Hoje é feriado nacional no Brasil. A data comemora um dentista enforcado por negociar desconto fiscal.
Em 21 de abril de 1792, ao meio-dia, Joaquim José da Silva Xavier subiu vinte e um degraus até a forca armada na Praça da Lampadosa, hoje Praça Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro.
O carrasco, Jerônimo Capitânia, jogou-se sobre os ombros do condenado para que o próprio peso apertasse a corda e abreviasse a cena. Depois, cortou-lhe a cabeça, esquartejou o corpo em quatro partes e espalhou os pedaços pela estrada real entre Rio de Janeiro e Minas Gerais. A cabeça ficou espetada num poste no centro de Vila Rica.
A Coroa portuguesa transformou o corpo em cartaz oficial. O recado era o mesmo de qualquer campanha publicitária bem orçada; só que aqui o briefing incluía decepamento e a mídia era a estrada real entre duas capitanias.
Mas a coisa fica ainda mais interessante.
A figura que vemos nas paredes da escola pública brasileira, o homem de cabelos compridos, barba cheia, olhar voltado para o alto, túnica clara sobre o corpo esquartejado, é ficção tardia. Joaquim José era alferes do exército colonial. Como tal, nunca usou cabelos longos nem barba. No dia do enforcamento, estava careca e com o rosto raspado, conforme a praxe do ritual de condenação.
A iconografia cristã foi construída no século XIX, quando a jovem República precisou de um santo laico e o produziu por analogia. Pedro Américo entregou o quadro em 1893. Outros pintores copiaram a fórmula.
O historiador José Murilo de Carvalho registrou a intenção explícita: a República precisava de um herói cívico-religioso, mártir, integrador, portador da imagem do povo inteiro.
O rebelde real não interessava; interessava um Cristo nacional.
A canonização começou pelo rosto.
Onze conjurados foram condenados à morte. Dona Maria I, que alguns chamaram de “a Louca” e todos tratavam pelo protocolo devido, comutou a pena de dez deles para degredo perpétuo em territórios africanos. Os dez eram padres, advogados, poetas, fazendeiros, oficiais de alta patente. Tinham sobrenome, tinham primos no tribunal, tinham rede.
Um único condenado permaneceu com a corda aguardando: o alferes dentista. O de menor patente, menor fortuna, menor influência. A Coroa escolheu, entre os onze, o réu mais barato politicamente de matar; aquele que estava mais distante do poder, que não tinha canais de influência privilegiados.
Algumas tradições brasileiras são bem antigas, pelo visto.
Mas tem mais: Tiradentes também foi o único a assumir integralmente a participação no levante durante o processo judicial. Os outros recuaram, acusaram-se entre si, negaram envolvimento. O dentista falou.
O preço da honestidade, numa jurisdição colonial, saiu no pescoço. A covardia foi recompensada — e, até hoje, não é diferente.
Enquanto a cabeça do honesto ia para o poste em Vila Rica, um dos conjurados sumia do noticiário.
Joaquim Silvério dos Reis entregou o grupo à Coroa em troca do perdão das próprias dívidas fiscais. Recebeu, no pacote, pensão vitalícia, honras e privilégios.
Não há praça com seu nome. Tampouco há lei que o desonre.
O Brasil escolheu um mártir e um esquecimento: dispensou-se da tarefa de nomear o vilão.
O dentista enforcado sumiu da conversa por noventa e oito anos. Entre 1792 e 1890, ninguém organizou procissão, missa cívica ou discurso oficial em nome dele. Nem herói, nem mártir canônico: uma execução entre tantas outras, num cartório colonial que tinha muitas para lembrar.
Até que sua memória se tornou conveniente. Aí sim.
Em 1890, poucos meses depois da Proclamação da República, um decreto instituiu 21 de abril como feriado nacional. O jovem regime precisava de símbolos laicos que não carregassem a herança da Casa de Bragança, e pescou o inconfidente mais radical na memória disponível.
A canonização oficial começou ali, em papel timbrado de governo provisório.
Mas ela continuaria. De forma ainda mais estupefaciente.
Em 1946, Eurico Gaspar Dutra decretou Tiradentes patrono das polícias civis e militares brasileiras.
A piada se escreve sozinha: o homem morto pelo Estado colonial virou patrono do aparato estatal brasileiro — a mesma categoria profissional que, em hipótese, teria hoje a tarefa de enforcar algum dentista alferes contemporâneo interessado em reorganizar uma Inconfidência.
Mas calma: não acabou.
Em 9 de dezembro de 1965, a Lei nº 4.897 declarou Joaquim José da Silva Xavier Patrono Cívico da Nação Brasileira.
1965: a sanção ocorreu no primeiro governo militar pós-golpe de 64, que precisava de narrativa de unidade e pinçou como mascote oficial o sujeito executado pela Coroa colonial por conspirar contra a autoridade constituída.
A coerência do Estado brasileiro com os próprios símbolos nunca foi traço nacional relevante.
Três atos, uma promoção póstuma. Alferes em 1789. Réu convicto de lesa-majestade em 1792. Herói em 1890. Patrono das polícias em 1946. Patrono da Nação em 1965.
Currículo de santo mandado fazer sob medida, sem que o santo tivesse sido consultado em nenhuma das etapas.
O Brasil costuma canonizar assim: por decreto, sem audiência pública, a partir de iconografia emprestada.
Convém lembrar, para quem saiu da escola há tempo, o que a Inconfidência de fato queria: não pagar imposto. O projeto republicano era verniz retórico; a motivação central era fiscal.
O quinto exigia que 20% de todo o ouro extraído em Minas Gerais fosse entregue à Coroa portuguesa. A meta anual era de cem arrobas, cerca de mil e quinhentos quilos de ouro. Quando a produção caía, a Coroa ameaçava a derrama: cobrança forçada, casa por casa, do déficit entre a meta e o arrecadado.
Tiradentes, os outros conjurados e boa parte da elite mineira de 1789 organizaram-se porque não queriam pagar esses 20%.
Em 2026, segundo dados do Tesouro Nacional divulgados em abril, a carga tributária brasileira alcançou 32,40% do Produto Interno Bruto no ano passado. É o maior nível da série histórica do órgão.
O Estado brasileiro moderno arrecada, sobre tudo o que o país produz, uma proporção sensivelmente maior do que a Coroa portuguesa exigia dos mineradores coloniais. E não precisa ameaçar a derrama para cobrar: os 32,4% entram sozinhos, via imposto retido na fonte, cartão de crédito e nota fiscal eletrônica.
Em dezembro de 2023, o Congresso Nacional promulgou a maior reforma tributária desde 1988. A Emenda Constitucional 132 reorganiza os impostos sobre consumo e estabelece transição de 49 anos, entre 2029 e 2077. A votação ocorreu sem que houvesse uma única manifestação nacional de protesto contra a medida. Nenhuma Praça da Lampadosa, nenhuma forca, nenhum esquartejamento simbólico.
Pelo contrário.
Os “movimentos populares” que se manifestaram sobre tributação no período recente mobilizaram-se para pedir mais imposto, não menos: MTST, Frente Povo Sem Medo, mais de setenta entidades signatárias de cartas em 2025. Ocuparam o saguão do Itaú BBA na Faria Lima em julho de 2025 exigindo a taxação dos super-ricos.
A pauta tributária brasileira contemporânea é o oposto da Inconfidência: quem toma as ruas, toma para elevar a carga, não para resistir a ela.
O mecanismo moderno é engenhoso. Em 1789, o imposto revoltou os mineradores porque era cobrado no balcão, visível, em ouro, percentual explícito. Em 2026, o imposto chega invisível: embutido no preço do feijão, no boleto da luz, no desconto do contracheque.
O contribuinte paga e não vê pagar. E parte deles ainda acha que tem que taxar mais, pois sempre acredita que o taxado é o outro.
Não há carrasco, não há praça, não há cabeça no poste. Há somente o extrato do cartão, que o consumidor confere pela metade e paga sem ler. Há economistas que consideram isso progresso civilizatório.
O Brasil canonizou o dentista no retrato, no feriado, no patronato, na lei e no calendário. Deu-lhe barba de Cristo e escrito sagrado. Transformou a praça da execução em praça do herói. Fez do alferes enforcado o símbolo laico mais alto do Estado que o enforcaria de novo, hoje, sem cerimônia, se algum dentista alferes tentasse organizar uma conjura contra a Receita Federal.
Cento e tantos anos depois, pagamos mais impostos e brigamos menos — bem menos.
-Ricardo Schweitzer




Mais um texto que nos presenteia com a inteligência que a "IA" não é capaz de alcançar. Muito obrigado!
Muito bom! Para refletir no feriado de Tiradentes... 20% era muito... (é muito)... mas hoje não tem mais a Derrama, então, tudo bem...