mote oficial é direto: “o mundo precisa de homens que assumam o seu papel.” A entrada é paga. As vagas, limitadas. Os palestrantes, anunciados.
Este artigo não é uma crítica a Cazarré. Ele tem seis filhos. Uma delas vive desde 2022 com uma cardiopatia rara, em batalha pública e contínua. Cazarré não ofende ninguém pelo que faz no chão da própria casa. Quem ataca o homem entra em terreno que não lhe diz respeito.
O que se pode discutir é o formato. E o formato é eloquente: paternidade virou conteúdo pago.
A reação foi imediata. Marjorie Estiano disse que o discurso de Cazarré “mata mulher todos os dias”. Claudia Abreu lembrou que o país está em recorde de feminicídios. Paulo Betti, Betty Gofman e Julia Lemmertz se manifestaram contra. Do outro lado, Claudia Leitte, Caio Castro e Luiza Possi defenderam. Possi se ofereceu para palestrar.
Cazarré agradeceu a todos pela publicidade gratuita para o evento.
A cena pública dos dias seguintes foi previsível: dois corais cantando um pro outro, em volume crescente, sem ouvir nada do outro lado. Cada um achando que ganhou o argumento porque conseguiu fazer o pior personagem do outro time aparecer no Twitter.
Os dois corais erraram a pauta. Mas erraram juntos.
A polêmica foi a primeira coisa que fez sentido na semana inteira: deixou clara, em três dias, a forma exata pela qual o debate público brasileiro deixou de ser debate. Virou troca de gritos com tabela de feminicídios na mão direita e lista de vendas de ingresso na esquerda.
Ninguém gritando para alguém. Todos gritando para a própria torcida.
E ainda assim, por trás de todo o barulho, há uma coisa séria.
A ausência paterna é uma das variáveis estatísticas mais pesadas em qualquer estudo sério sobre a vida de uma criança. Filhos que crescem sem pai presente apresentam piores indicadores em quase todas as dimensões mensuráveis: educação, saúde mental, emprego, criminalidade, vínculos afetivos próprios na vida adulta. Isso não é opinião conservadora. É dado coletado por sociólogos com hipóteses de todos os tipos políticos, e segue pesando depois de controlado por renda, raça e geografia. Quem prefere fingir que essa variável não existe está perdendo o argumento por omissão1
O diagnóstico de Jordan Peterson, que está no fundo de boa parte do movimento ao qual o evento de Cazarré pertence, parte daí. E daí ele acerta: jovens sem estrutura masculina externa, sem pai, sem avô, sem tio, sem mestre, sem rito que separe a criança do adulto, costumam colapsar em direções específicas, e essas direções não são distribuídas aleatoriamente. Peterson, como psicólogo clínico de Toronto, descreveu isso com precisão por mais de duas décadas.
O problema é o que ele faz com isso depois. Há um salto, em Peterson, entre observação clínica e prescrição civilizacional. O consultório ele entende. O palco em que vira comentarista de gênero, religião, política internacional e mudança climática é outro endereço, com calibre intelectual menor. E há uma confusão antiga, que Hume já tinha apontado: do que existe na natureza não decorre o que deve ser perseguido na cultura. As lagostas (e se você já leu Peterson, sabe do que estou falando) têm hierarquia há trezentos e cinquenta milhões de anos, mas daí não sai instrução objetiva para nenhum casamento brasileiro de 2026.
Reconhecer o diagnóstico não é endossar o remédio, mas apenas a recusa à saída fácil dos dois lados: fingir que o problema é inventado, ou fingir que sabe resolvê-lo.
Os críticos do evento gritaram “feminicídio”. O fenômeno é real e, concorde você ou não com a metodologia, o número registrado no Brasil em 2024 é o maior da série histórica e, até onde consegui apurar, seguia subindo em 2025, alto também para padrão latinoamericano e com abissais diferenças para níveis europeus.
Mas não há, em nenhum lugar do raciocínio, conexão entre extinguir qualquer noção positiva de masculinidade e diminuir o número de mulheres mortas. A correlação histórica, se existe, vai no outro sentido: sociedades em que homens crescem sem modelo de paternidade ativa tendem a produzir mais homens violentos, não menos.
Substituir um diagnóstico ruim por um silêncio diagnóstico é piorar o caso, com a vantagem moral de parecer que se está fazendo algo.
Os organizadores do evento, do outro lado, partem de premissa simétrica e igualmente preguiçosa. Se o problema é que a paternidade silenciosa do dia a dia está em pane, vender três dias de retiro em julho com palestrantes anunciados resolve o quê, exatamente? Transforma o ordinário em conferência. Cobra ingresso para ensinar o que era para ser feito de graça, em casa, sem palco, todas as manhãs e todas as noites por (pelo menos) dezoito anos ininterruptos.
Os dois remédios partilham a mesma premissa errada: a de que o problema é discursivo, resolvível por output — hashtag, manifesto, palestra, retiro, post. O problema é prático e moral; mora no chão da casa, antes de qualquer mensagem pública. Ninguém será melhor pai porque comprou ingresso e ninguém será pior pai porque desligou o Twitter.
A vida real, que é onde os filhos crescem, segue acontecendo num plano que esses dois corais já não alcançam.
Aqui me ocorre uma coincidência cultural útil.
A tradição cristã ocidental, que se sustenta há dois mil anos sem ter precisado nunca de retiro de três dias com palestrante anunciado, tem um modelo paterno que é o oposto exato do palco.
Chama-se José.
É o pai mais celebrado da história ocidental, e os evangelhos não registram dele uma única palavra. Nenhuma. José não tem fala. José trabalha. José cria um filho que biologicamente não é dele — a paternidade mais radical do cristianismo inteiro, e também a que mais raramente é mencionada nos púlpitos atuais. José foge para o Egito quando precisa. José volta quando dá. José morre antes da parte importante, sem testemunhar nenhum dos milagres do filho.
Ele apenas faz a sua parte.
A iconografia católica clássica não pinta José em palco. Pinta José na oficina de carpintaria, com luz oblíqua entrando por janela, e Jesus criança ao lado, aprendendo a usar uma plaina. A vida inteira de José é a mesa, o serrote, a pedra de afiar; não é a forja, com fogo e barulho. É a mesa, em silêncio paciente; não é o farol, alto e visto de longe. É o lampião de óleo, baixo, próximo, doméstico.
Quem procura modelo de paternidade firme, presente, e ao mesmo tempo intransitivo — isto é, pai porque é pai, não pai porque está postando que é pai — tem a figura na qual se espelhar à mão há dois mil anos.
E aqui é onde fica mais curioso — e aponto isso no mais profundo espírito de caridade cristã: o grupo que organiza o retiro em julho é, em larga proporção, católico. Cita virtude, cita doutrina, cita patriarcas; mas construiu seu evento em torno de uma metáfora luminosa (farol) e uma metáfora ruidosa (forja). Escolheu, em outras palavras, exatamente o oposto da iconografia que deveriam honrar.
Uma observação final sobre o calendário, que ninguém parece ter feito.
A polêmica explodiu na última semana de abril de 2026. O ingresso para o retiro está à venda neste momento, na internet aberta, com lugares limitados.
Por outro lado, sexta-feira que vem, dia primeiro de maio, é Solenidade de São José Operário, a festa litúrgica que o catolicismo dedica especificamente a José como trabalhador, instituída em 1955 justamente para opor a dignidade do trabalho silencioso a qualquer espetáculo concorrente.
Quer dizer: enquanto, esta semana, o ingresso para “O Farol e a Forja” está sendo anunciado em rede social, a Igreja celebra na sexta o pai que trabalhou em silêncio durante três décadas e nunca cobrou ninguém para ensinar ninguém a ser pai.
É uma coincidência quase sobrenatural.
Tenho dois filhos, Otto e Adam. Neste fim de semana, com trabalho atrasado, fui ao escritório num sábado. Voltei para casa na hora do almoço para colocar Otto para tirar a soneca da tarde — um ritual que envolve levá-lo para andar de carro.
Quando dormiu, em vez de virar para casa segui para o escritório, onde eu tenho um colchonete que uso para aliviar minhas costas em dias pesados. Coloquei-o ali para cochilar enquanto eu trabalhava.
Velar o sono de um filho enquanto se cumpre obrigação é uma das poucas coisas que vale a pena fazer numa tarde de sábado.
Ele acordou uma hora depois, olhou em volta, entendeu onde estava, e me disse: “papai, estou muito feliz de estar aqui.”
Não havia lampião: havia a luz da tela do computador. A oficina virou planilha aberta; a plaina virou teclado. Mas, por um instante, sentado àquela mesa com um filho dormindo atrás de mim, me senti parte de uma tradição iniciada há dois mil anos numa oficina em Nazaré, onde também trabalhava um pai em silêncio e onde também havia uma criança ao lado.
E, para isso, não precisei ir a nenhum retiro. Não retuitei ninguém. Não comprei livro de autoajuda masculina (e nem queimei o que já tinha). Só estive ali, fazendo a minha parte. E voltei na segunda. E, novamente, hoje. E assim será pelos próximos dias, semanas e anos.
A paternidade que importa começa exatamente onde nada disso aparece. Não é hashtag, não é palco, não é tribuna pública. É a luz baixa de uma tela ligada num sábado à tarde, com um filho do outro lado dela, dizendo que está feliz de estar ali.
Não rende manchete; não rende retuíte; não rende ingresso vendido.
Mas rende um filho que cresce com afeto, exemplos e valores — coisa que nenhuma discussão de internet, tampouco retiro de três dias, jamais produziu.
-Ricardo Schweitzer
Há um número crescente de pessoas que, diante de um texto de opinião, pede as “fontes”. Pois esclareço: isto não é um artigo científico. O Cartas do Exílio não e um periódico CAPES. As afirmações aqui contidas são um compilado de coisas que li sem fazer fichamento. Se os argumentos não lhe agradam, feche a janela — mas por favor, não encha o meu saco.




“Chama-se José.”
A partir daqui seu texto tornou-se maravilhoso e comovente. Você escreve muito bem