Existe um velho ditado que diz que o Brasil cresce à noite, enquanto os políticos dormem. Descobri recentemente que isso é uma calúnia. O Brasil cresce é de madrugada, quando até os economistas estão dormindo e, portanto, não podem estragar nada com suas previsões.
Chegamos a janeiro de 2026 com inflação na meta, desemprego no menor nível da história e o real comportado como filho de militar em inspeção de quartel. É o tipo de notícia que deveria provocar euforia nacional. Mas como boas notícias não geram engajamento, a imprensa especializada se dedica a explicar por que tudo isso é, na verdade, muito preocupante. É a versão econômica daquela tia que, no seu casamento, comenta que a noiva está radiante, “pena que não vai durar”.
O Banco Central fez sua parte: manteve os juros nas alturas pelo tempo necessário e agora acena com cortes. É o equivalente monetário de um pai que finalmente devolve as chaves do carro depois de seis meses de castigo. A criança, no caso a economia brasileira, promete que dessa vez vai se comportar. Ambos sabem que é mentira, mas faz parte do ritual.
Se o cenário doméstico inspira um otimismo desconfortável (desconfortável porque brasileiro não sabe o que fazer com otimismo), o cenário americano oferece o conforto familiar do caos institucional.
Donald Trump, esse fenômeno sociológico que combina a sutileza diplomática de um rinoceronte com a humildade de Luís XIV, resolveu que a independência do Federal Reserve é um luxo dispensável. O presidente do Fed, Jerome Powell, está sendo investigado por supostas irregularidades na reforma da sede do banco. Para quem não está familiarizado com a criatividade jurídica americana: é como investigar o Papa por estacionamento em fila dupla. Tecnicamente possível, mas o objetivo claramente é outro.
Powell, num gesto inédito para um banqueiro central (espécie conhecida pela capacidade de dizer absolutamente nada em discursos de quarenta minutos), gravou um vídeo denunciando o que chamou de perseguição política. Todos os ex-presidentes do Fed ainda vivos saíram em sua defesa. Faltou só Volcker, mas ele tem a desculpa de estar morto.
O sucessor indicado por Trump é Kevin Warsh, sujeito que passou a última década criticando o Fed por juros baixos demais e agora, por uma dessas coincidências que só a proximidade do poder explica, defende juros mais baixos. É o que os americanos chamam de evolving views. Nós chamamos de outra coisa, mas este é um texto familiar.
Há quem argumente que a erosão institucional americana é preocupante para mercados globais. Eu argumento que é excelente para o Brasil. Quanto mais os Estados Unidos se dedicam à autossabotagem, mais atraente fica qualquer alternativa minimamente funcional. É a estratégia de namoro conhecida como “ser o menos pior da festa”. Não é glamourosa, mas tem uma taxa de sucesso surpreendente.
O dinheiro gringo, criatura de hábitos simples, segue a lógica do juro real. Com a Selic em 15% e o Fed paralisado por suas próprias novelas internas, carregar ativos brasileiros é uma das operações mais lucrativas do planeta. É carry trade na veia. O real agradece, as reservas internacionais agradecem, e o exportador de soja que reclama do câmbio pode ser gentilmente ignorado. Ele reclama de qualquer jeito; faz parte do modelo de negócio.
O mercado de trabalho brasileiro atingiu números que, há cinco anos, qualquer economista sério classificaria como alucinação coletiva. Desemprego de 5,1%. Cento e três milhões de pessoas ocupadas. Rendimento real crescendo acima da inflação. É pleno emprego, conceito que, para a geração formada nos anos 2010, soa tão mitológico quanto unicórnios ou superávit primário.
A consequência prática é que garçom virou artigo de luxo, pedreiro cobra o que quer, e a senhora que fazia faxina duas vezes por semana agora só pode às quintas porque nos outros dias ela está empreendendo. Provavelmente vendendo curso online sobre como empreender. O ciclo da vida moderna.
Para o investidor, esse aperto no mercado de trabalho tem implicações que vão além do preço da diária. Salários pressionam custos. Custos pressionam preços. Preços pressionam a paciência do Banco Central. É o que os economistas chamam de “dinâmica inflacionária de serviços” e o resto da humanidade chama de “a vida está cara”. Tradução: não espere que os juros caiam tanto quanto você gostaria.
Enquanto isso, no teatro das tarifas, Trump elevou a proteção comercial americana ao maior nível desde 1946. A receita tarifária quase triplicou em um ano. É uma política que economistas de todas as vertentes (façanha rara) concordam ser contraproducente. Mas como a economia americana continua crescendo apesar dos esforços em contrário, ninguém presta muita atenção.
O Brasil, por ora, escapou das tarifas mais severas. Café, carne e soja seguem entrando nos EUA sem sobretaxa. É o tipo de vitória que não se comemora em público, vai que alguém lembra que existimos. A estratégia diplomática brasileira para o governo Trump pode ser resumida em três palavras: não fazer barulho. Funcionou para a Suíça por séculos. Pode funcionar para nós por alguns meses.
A Europa, fiel a si mesma, não faz nada de interessante. O BCE mantém juros estáveis pelo quarto mês consecutivo. Christine Lagarde declarou que a política monetária está “em bom lugar”, a frase que banqueiros centrais usam quando querem ir embora mais cedo. A economia europeia cresce no ritmo de quem espera a aposentadoria: devagar, sem pressa, com pausas frequentes para reclamar do tempo.
A China insiste em bater metas de crescimento que ninguém acredita, usando metodologias que ninguém entende, para impressionar uma audiência que ninguém identifica. O PIB oficial cresceu 5%. O PIB real, só Deus sabe. E ele não está disponível para comentários.
O Japão, esse laboratório vivo de política monetária heterodoxa, finalmente subiu juros para 0,75%, o maior nível em três décadas. Para um país que passou vinte anos com juros negativos, é o equivalente a descobrir que existe vida após a deflação. Os mercados reagiram com o entusiasmo de quem encontra uma nota de cinco reais no bolso de uma calça velha.
Neste ponto do texto, o leitor mais ansioso espera que eu diga o que fazer com seu dinheiro. Lamento desapontá-lo, mas não aqui. Se eu distribuísse recomendações de graça, estaria desvalorizando meu próprio trabalho. E você estaria perdendo a oportunidade de descobrir o que eu faço com o meu dinheiro. Porque no fim das contas, pele em jogo é o que separa palpite de convicção.
O que posso dizer é o seguinte: o Brasil está numa daquelas raras janelas em que as coisas podem dar certo. Não vão dar certo por muito tempo (isso é Brasil, não Suíça), mas por enquanto os astros se alinham. Juros reais generosos, moeda comportada, emprego abundante, inflação civilizada. É quase um país normal. Desconfie profundamente.
O investidor que passar os próximos meses reclamando que “o Brasil não tem jeito” pode estar certo no longo prazo, mas estará perdendo dinheiro no curto. E no mercado financeiro, como na vida, estar certo na hora errada é apenas uma forma elegante de estar errado.
Fica o convite para acompanhar meus textos e, quem sabe, descobrir onde estou colocando meu dinheiro. Se eu errar, pelo menos erramos juntos. A ignorância bem administrada é o começo da sabedoria. A ignorância mal administrada é o começo do day trade.
Ricardo Schweitzer




Ricardo, gosto muito da sua maneira de pensar fora da caixa e quase isento (pq pra mim isenção total não é inerente ao ser humano) de analizar a realidade das coisas. Por isso, sou seu assinante desde a Nord. Parabéns pelo seu trabalho.
Qto ao cenário que vc traçou do país penso de maneira semelhante. Quem souber ficar fora de histeria esquizofrenica do nosso tempo, vai fazer muita riqueza, pelo menos no curto prazo.
Um grande abraço.
Muito bom texto!