Em 1951, o Brasil inteiro cantou no carnaval um pedido de mudança de decoração: “Bota o retrato do velho outra vez / bota no mesmo lugar”. O velho era Getúlio Vargas, de volta à presidência pelo voto pouco mais de 5 anos depois de ter saído dela pela porta dos fundos.
O retrato era literal. A foto do presidente pendia na parede das repartições públicas, e quem cantava sabia exatamente qual prego estava vazio.
Repare no que cabe nesses dois versos. Um homem, um rosto, uma parede. O rádio levava a voz, a marchinha levava o afeto, e o eleitor recebia a política pronta, emoldurada, para pendurar na sala. Para conferir, só a moldura.
Eu cresci no Rio Grande do Sul, a terra que mandou Getúlio para o Catete, e ainda peguei a última safra dessa escola: nos anos 90, a política gaúcha tinha cara, bigode e sotaque. Olívio Dutra tomava chimarrão em solenidade oficial e ganhava eleição sendo exatamente o que parecia. Alceu Collares carregava o trabalhismo de Brizola como quem carrega um sobrenome.
Antônio Britto chegou ao Palácio Piratini pela televisão: tinha sido o rosto que anunciou, boletim após boletim, a agonia de Tancredo Neves a um país inteiro. E Sérgio Zambiasi fez 365 mil votos para deputado estadual em 1986, a maior votação da história da Assembleia gaúcha, armado apenas de um microfone da Rádio Farroupilha AM.
Cada um teve o seu fim. Collares morreu em 2024, aos 97 anos. Britto largou a política e virou empresário. Tarso Genro não disputa nada desde que perdeu a reeleição para governador em 2014; no domingo, perdeu até o recorde de governador mais votado da história do estado. Olívio ainda tentou o Senado em 2022, aos 81 anos, e ficou em segundo.
Zambiasi ainda resistiu. No domingo, aos 77, voltou à Câmara com 44.929 votos, o 30º entre 31 eleitos. Em 1986, tinha feito 8 vezes isso sozinho. Desta vez entrou pela porta de serviço, puxado pela legenda. Uma sombra do que já foi.
Pelo resto do país, boa parte da geração dele não teve nem a porta de serviço. Domingo foi o dia em que a velha guarda descobriu que a parede tinha sumido. José Dirceu, fundador do partido que governa o país, tentou voltar à Câmara e ficou de fora com 78 mil votos. Rui Falcão, que presidiu o PT por 6 anos, também. Gleisi Hoffmann terminou em quarto lugar na disputa pelo Senado no Paraná, e Randolfe Rodrigues, líder do governo no Congresso, perdeu a cadeira que ocupava desde 2011.
O que essa gente pensa continua igual ao que pensava quando ganhava. Mudou o lugar onde o eleitor escuta.
O político-cacique brasileiro raramente falou com o eleitor olho-no-olho. Falava com o prefeito, que falava com o vereador, que falava com o cabo eleitoral, que batia na porta. No meio do caminho havia o radialista, o padre, o presidente do sindicato, o dono do armazém. Povo, mesmo, só naquelas caminhadas pelo centro apinhadas de apoiadores de ocasião.
Cada degrau dessa escada filtrava, traduzia e, quando necessário, inventava. O político ficava lá em cima, onde a voz chegava com eco e o retrato chegava com moldura.
Era um sistema caro, lento e cheio de pedágio. Também era o único que existia, e quem dominava a escada dominava a eleição. Fazer política no Brasil, durante 70 anos, foi basicamente saber em que degrau apertar qual mão.
O celular demoliu a escada inteira: na mesma eleição em que Dirceu e Aécio ficaram de fora, uma influenciadora de 21 anos foi a segunda deputada federal mais votada de Minas Gerais, com 520 mil votos. A escada dela tem um degrau só, e ele cabe no bolso. A audiência conversa com ela todo dia, na mesma tela em que conversa com a mãe.
Zambiasi entendeu antes de quase todo mundo que o eleitor queria uma voz conhecida dentro de casa. O rádio foi a primeira rede social do Brasil. Ele só não tinha como prever que um dia a voz conhecida seria a de alguém com idade para ser neta dele, falando de dentro de um telefone.
A escada tinha uma segunda função, menos confessável: esquecer.
O cacique da velha guarda tinha um discurso para o comício em Santa Maria, outro para o almoço com empresários em Porto Alegre e um terceiro para o gabinete em Brasília. Funcionava porque as plateias nunca se encontravam.
O jornal de ontem embrulhava o peixe de hoje. A fita do comício dormia na gaveta da emissora. A memória do eleitor durava, com boa vontade, até o carnaval seguinte.
Hoje o vídeo de 2014 aparece em 30 segundos, legendado, ao lado do vídeo de ontem dizendo o contrário. Qualquer adolescente com paciência faz numa tarde o que antes exigia um repórter investigativo e uma semana de arquivo.
A incoerência do político é tão antiga quanto o político. O que acabou foi o prazo de validade dela. Para uma geração que construiu carreira sobre a memória curta do eleitor, isso equivale a um confisco. O esquecimento era o bem mais precioso do cacique, e a internet o cassou sem direito a recurso.
A lâmina, aliás, não leu o programa de partido de ninguém. Renan Calheiros, senador desde 1995, ficou de fora em Alagoas. Esperidião Amin, que começou na política nos anos 70, ficou de fora em Santa Catarina. Aécio Neves terminou em sétimo em Minas e ficou sem mandato pela primeira vez em 40 anos. Marina Silva também ficou de fora.
Ícones de direita, centro e esquerda caíram juntos, com o mesmo defeito de fabricação: todos aprenderam a falar com o país num tempo em que o país não respondia.
Aqui eu deveria tirar o meu da reta. Não vou conseguir.
Ganho a vida escrevendo análise de investimento em relatórios de 20 páginas, texto corrido, gráfico e tabela, exatamente como se fazia 20 anos atrás. Enquanto isso, uma geração inteira aprende a investir em vídeo de 40 segundos com música de fundo.
Sei bem como a velha guarda deve ter se sentido no domingo à noite, ou ao menos como eu vou me sentir quando chegar a minha vez. Você faz o que sempre funcionou. Funciona um pouco menos a cada ano. E a explicação mais confortável, sempre, é que o público “piorou”.
Ninguém manda aviso. O mundo vai baixando o seu volume tão devagar que você só percebe quando já está falando sozinho na sala.
É o pai que manda áudio de 4 minutos no grupo da família. É o professor que ainda dita a matéria. É o senador com 30 anos de mandato olhando para uma menina de 21 e jurando que ela é moda passageira.
Agora a parte que vai doer em você, leitor: você chegou até aqui. Já leu mais de 1.000 palavras de um texto sem vídeo, sem trilha sonora, sem legenda piscando. Fez isso por vontade própria, em 2026, num aparelho que poderia estar lhe mostrando qualquer outra coisa.
Sinto informar: você também está em extinção. Somos dois retratos na mesma parede. Eu escrevendo como se escrevia, você lendo como se lia, e a parede ficando cada vez mais vazia ao nosso redor.
Getúlio teve sorte. Quando ele saiu, deixaram o prego na parede, e bastou uma marchinha para pendurar o retrato de volta.
Na internet, a parede virou feed, e no feed nada fica no mesmo lugar por mais de 1 segundo.
Os caciques que caíram no domingo vão passar os próximos anos esperando o carnaval deles. Desconfio que não vai ter.
Ricardo Schweitzer




Excelente texto!!! Continue escrevendo!!!
Feliz em continuar lendo, do jeito que se lia, o que você escreve, do jeito que se escrevia. 😊