Existe oportunidade em Braskem?
ou: Paulo Mattos comprou R$ 20 bilhões em dívida enquanto o mercado olhava para o ticker errado
A Braskem está à venda há seis anos.
Não oficialmente, claro. Oficialmente, o que houve foram “manifestações de interesse”, “potenciais transações” e “análises estratégicas em curso”. Na prática: a maior petroquímica da América Latina virou o imóvel encalhado do mercado brasileiro. Placa desbotando no sol. Corretor trocado três vezes. Preço pedido incompatível com a realidade. E um coproprietário que não assina escritura nenhuma.
Ontem, a Bloomberg noticiou que a companhia avalia pedir proteção judicial contra credores. Não descarta falência. O proprietário está pensando em entregar as chaves ao banco.
Os números dispensam pedagogia: prejuízo de R$ 9,9 bilhões em 2025. Patrimônio líquido negativo em R$ 16,5 bilhões. Dívida bruta de US$ 9,4 bilhões. Caixa de US$ 2 bilhões, metade dos quais é uma linha de crédito que vence em dezembro. Alavancagem de 14,7 vezes o EBITDA. A auditoria emitiu alerta de continuidade operacional. Em linguagem de gente: disseram que não sabem se a empresa sobrevive.
Seis compradores visitaram o imóvel desde 2019. Nenhum ficou.
A LyondellBasell, holandesa, foi a primeira. Abriu a matrícula, viu Maceió e foi embora. A Adnoc, de Abu Dhabi, voltou duas vezes: ofereceu US$ 7,6 bilhões com a Apollo em 2023, voltou sozinha em novembro com R$ 10,5 bilhões, desistiu em maio de 2024. A Unipar, brasileira e menor, tentou comprar um pedaço: as operações nos Estados Unidos, avaliadas em cerca de US$ 1 bilhão. A J&F fez oferta. Nelson Tanure contratou um banco francês, montou um fundo chamado Petroquímica Verde e não avançou.
Cada um saiu por um motivo diferente. A LyondellBasell, pelo passivo ambiental. A Adnoc, pelo preço e pela complexidade societária. A Unipar, porque a sócia majoritária não gostou. Tanure, porque os credores não embarcaram. Motivos diferentes; imóvel sempre o mesmo.
A pergunta que se acumula a cada visita frustrada: o problema é o preço, a infiltração ou o vizinho?
O vizinho é a Petrobras. E a resposta é: os três.
A Petrobras detém 36% das ações da Braskem e 47% do capital votante. Tem direito de preferência sobre qualquer venda de controle. Quando a Unipar tentou comprar as operações americanas, Magda Chambriard chamou a negociação de “surpresa ruim” e mandou ofício. Quando a Adnoc quis comprar, o discurso foi o de sempre: ativo estratégico, soberania nacional, não vamos entregar a petroquímica brasileira a capital estrangeiro.
O argumento é antigo e tem cheiro de naftalina (o que, tratando-se de uma petroquímica que opera a partir de nafta, é quase um diagnóstico). Enquanto a Petrobras protegia a Braskem da ameaça terrível de receber uma injeção bilionária de capital árabe, a empresa queimou R$ 5,9 bilhões de caixa só em 2025. Segundo ano consecutivo.
O patriotismo de conveniência impediu sistematicamente que a companhia tivesse uma chance real de sair da UTI. Quem salvou a Braskem do capital estrangeiro não a salvou de si mesma.
Em fevereiro de 2026, a Petrobras finalmente abriu mão do direito de preferência na operação da IG4. Não comprou. Não vendeu sua fatia. Não injetou capital. Ficou. A expressão exata para o que a Petrobras faz na Braskem não está nos manuais de governança corporativa: não cagou nem desocupou a moita. Resultado? A merda se espalhou por tudo e o fedor é insuportável.
Enquanto os pretendentes iam e vinham, as infiltrações se multiplicavam.
Em Maceió, a exploração de sal-gema pela Braskem fez o solo de cinco bairros afundar. Mais de 60 mil pessoas foram deslocadas. O provisionamento total chegou a R$ 14,4 bilhões; a Secretaria de Fazenda de Alagoas estima o dano em R$ 30 bilhões. A empresa pagou R$ 4,2 bilhões até agora e fechou acordo de R$ 1,2 bilhão com o governo estadual, parcelado em dez anos. As vítimas dizem que foram excluídas da negociação. O STJ criou precedente contra a Braskem em março. A Justiça holandesa já havia condenado a empresa em 2024.
No México, a Braskem Idesa (joint venture com o Grupo Idesa, planta de US$ 5,2 bilhões em Veracruz) nunca funcionou direito. A Pemex não entrega etano suficiente desde 2016. A subsidiária deixou de pagar juros sobre US$ 2,1 bilhões em bonds em novembro e em fevereiro. Está em restricted default pela Fitch. Negocia DIP financing para um possível Chapter 11 nos Estados Unidos. O detalhe que transforma problema em crise: a cláusula de cross-default reclassificou R$ 12 bilhões da dívida da Braskem para o passivo circulante.
A infiltração no andar de baixo subiu para o apartamento principal.
E é nesse imóvel que Paulo Mattos decidiu entrar.
Mattos é co-fundador e CEO da IG4 Capital, uma gestora com cerca de US$ 3 bilhões sob gestão e uma tese que se resume numa frase: comprar o que ninguém quer. Antes da IG4, foi vice-presidente da Oi, a telecom que protagonizou a maior recuperação judicial da história do Brasil. Passou pela GP Investments. Tem doutorado em Direito pela USP, foi pesquisador visitante em Yale e no King’s College. Fundou a IG4 em 2016 com sócios que trabalham com ele desde 2012.
O portfólio da gestora é um catálogo de encrencas compradas de propósito: saneamento (Iguá), hospitais (OPY Health), portos de agronegócio (CLI). Ativos que outros fundos descartaram. A Braskem é a extensão lógica dessa trajetória: o ativo mais tóxico do mercado, com o maior potencial de valorização se o cenário virar.
A jogada de Mattos não foi comprar ações. Foi comprar R$ 20 bilhões em créditos dos cinco bancos credores da Novonor (Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e BNDES), garantidos pelas ações da Braskem. Entrou pela porta da dívida, não pela porta do equity. É engenharia de turnaround pura: quando o ativo é tóxico demais para o mercado de ações, você entra pelo mercado de crédito.
O CADE aprovou a transferência sem restrições em 6 de março. A IG4 assume em maio, com 50,1% do capital votante, dividindo o controle com a Petrobras. Mattos deve ocupar um assento no conselho e liderar o novo plano estratégico.
O problema é que a empresa pode pedir proteção judicial antes de ele sentar na cadeira.
O ciclo petroquímico global está no pior momento em anos. Excesso de capacidade na Ásia, demanda fraca, spreads comprimidos em 13% nas resinas e 9% nos químicos. A XP resumiu o cenário em três palavras: “baixa por mais tempo”. A geração de caixa positiva, segundo analistas, só voltaria entre 2026 e 2027. A Braskem precisa pagar US$ 1,52 bilhão em vencimentos neste ano e mais de US$ 100 milhões em cupons de bonds entre junho e julho. O caixa, pelo ritmo atual de queima, não chega lá.
A guerra no Oriente Médio empurrou temporariamente os preços de nafta e, com eles, os spreads petroquímicos. É o tipo de alento que depende da continuidade de um conflito armado para se sustentar.
A tese de Paulo Mattos não é que a Braskem vai bem. A tese é que petroquímica é cíclica; que ciclos de baixa terminam; que quem compra no piso captura o upside inteiro. Se ele estiver certo, fez o negócio da década.
Se ele estiver certo, a compra é uma jogada de mestre. Se estiver errado, comprou US$ 9,4 bilhões em dívida, uma cratera em Maceió, uma subsidiária mexicana em Chapter 11 e uma sócia que, até aqui, só atrapalhou o salvamento da empresa.
A verdade é filha do tempo.
Todo imóvel tem comprador. A questão é se esse imóvel ainda é um imóvel ou se virou um terreno contaminado com escritura travada em cartório. Paulo Mattos acha que vê uma casa onde o mercado vê um lote vazio. O mercado costuma ter razão. Mas Paulo Mattos construiu uma carreira inteira apostando que, de vez em quando, o mercado está errado.
Se a Braskem fosse apenas uma empresa mal administrada com dívida impagável, seria um caso de manual. Empresas assim quebram, são reestruturadas e renascem com outro nome e menos credores. O problema é que a Braskem não é apenas uma empresa. É um teste de realidade para três teses que o Brasil conta a si mesmo: a de que ativo estratégico não precisa dar lucro, a de que ciclo sempre volta e a de que existe comprador para tudo.
Paulo Mattos apostou que as três são verdadeiras. O mercado acha que nenhuma é.
Para quem olha a placa e pensa em fazer uma oferta: cuidado com a porta que você está abrindo. Se o caminho for mesmo conversão de dívida em equity (e tudo indica que será), quem já mora na casa vai perder o quarto. A base acionária atual será brutalmente diluída; o valor do equity existente tende a ir para muito perto de zero. Quem compra BRKM3 ou BRKM5 hoje está entrando pela porta da frente de uma casa cujo novo dono já avisou que vai reformar a planta inteira. Paulo Mattos não entrou pela porta da frente. Entrou pelos fundos, comprou a dívida dos bancos e trocou a fechadura. Os fundos não estão mais abertos.
A escritura sai em maio. A placa de “vende-se” continua no portão. Às vezes a melhor decisão diante de um imóvel é atravessar a rua e ficar olhando da calçada.
Enquanto a Braskem testa a paciência de quem insiste em comprar um problema de R$ 16 bilhões, existem empresas pequenas, saudáveis e fora do radar que ninguém está olhando — e é exatamente por isso que representam oportunidades melhores. O RS Small Caps é onde encontramos essas empresas. Conheça-o aqui.
-Ricardo Schweitzer
Sou analista devidamente credenciado junto à APIMEC. Todas as opiniões aqui expostas são exclusivamente minhas. Não tenho exposição financeira à Braskem, tampouco enxergo qualquer outra situação que possa caracterizar conflito de interesse no âmbito deste artigo.




E para os investidores individuais que tem CRA da Braskem há esperança? Uma possível re-restruturação em breve com conversão em equity?
muito obrigado Barba!!! eu tinha BRKM5 apostando em virada do ciclo e aumento dos spreads petroquímicos, mas ao terminar de ler sua excelente análise vendi tudo a mercado. tese muito arriscada, melhor UNIP6.