O Banco Master e a socialização da estupidez
ou: como o FGC e meio Poder da República ajudaram Daniel Vorcaro a montar o maior esquema bancário da história do Brasil
O investidor médio brasileiro não faz due diligence. Não sabe o que é due diligence. Suspeita que seja um prato italiano.
Isso não é um insulto. É uma constatação. E, francamente, por que faria? O FGC cobre. Essa frase de três palavras resume toda a estratégia de captação do Banco Master. E funcionou.
Daniel Vorcaro não enganou ninguém. Ele apenas entendeu o jogo melhor do que os outros.
Um banco que cresce 86% ao ano pagando 140% do CDI não está competindo. Está arbitrando a ingenuidade regulatória.
Vorcaro admitiu à Polícia Federal que seu modelo de negócios era “100% baseado no FGC”. Não disse isso como confissão. Disse como quem explica o óbvio a interlocutores lentos.
O FGC foi criado em 1995 para evitar corridas bancárias. Trinta anos depois, virou subsídio implícito para banqueiros aventureiros. É como criar um seguro contra incêndio e se surpreender quando alguém resolve brincar com fósforos.
A XP distribuiu R$ 26 bilhões em CDBs do Master. O BTG, R$ 6,7 bilhões. O Nubank, R$ 2,9 bilhões. Juntas, essas três plataformas venderam 88% de tudo que o FGC terá de cobrir.
Não são vilãs. São corretoras fazendo o que corretoras fazem: otimizar receita.
O problema é o argumento de venda. “Baixo risco.” “Adequado para conservadores.” “Garantido pelo FGC.” Assessores empurravam CDBs de cinco anos porque a comissão chegava a 4%. A média da indústria é 0,5% ao ano.
Quando o incentivo do vendedor é vender, ele vende. Quem diria.
Vorcaro não era um banqueiro. Era um networker com CNPJ bancário.
Contratou Guido Mantega como “consultor” por R$ 1 milhão ao mês. Mantega não dava consultoria de tesouraria. Era porteiro do Planalto. Levou Vorcaro para uma reunião com Lula que não consta na agenda oficial.
Contratou o escritório de Lewandowski por R$ 250 mil mensais. Em troca, o escritório não advogou em rigorosamente nenhuma causa publicamente conhecida. As preocupações com o Master têm mais de um ano. Mas o desfecho só veio depois que Lewandowski deixou o Ministério da Justiça. A Polícia Federal, que era subordinada a ele, prendeu Vorcaro semanas depois. Coincidências acontecem.
Contratou o escritório da esposa de Alexandre de Moraes. Quase R$3 milhões anuais. Um único processo: contra Vladimir Timerman, gestor que havia apresentado uma notícia de fato contra Vorcaro ao MPF. Ciro Nogueira e Antonio Rueda intermediaram a venda ao BRB. Ibaneis Rocha sancionou a lei que autorizava a operação.
Se você acha que isso é corrupção, está sendo ingênuo. É networking. A diferença é o tamanho do cheque.
Dias Toffoli trouxe o caso ao STF, impôs sigilo total e, dias depois, embarcou num jato particular para Lima. Destino: a final da Libertadores. Companhia: Augusto de Arruda Botelho, advogado de Vorcaro. Mas com certeza só falaram do Verdão.
Coincidências, como eu disse, acontecem. Às vezes em sequência. Às vezes a 30 mil pés de altitude.
A ministra Gleisi Hoffmann disse que Lula “recebe muita gente” e que reuniões com banqueiros são “inerentes ao cargo”. Tecnicamente, ela está certa. Mas geralmente os banqueiros recebidos não estão em crise de liquidez nem são presos semanas depois.
Vorcaro está de tornozeleira. Mas os incentivos que criaram o Master continuam intactos.
O FGC é uma máquina de socializar perdas e privatizar ganhos. Bancos pequenos captam oferecendo taxas suicidas. Investidores aceitam porque “tem garantia”. Corretoras lucram com comissões gordas. E quando a música para, quem paga são os grandes bancos (que financiam o FGC) e, por tabela, todos os clientes do sistema.
É um arranjo elegante. Todo mundo ganha, menos quem não está na mesa.
O CMN apertou as regras em agosto. A partir de junho de 2026, bancos excessivamente alavancados terão de aplicar o excedente em títulos públicos. A contribuição adicional ao FGC dobrou.
Traduzindo: os CDBs de 140% do CDI vão secar. Bancos médios vão pagar mais caro para captar. O spread entre bancões e banquinhos vai diminuir.
Isso não é moralismo regulatório. É matemática.
Não tenho simpatia por Vorcaro. Também não tenho pela indignação seletiva de quem lucrou com o esquema e agora finge surpresa.
O sistema foi desenhado para produzir Masters. Vorcaro apenas jogou melhor. Até não jogar mais.




Obrigado pela perspectiva, Ricardo. Gostaria de trazer algumas contribuições.
“140% CDI”. Essa não é uma taxa de emissão que representa a trajetória de captação de crédito do Master. Note: não estou defendendo o banco, mas é curioso como esse número ficou cristalizado. Invisto via mercado secundário desde 2020 e esses rendimentos esticados não eram ofertados no primário – logo, a taxa era fruto da remarcação aplicada pelo distribuidor. Não uma definição do emissor. O Master sempre ofertou um prêmio maior no primário, mas não nesse nível. Apenas quando a vaca já tinha ido pro brejo e a negociação com BRB veio à tona, após as 3 matérias da Piauí, é que, aí sim, no primário começaram a aparecer taxas muito esticadas. Mas objetivamente isso não deve ter representado um volume relevante na captação.
Vejo muita gente no mercado financeiro (não estou falando de você) que não sabe distinguir taxa primária de secundária e o papel da distribuidora no processo de remarcação. BRK e Portocred (2 últimas quebras antes do Master) tiveram um visível incremento de taxa no primário em seus meses finais (com balanços já escancarando problemas óbvios – Basileia e Imobilizado) – esse foi o momento, nesses seis anos, onde vi mais descolamento de spread no primário. No caso do Master, entre 2020-2025, era bem diferente: se no pós a captação estava taxada acima dos pares, o retorno era de 120% versus 117-116% de emissores de porte equivalente.
Sobre a não-vilanização das corretoras que você propõe, discordo. Tinham compreensão do quadro de risco de maneira muito mais ampla, aceitavam trabalhar com comissionamentos fora do padrão do mercado e tinham uma postura proativa para convencer clientes despreparados a investir em Master. Falar que "vendedor vai vender" independente do que se vende? Discordo substancialmente. Destaque para as falas do Maluhy na divulgação do T4 do Itaú. A XP, em específico, ainda teve a questão da troca (Will por CDBs).
No seu texto, não sei se intencionalmente por desconhecimento, você escolhe personagens da política de um mesmo lado (ou associados a um mesmo lado) – praticamente todos, com exceção dos bolsonaristas Rocha e Rueda. No campo da esquerda há também o laço expressivo com o governo baiano, mas, na vertical bolsonarista, as conexões são inúmeras: diversos governos municipais, alguns estaduais (com destaque para o RJ), igrejas evangélicas e por aí vai. Lembrando que o prejuízo daqueles que são beneficiários de fundos prev não tem garantia. A teia de relacionamentos é, portanto, supra-ideológica, não permitindo uma rotulação superficial a um lado ou outro do espectro político.
A sem-vergonhice é fisiológica e apartidária, todos querem uma beirada.