Ninguém mais vai te pagar para digitar até você entender
ou: o que sumiu quando sumiu o primeiro emprego burro
Em 2000 eu ainda estava no ensino médio e já tinha crachá. Estagiário na Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul, lotado numa subseção do RH cuja função era cuidar dos estagiários.
Contratos, folha de pagamento, controle de frequência, aditivos, rescisões. Um pedaço do Estado dedicado a administrar gente que ganhava meio salário mínimo e tirava fotocópia.
Havia um sistema. Alguém o tinha escrito anos antes e ido embora, e ele seguiu funcionando do jeito que as coisas funcionam quando ninguém entende como funcionam: cada vez pior, até parar de fazer o que precisava fazer. Quando cheguei, não havia no prédio uma única pessoa capaz de abrir aquilo e consertar.
Como consequência, ele precisava ser constantemente cruzado com informações em papel — o Pastão. A confiabilidade do sistema já era tão baixa que, em caso de divergência, era o Pastão que era assumido como correto.
A decisão foi recomeçar do zero, em Access.
Me contrataram para isso. Um guri de dezessete anos, meio salário mínimo, encarregado de reconstruir o sistema que administrava os estagiários da repartição.
O trabalho era chato de um jeito que, hoje, daria processo. Planilhas, formulários, digitação, conferência de campo por campo, tardes inteiras verificando se o CPF do fulano aqui batia com o CPF do fulano ali.
Só que para montar aquele banco de dados eu precisei entender o processo inteiro. Não dava para modelar uma tabela sem saber por que existia um aditivo de contrato que ninguém assinava, ou por que a frequência era conferida duas vezes por dois setores diferentes que não conversavam.
Então eu perguntava. Sentava do lado da servidora que fazia aquilo havia quinze anos e perguntava por que era assim. Metade das vezes a resposta era que “sempre tinha sido assim”; a outra metade era uma história de 1987 envolvendo um secretário que ninguém mais lembrava o nome.
Aprendi mais sobre como funciona uma máquina pública naqueles meses de Access do que em qualquer coisa que li depois — e decidi que aquela seria minha única experiência nela, mas isso é papo para outro dia.
O óbvio ululante é que aquele emprego humilhante era também a melhor escola disponível, e que as duas coisas moravam no mesmo lugar.
Nunca foram separadas. Ninguém nunca conseguiu separar.
E agora a parte que demorei vinte e cinco anos para achar engraçada: quem acabou com os postos de trabalho dos estagiários que ficavam às voltas com o tal Pastão fui eu.
A automação chegou naquela repartição em 2001. Ela tinha dezessete anos, usava meio salário mínimo e um manual do Access, e foi contratada com entusiasmo por um chefe que só queria parar de receber ligação de estagiário reclamando de bolsa atrasada.
O que mudou de lá para cá foi a velocidade. E o detalhe, nada menor, de que a automação parou de precisar do guri.
Os números que existem sobre isso são recentes, incompletos e razoavelmente assustadores.
O Digital Economy Lab, de Stanford, cruzou microdados de folha de pagamento americana e encontrou o seguinte: entre trabalhadores de 22 a 25 anos nas ocupações mais expostas à inteligência artificial, o emprego encolheu cerca de 16% em relação ao dos colegas de ocupações menos expostas dentro da mesma empresa, desde o fim de 2022.
Em número absoluto de gente empregada, a queda é de 6%. O resto da conta é o crescimento que houve em todo lugar, menos ali. Entre desenvolvedores de software da mesma faixa etária, o emprego caiu quase 20% em relação ao pico do fim de 2022.
Na mesma janela, os trabalhadores mais velhos das mesmas ocupações cresceram entre 6% e 9%.
O mecanismo é a parte interessante: as empresas pararam de abrir a vaga em vez de demitir quem já estava dentro; um estudo sueco decompôs as duas coisas e encontrou desligamentos do tamanho de um quarto da queda nas contratações. A vaga não foi cortada: ela deixou de ser aberta. Isso explica por que demorou tanto para alguém notar: uma demissão tem data, carta, choro no estacionamento e nota no jornal.
Uma vaga que não é aberta não tem absolutamente nada. Ela é apenas um e-mail que ninguém escreveu.
No Brasil o retrato é mais tosco, porque nossos dados são mais toscos, mas aponta na mesma direção. O FGV Ibre comparou trabalhadores de perfil parecido em 2022 e em 2025 e encontrou, entre os de 18 a 29 anos em ocupações mais expostas, uma chance de estar empregado cerca de 5% menor. A renda média desses jovens caiu perto de 7%.
Outro levantamento da mesma casa estimou trinta milhões de brasileiros em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa, quase 30% da população ocupada. No grupo de exposição mais alta, cinco milhões, concentrados entre os mais jovens, os mais escolarizados e os que trabalham com informação e com serviços financeiros.
Ou seja: exatamente a porta pela qual eu entrei.
Convém registrar que nenhuma reunião decidiu isso. Não existe ata, não existe deliberação, não existe um vilão com nome e cargo. Existe um conjunto de gerentes de área que, ao longo de três anos, foram descobrindo separadamente que aquele relatório podia ser feito sem contratar ninguém, e que a economia de meio salário mínimo aparece bonita na planilha do trimestre.
Antes que isso vire pânico, o contraditório, que é honesto e vale a pena.
Os próprios autores de Stanford avisam que o efeito só fica estatisticamente nítido a partir de 2024, e que o mundo não oferece um experimento em que se possa comparar 2026 com e sem inteligência artificial. Há quem atribua tudo a juro alto, e não a robô. Um estudo do NBER acompanhou vinte e cinco mil trabalhadores dinamarqueses e não achou efeito nenhum sobre renda ou jornada, ainda que ele meça o que a IA fez com quem já estava empregado, e não com quem tentava entrar.
E no Brasil, contrariando a manchete que todo mundo quer escrever, o CIEE administrou cerca de 290 mil contratos de estágio e aprendizagem até novembro do ano passado, 7% mais que no ano anterior. No maior operador do país, o estágio não está encolhendo.
O que os dados sustentam, então, é recomposição, e não extinção. O degrau de baixo está sendo movido de lugar por um monte de gente que não combinou nada entre si.
Comigo a mudança de lugar foi literal.
Entrei no mercado financeiro por uma vaga de estágio numa corretora regional de Porto Alegre. Naquela época a cidade tinha, se a memória não me trai, cinco ou seis corretoras independentes, todas herdeiras da Bolsa de Valores do Extremo Sul, a bolsa gaúcha que negociava ações em Porto Alegre.
Em janeiro de 2000, um convênio entre as bolsas do país concentrou a negociação de ações em São Paulo; em agosto de 2001 o pregão eletrônico paulista engoliu de vez as operações diárias das bolsas regionais. Em 2003 a BVES foi extinta e virou um escritório regional da Bovespa. As corretoras que viviam à sombra dela foram compradas ou fecharam a porta, uma a uma, ao longo da década seguinte.
O sujeito que gritava ordem no telefone virou uma tela que o cliente opera sozinho. A mesa não morreu: mudou de andar e passou a atender institucional e ordem grande. O back office que conferia boleta virou uma integração que ninguém vê.
Some a empresa, some a bolsa que dava sentido à empresa, some a função. Desconfio que eu não conseguiria hoje repetir o caminho que fiz, e ele não foi um caminho particularmente brilhante: foi um caminho disponível.
Aqui é onde eu deveria dizer que antigamente era melhor — e não vou dizer, porque não era.
Antigamente era mais lento, mais burro e pagava pior. Eu passei tardes conferindo CPF em papel. Ninguém deveria ter nostalgia disso, muito menos eu.
Quem defende o estágio de outrora está defendendo, na prática, o direito de fazer uma geração inteira perder tempo com trabalho que uma máquina de dois dólares por mês faz melhor.
O problema nunca esteve na tarefa. Está no que a tarefa carregava junto, de contrabando, sem que ninguém tivesse planejado: o acesso à sala, a conversa com a servidora de quinze anos de casa, a chance de descobrir por que aquele aditivo existia.
Isso continua sendo aprendido em algum lugar. Só não é mais aprendido de graça, como subproduto de um trabalho braçal que a empresa precisava que alguém fizesse.
Então a resposta prática, para quem está entrando agora e para quem tem um filho entrando agora, é que a vaga de execução acabou e a vaga de operar a máquina que executa está aberta, e ela exige na entrada aquilo que antes se adquiria depois de dois anos. Ninguém mais vai te pagar para digitar até você entender. Você vai ter que chegar entendendo, ou arrumar por conta própria o equivalente contemporâneo de sentar do lado de alguém e perguntar por que é assim.
Reclamar disso é uma perda de tempo com a qual eu simpatizo e que não muda um único número dos que citei acima.
Fecho com a única coisa que aprendi em 2001 e que segue valendo. Todo sistema vira órfão: alguém escreve, quase nunca documenta, vai embora e, um dia, a coisa para de fazer o que precisava fazer — e não há ninguém no prédio capaz de abrir e consertar.
A inteligência artificial está produzindo órfãos numa velocidade que a Secretaria da Fazenda jamais sonhou. Vai sobrar muito trabalho para quem souber abrir a caixa.
Ricardo Schweitzer




Perspicaz como sempre !!!!
excelente texto Ricardo, o meu primeiro foi na caixa econômica somando cheque, fazia de cabeça e bem mais rápido que os funcionários. Ali descobri o que eu queria ser.