Ninguém estava com vontade de ler
ou: o guia prático para se surpreender com o que você sabia desde o começo
Há uma cena no The Big Short em que o personagem interpretado por Christian Bale senta-se diante de centenas de prospectos de hipotecas subprime e começa a lê-los um por um.
Não é uma cena de ação. É uma cena de leitura.
E é a cena mais aterrorizante do filme, porque o que ele encontra não está escondido em lugar nenhum. Não exige fonte confidencial, documento vazado ou acesso privilegiado. Está ali, impresso, disponível para qualquer pessoa com paciência suficiente para virar as páginas.
O sistema não colapsou porque a informação faltou. Colapsou porque a informação estava disponível, mas ninguém com dinheiro na mesa tinha o menor interesse em levá-la a sério.
Nesta semana, no Brasil, os prospectos estavam todos na mesa. Mais uma vez.
O Banco Master foi liquidado há meses, mas o caso cresce toda semana como uma dessas plantas que ninguém sabe onde estão as raízes.
O BRB precisa de até R$8,9 bilhões para cobrir o estrago. A CPI avança. O ministro Mendonça derruba uma ordem de Toffoli por semana, com a regularidade tranquila de quem faz faxina num apartamento que não era o seu.
A operação Compliance Zero bloqueou ações de investigados. A CVM abriu o balanço: seis inquéritos, oito processos sancionadores. Vorcaro depõe ao Senado no dia 10 de março, presencialmente, em Brasília, com detalhes de custódia ainda indefinidos — frase que, convenhamos, ninguém esperava escrever sobre um banqueiro paulistano neste século.
Mas o capítulo da semana foi protagonizado por Gilmar Mendes, que anulou provas contra Toffoli no caso Master. Mendonça tinha retirado a proteção de Toffoli pacientemente, peça por peça. Gilmar devolveu num voto.
No STF, cada ministro aparentemente opera com seu próprio conceito do que constitui uma investigação em andamento, o que tornaria a instituição fascinante se não fosse tão cara.
O FGC está em xeque, o mercado de carbono foi contaminado, e o BRB está convocando assembleia para aprovar um aporte que representa quase o dobro do seu patrimônio líquido.
Os CDBs do Master pagavam 130% do CDI. Alguém leu o prospecto e achou razoável. Na verdade, muita gente leu e achou razoável. Esse é o problema.
A inadimplência atingiu o maior nível da história. A Selic está em dois dígitos há tempo suficiente para que nenhum devedor do país possa alegar surpresa.
Os spreads subiram mesmo com o custo de captação estável. As linhas de maior risco cresceram. As novas regras de contabilização do Banco Central trouxeram à superfície perdas que já existiam, apenas não apareciam nos relatórios com a mesma franqueza.
Nada disso é surpresa. É aritmética com atraso.
O devedor brasileiro fez exatamente o que qualquer personagem do Big Short faria numa festa que parece não ter fim: pediu mais uma rodada, colocou no cartão, refinanciou o cartão… e olhou discretamente para o lado quando a música ficou alta demais.
A diferença entre 2008 e agora é que, aqui, o colapso não vem num dia. Vem em parcelas mensais, com juros rotativos, em silêncio absoluto. Até que, num belo dia, o nome aparece no Serasa e a festa acabou sem que ninguém tivesse se dado ao trabalho de declarar o encerramento.
O Regime Geral de Previdência Social, que é o sistema de aposentadoria dos trabalhadores do setor privado, acumulou um déficit que quase dobrou em dez anos.
Se incluíssemos na conta os militares, que têm regime próprio, o déficit combinado chega a 3,4% do PIB.
Envelhecimento acelerado, natalidade em queda, regras diferenciadas por categoria, e militares numa órbita própria que nenhum governo desde a redemocratização teve estômago de tocar — nem o que reformou tudo, nem o que prometeu reformar, nem o que está prometendo agora.
O Valor publicou sobre o assunto em três dias consecutivos esta semana. No jornalismo financeiro brasileiro, isso equivale a gritar no deserto com microfone, gerador próprio e nenhuma expectativa de resposta.
Nenhum político propôs nada concreto. E nenhum vai propor. Não em ano eleitoral; não neste país onde a palavra “reforma” virou sinônimo de derrota política voluntária.
A reforma de 2019 foi vendida como solução definitiva para uma geração. Era, na melhor das hipóteses, uma postergação com boa assessoria de imprensa e powerpoints bonitos.
O prospecto estava disponível na época. Continua disponível agora. Ninguém está lendo.
Na semana passada, a Suprema Corte americana derrubou as tarifas de Trump.
No dia seguinte, Trump anunciou novas tarifas de 15% usando uma lei diferente — a Seção 122 do Trade Act de 1974, que permite tarifas emergenciais por 150 dias antes de precisar de aprovação do Congresso.
O mercado subiu com a derrota judicial na sexta e caiu, na segunda, com o anúncio do sábado, como se estivesse sendo operado por alguém com amnésia seletiva e acesso a uma conta na Fidelity.
Em até 150 dias, a questão voltará ao Congresso. De lá, possivelmente de volta à Suprema Corte. O presidente mais poderoso do mundo está preso num loop jurídico que ele mesmo criou, reimplementando o mesmo tarifaço pela terceira via legal consecutiva, com a determinação de quem não aceita que a brincadeira acabou.
No meio disso tudo, EUA e Israel deflagraram uma operação militar contra o Irã. O petróleo se mexeu, o mercado ainda não decidiu o que acha, e o assunto foi tratado pelo noticiário financeiro como item número quatro da agenda, atrás do balanço da Nvidia.
Para o Brasil, o saldo imediato foi positivo: o agro respira, o câmbio cedeu cinco dias seguidos, e a Câmara ratificou o Mercosul-UE exatamente na semana em que a Europa congelava o acordo com os americanos.
Às vezes, o timing é a nosso favor.
A CPMI do INSS aprovou a quebra de sigilo bancário e fiscal de Lulinha, numa sessão que terminou em tumulto e foi confirmada, na sequência, pelo STF, a pedido da Polícia Federal.
A oposição comemorou com a contenção característica de quem ganhou o presente que queria, mas finge que não queria tanto assim.
O Planalto ficou quieto — o que é, na atual circunstância, a resposta mais eloquente disponível. Alguns silêncios gritam.
Faltam dez meses para as eleições. Chamar isso de movimento jurídico seria generoso para com o movimento e desonesto para com o leitor. É calendário com toga.
O que vier nos autos é o que importa, e ainda não sabemos. Mas quebra de sigilo não é arquivamento; o filho do presidente não é um contribuinte qualquer que preencheu o formulário errado; e a Polícia Federal não pediu isso ao STF porque estava com saudade de trabalhar depois do horário de expediente.
No Big Short, os personagens que leram os prospectos quando ninguém queria ler passaram meses sendo tratados como lunáticos, paranoicos e maus cidadãos do mercado financeiro.
Depois, o mercado colapsou. Eles lucraram, e o mundo inteiro fingiu surpresa com a elegância de quem nunca teve acesso a uma impressora.
Os prospectos desta semana estão disponíveis: um banco que pagava 130% do CDI sem que ninguém perguntasse de onde vinha o retorno; uma previdência deficitária que nenhum governo reforma; uma inadimplência que sobe em câmera lenta enquanto o spread sobe junto; um presidente reimplementando o mesmo tarifaço pela terceira via jurídica consecutiva… e um escândalo político que começa pelo filho e aponta, como quase todos os escândalos brasileiros, para cima.
Não é falta de informação. Nunca foi.
-Ricardo Schweitzer



