Caetano, Bethânia e a fila que não anda
ou: sobre a veneração da imprensa cultural aos mesmos de sempre - há décadas
Sábado de manhã, Copacabana já estava cheia. À noite, no palco montado em frente ao Copacabana Palace, uma mulher colombiana de quarenta e nove anos comandava a praia com as mãos.
Em determinado momento, dois septuagenários brasileiros subiram ao palco para cantar com ela. A multidão aplaudiu por três minutos e voltou a cantar Hips Don’t Lie.
Os septuagenários eram Caetano Veloso e Maria Bethânia.
Os jornais publicaram a foto como momento histórico. Era a foto mais honesta do estado da música popular brasileira que se viu este ano.
A prefeitura do Rio gosta de números redondos.
Em 2024, levou Madonna a Copacabana e juntou um milhão e seiscentas mil pessoas. Em 2025, levou Lady Gaga e juntou dois milhões e cem mil. Em 2026, levou Shakira e juntou outros dois milhões (ou dois milhões e meio, dependendo de quem conta). O projeto chama-se Todo Mundo no Rio e está institucionalizado até 2028. A operação custa caro, é gratuita para o público, e gera, em estimativa também da prefeitura, oitocentos milhões de reais para a economia da cidade.
Quem decide quem vai ao palco é um prefeito. Eduardo Paes não tem opinião editorial sobre música popular brasileira: tem dinheiro a investir, atenção internacional a captar e turistas a atrair.
O cálculo é frio.
A pergunta a se fazer não é se ele errou, mas o que a sua escolha diz: em três anos, o palco mais visível do calendário cultural brasileiro foi cedido três vezes a uma diva pop estrangeira. Um(a) cantor(a) brasileiro(a) capaz de juntar dois milhões na areia de Copacabana, em show solo gratuito, simplesmente não foi cogitado(a).
Não porque a prefeitura deixe de gostar de Caetano, mas porque a prefeitura sabe contar.
Há dois Brasis culturais e eles não conversam há tempos. Um é o Brasil que enche praia; o outro é o Brasil que escreve sobre o Brasil que enche praia, e o faz sempre como se Caetano-Bethânia-Gil-Chico ainda fossem geração jovem.
A crítica cultural brasileira, em 2026, ainda cobre tropicália em primeira pessoa do plural. Caetano segue tratado com a deferência reservada à figura pública nacional. O premiado, na coluna do crítico veterano, ainda é o disco mais recente de Bethânia. Tudo isso seria razoável se a tropicália tivesse acontecido em 2019.
Mas ela aconteceu em 1968. Quando Caetano nasceu, Mussolini estava vivo. Quando a tropicália começou, ainda existia Tchecoslováquia.
A imprensa cultural brasileira é o único setor da imprensa que ainda noticia eventos do final dos anos sessenta como se fossem manchete. Em economia, ninguém cobre o Milagre Econômico como atualidade. Em política, ninguém escreve sobre o governo Costa e Silva como manchete da semana. Mas, em cultura, escrever que Caetano lançou outro disco continua sendo notícia de capa.
Veneração é palavra grande demais para isso. O nome certo é inércia.
Dizer que ouve Caetano, no Brasil, virou marca de classe. Sinaliza que você lê livros, vê filme legendado, frequenta Sesc, conhece Roma. É a versão musical de ter Proust na estante e nunca ter aberto. O exercício é estritamente declarativo: não exige escutar.
Pergunte à pessoa que defende Caetano (ou Bethânia, ou Chico… enfim) em mesa de jantar quando foi a última vez que ela ouviu um disco dele do início ao fim. Sem Spotify. A resposta honesta, na esmagadora maioria dos casos, é: ela não lembra. Mil novecentos e noventa e cinco. Talvez 2002. Faz quase um quarto de século. Mas a defesa em mesa de jantar continua tão acalorada como se fosse hábito.
Cult, como bandeira social, dispensa conteúdo. Na verdade, prospera com a ausência dele. O sujeito que escuta Chico todos os dias seria alguém bizarro, peculiar, talvez chato. O sujeito que apenas afirma escutar Maria Bethânia é alguém de bom gosto. A regra brasileira de bom gosto cultural se cumpre na citação — o consumo efetivo é totalmente dispensável.
Caetano & cia vivem disso. E nada disso é culpa deles.
Entre a tropicália e Anitta há quase quarenta anos de música popular brasileira que ninguém canonizou.
Não foram poucos artistas e não foram artistas pequenos. Marisa Monte. Cazuza. Cássia Eller. Lenine. Maria Rita. Daniela Mercury. Legião Urbana. Os Paralamas do Sucesso. Titãs. Skank. Chico Science e Nação Zumbi. Los Hermanos. Racionais MC’s. Tribalistas.
Cada um desses nomes existiu, vendeu disco (aos montes), encheu casa, ganhou prêmio, entrou para a história. Vários ganharam Grammy Latino. Vários têm múltiplos Discos de Diamante. Vários estão na lista dos cem maiores discos da Rolling Stone Brasil — lista montada, aliás, pela mesma crítica que segue tratando tropicália como contemporâneo.
Marisa Monte tem mais décadas de carreira solo do que grande parte da população brasileira tem de vida. Racionais MC’s editaram Sobrevivendo ao Inferno em 1997 — ou seja, há quase trinta anos. Daniela Mercury teve intensa carreira nacional nos anos noventa, antes de circunscrever sua obra quase exclusivamente ao Carnaval de Salvador e a pautas identitárias.
Cazuza morreu em 1990. Cássia Eller, em 2001. Faz tempo.
Maria Rita é o caso mais ilustrativo da geração inteira. Filha direta de Elis Regina — provavelmente a maior cantora brasileira de todos os tempos —, ganhou cinco Latin Grammys nos três primeiros anos de carreira, em categorias adultas e principais.
Mas o cânone culto brasileiro não a recebeu. Aparentemente, a fila parada não esvazia nem por linhagem.
Nenhum desses nomes ocupa, no imaginário cult brasileiro, o espaço que Caetano, Gil, etcetera, ocupam. Nenhum é citado em mesa de jantar como exemplo de bom gosto. Nenhum apareceria como sugestão se a prefeitura precisasse de um brasileiro capaz de juntar um milhão na areia.
A geração ficou pendurada entre o monumento e o vazio. O monumento estava ocupado, ninguém saiu, e o vazio ainda não tinha sido inventado. O que veio depois pulou.
A geração que pulou está no palco que importa.
Anitta no Coachella em 2022, primeira brasileira no main stage do festival. Pabllo Vittar no Coachella também em 2022, primeira drag a se apresentar lá. Ludmilla no Coachella em 2024. Luísa Sonza no Coachella em 2026, dois meses atrás. Marília Mendonça, morta em 2021 aos vinte e seis anos, é a artista brasileira com mais streams acumulados na história do Spotify no país. MC Ryan SP fechou janeiro de 2026 com vinte e dois milhões de ouvintes mensais. Oruam fechou março com doze milhões e meio.
Esses são números maiores, em escala internacional, do que qualquer artista da geração esmagada já alcançou. São maiores do que a tropicália inteira já alcançou em vida. Constatação aritmética, não elogio. Não há endosso da obra de ninguém aqui. Não há gosto pessoal. Há os números que a indústria fonográfica passou a usar: streams, festival tier 1, certificação no padrão atual. E pelos números, quem está vivendo a música popular brasileira em 2026 não inclui Caetano e dificilmente inclui Marisa Monte. Inclui MC Ryan SP.
Aritmética é mais do que a crítica cultural brasileira tem oferecido nas últimas décadas. Mas a pessoa cult não gosta de saber disso.
Há três motivos para isso continuar acontecendo, e os três se reforçam.
O primeiro é geracional. A imprensa cultural brasileira é feita por pessoas nascidas entre 1945 e 1965. A tropicália foi a arte da juventude deles, em sentido literal. Defender Caetano em 2026 é defender a própria adolescência — e ninguém aposenta a própria adolescência voluntariamente.
O segundo é a herança política. A tropicália carregou peso de resistência à ditadura. Caetano e Gil foram presos em 1968, exilados em Londres, voltaram em 1972. É fato histórico relevante e que não diminui em nada com o tempo. Acontece que a ditadura acabou em 1985. Já se passaram quarenta e um anos. A Nova República tem mais tempo de vida do que o regime militar teve. Continuar invocando o exílio londrino como argumento estético em 2026 é continuar usando uma carteira de identidade que venceu há quarenta anos.
O terceiro é a amnésia controlada. Antes da tropicália também houve música popular brasileira. Cartola registrou seu primeiro disco solo aos sessenta e cinco anos, em 1974. Pixinguinha, morto em 1973, fundou boa parte da forma musical brasileira. Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto inventaram a bossa nova nos anos cinquenta. Esses nomes existem no canon culto como peça de museu, com selo dos Correios e filme da Globo. Ninguém os trata como atualidade. A tropicália monopolizou a posição de “vivo” no canon, e como nenhum dos quatro é mais vivo no sentido que importa, o canon todo se petrificou.
O Brasil culto está atrasado em duas gerações. Continua canonizando uma geração que não atrai mais público. Ignorou a geração que poderia ter sido herdeira. E olha de cima para a geração que está ocupando o palco hoje. A liturgia oficial do bom gosto não conversa mais com nenhum brasileiro vivo abaixo dos sessenta anos (físicos ou mentais).
Isso seria apenas constrangedor se o problema parasse aí. Mas a fila que não anda atrasa o tempo inteiro. Quanto mais tempo o cânone passa segurando os mesmos nomes, mais difícil fica admitir que outros nomes existiram no caminho. Quem reconhecer agora, vinte e cinco anos depois, que Cássia Eller é parte da história, terá que explicar por que demorou. Quem reconhecer Marília Mendonça agora, depois da morte, terá que explicar por que precisou da morte. A inércia não é só culpa do passado: ela compromete a leitura do presente.
A foto de sábado é literal. O palco brasileiro é dos outros. Caetano e Bethânia subiram para tocar duas músicas, em participação especial, em show de uma cantora colombiana, em projeto da prefeitura, e o público aplaudiu três minutos e voltou a Shakira. Foi educado; foi rápido — quase protocolar, como quando toca o Hino Nacional no começo de algum evento. Logo após, o público voltou para o que realmente lhe interessava.
Em algum domingo da próxima semana, uma revista cultural de circulação nacional publicará um perfil sobre a importância de Caetano Veloso na formação da identidade brasileira. Em algum programa de televisão, um crítico veterano discutirá o legado da tropicália como fenômeno em transformação. Em algum Sesc, uma palestra abordará a obra de Bethânia. Tudo isso acontecerá normalmente. Nada disso terá relação alguma com o palco de Copacabana de sábado passado, com os dois milhões de pessoas que estavam ali, com o que essas pessoas escolhem ouvir, com o cálculo da prefeitura, ou com o Brasil real que continua existindo do lado de fora.
Caetano e Bethânia subiram no palco da Shakira como convidados. Foi gentil da Shakira convidar.
-Ricardo Schweitzer



