O Brasil está perdendo os nervos de aço
ou: como substituição de importações termina com substituição de dono
Os feedbacks das últimas edições foram generosos demais. Gente dizendo que riu, que encaminhou, que leu em voz alta no jantar. Naturalmente, a única resposta razoável é destruir essa boa vontade escrevendo sobre siderurgia.
Calma. Fica comigo. Prometo que dói menos do que parece.
Em Cubatão, a 60 quilômetros do Porto de Santos, existe uma usina siderúrgica que ocupa 12 milhões de metros quadrados. Inaugurada em 1963, empregou mais de cinco mil pessoas no auge. Chamava-se Cosipa, Companhia Siderúrgica Paulista: o nome sugeria pertencimento, quase afeto.
Privatizada em 1993, engolida pela Usiminas, repassada à ArcelorMittal. Hoje, galpões vazios, equipamentos parados, circulação quase nula de trabalhadores. Só entre 2015 e 2016, seis mil pessoas (entre diretos e terceirizados) perderam o emprego quando fecharam a produção primária.
O nome Cosipa sumiu dos documentos. A usina virou uma ruína administrativa a sessenta minutos de carro da Faria Lima.
É por ela que a gente começa. Não porque seja a história mais importante, mas porque ruína se entende melhor quando tem endereço.
Chico Anysio criou mais de 200 personagens. Mas o roteiro mais improvável da vida dele não foi ficção: em 1992, casou com Zélia Cardoso de Mello, a ministra da Economia que dois anos antes tinha criado o Programa Nacional de Desestatização, o primeiro programa sério de privatização do Brasil. Chico primeiro satirizou a Zélia na Escolinha do Professor Raimundo. Depois casou com ela. Teve dois filhos.
Pois a história da siderurgia brasileira em 2026 tem a mesma estrutura: primeiro você ri, depois percebe que é sua vida.
No dia 11 de fevereiro, a Nippon Steel assinou os papéis para sair do controle da Usiminas. Eram sócios desde a fundação. Sessenta anos. O motivo, num comunicado enxuto, no melhor estilo japonês: “não espera recuperação significativa no Brasil num futuro próximo”.
Sessenta anos de parceria encerrados com uma frase que cabe num post-it. É mentira, Terta? Não, Pantaleão. É verdade. E ninguém precisa confirmar.
Quem ficou foi a Ternium, conglomerado ítalo-argentino. Agora controla 92,9% do bloco. No dia seguinte, o conselho trocou o presidente (saiu japonês, entrou argentino) e mudou a moeda funcional do real para o dólar. Uma empresa brasileira, listada na B3, olhou para o real e disse “não, obrigado”.
Se isso não é um editorial involuntário sobre o estado do país, eu não sei o que é.
Mas a Usiminas é só o capítulo mais poético. O livro é maior.
A Companhia Siderúrgica Nacional, criada por Getúlio em 1941, está sondando coreanos e chineses para vender até 100% do braço siderúrgico. Não por visão de futuro: por desespero. Dívida bruta de R$ 52 bilhões. Rating B+ na S&P. Steinbruch precisa de R$ 15 a R$ 18 bilhões para não afundar.
A CSN é o Azambuja do Chico Anysio: passou a vida praticando engenharias financeiras criativas (eu usaria outra palavra, mas meu jurídico não deixa) até o dia em que a engenharia virou contra o engenheiro. “Tô contigo e não abro”, dizia o Azambuja.
A CSN disse o mesmo ao Brasil em 1941. Oitenta anos depois, está abrindo para quem pagar mais.
A ArcelorMittal é luxemburguesa, mas a presença dela aqui começou com sotaque mineiro. Engoliu a Acesita, a Belgo Mineira, a Siderúrgica Tubarão. Nomes que qualquer mineiro com mais de 40 anos reconhece do portão da fábrica, da camisa do time, da placa na entrada da cidade. Hoje são linhas numa planilha em Luxemburgo. Veio do aquém do além, como o Bento Carneiro, o vampiro brasileiro do Chico. Sugou e levou.
E a Gerdau? Brasileira de sobrenome gaúcho, quarta geração, a última siderúrgica com CPF. Só que a maior parte da receita já vem de fora. A Gerdau sobreviveu fazendo o quê? Desnacionalizando-se. Voluntariamente. Ganha mais dinheiro em Charlotte, Carolina do Norte, do que em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
Olhou pro Brasil, fez a conta, e pensou como o Gastão do Chico, o pão-duro genial: quer poupar, poupa.
Olha o elenco: uma argentina, uma luxemburguesa, uma que pode virar coreana ou chinesa, e uma brasileira que lucra mais lá fora do que aqui.
Sobrou quem? Ninguém.
Aqui alguém levanta a mão e diz: “mas isso é culpa da privatização”. Não. Privatizar estava certo. É a única coisa que estava certa. O problema é outro, e muito mais constrangedor.
O Brasil privatizou as empresas, mas esqueceu de privatizar o ambiente de negócios. Vendeu o carro e manteve a estrada esburacada. O novo dono olhou pro asfalto, olhou pro mapa, e foi dirigir em outra estrada.
A China, que é nominalmente comunista, com politburo e tudo, subsidia o aço, subsidia a energia, subsidia a logística. Põe aço em Santos mais barato do que sai de Ipatinga.
Não por acaso, a participação chinesa no mercado brasileiro saltou de 12% para 30% em poucos anos.
Não estou defendendo subsídio. Estou constatando o óbvio: praticar livre mercado contra quem subsidia tudo é ser o único atleta limpo numa competição onde todo mundo usa doping. Você pode ficar orgulhoso da sua pureza. Mas vai ficar em último lugar.
E é exatamente isso que está acontecendo.
A tentação é culpar a Selic a 15%. Todo mundo faz isso, é confortável, não exige raciocínio.
Mas o número que realmente mata é outro: o juro real longo. NTN-B paga hoje IPCA+7%. Qualquer projeto industrial de longo prazo precisa prometer retorno acima de 7% real para justificar a existência. Senão o racional é botar no Tesouro e ir para a praia.
A Selic é a febre. O juro real longo é a infecção.
“Quero que a indústria se exploda”, diria o Justo Veríssimo do Chico Anysio, se fosse o juro real brasileiro. Tenho horror a capex. Horror.
É esse número que um board em Buenos Aires olha quando decide se o próximo investimento vai para o Brasil, para o México ou para a Índia.
Agora empilha o resto: mão de obra cara e pouco produtiva; logística que é piada de mau gosto (a CSN, de novo ela, está prometendo terminar a Transnordestina faz um 20 anos); carga tributária que até semana passada ninguém sabia calcular; energia industrial cara num país que se gaba da matriz limpa.
Não é competição. É execução sumária.
A Nippon Steel olhou para essa equação e fez a conta. Os japoneses, que são famosos por ficar décadas em negócios deficitários só por honra ao compromisso. Se eles desistiram, o sinal não é amarelo.
E daí? Qual a diferença se o dono é brasileiro, argentino ou chinês? Aço é aço.
Liga quem compra aço.
Quando o controlador é brasileiro, a lógica de investimento é parcialmente doméstica. Frequenta Brasília, tem constrangimento político, negocia preço. Quando responde a Buenos Aires, a Usiminas vira uma linha no portfólio global da Ternium, competindo com plantas no México e na Argentina pelo próximo capex.
O Brasil precisa “merecer” o investimento. E, com juro real a 7%, não está merecendo.
Controlador estrangeiro otimiza margem global. Não tem voto para perder em Minas Gerais. Não atende telefone de secretário de indústria. A decisão de onde investir, que preço cobrar, que planta ampliar ou fechar, sai de uma planilha que compara continentes.
O Brasil é só uma célula de uma planilha em Luxemburgo. E não está destacada em verde.
A conta cai no colo de todo mundo que precisa de uma chapa de aço para trabalhar. Construção civil, montadoras, autopeças (exemplos: Randon, Iochpe-Maxion, Tupy, Marcopolo), linha branca. A cadeia inteira. Até ontem, ligava para um fornecedor brasileiro e negociava. Amanhã, a mesa do outro lado fala espanhol, mandarim, ou simplesmente não atende.
E o salário, ó!
O Professor Raimundo do Chico Anysio era o professor brasileiro: dedicou a vida ao ofício, é mal pago, e todo dia constata o óbvio sem que ninguém faça nada.
O comprador industrial brasileiro em 2026 é o Professor Raimundo: sabe que está sendo espremido, sabe que o poder de barganha está encolhendo.
E a única resposta que recebe é silêncio.
Tem um contraste perverso nisso tudo. O Ibovespa está em máxima histórica. O gringo já meteu R$ 33 bilhões na bolsa em 2026, mais do que em 2025 inteiro. O Brasil financeiro está de smoking. O Brasil que produz coisas, que funde, que lamina, que emprega gente com capacete e luva, está de pijama no pronto-socorro.
O dinheiro entra pela porta da frente da B3 e o patrimônio industrial sai pela porta dos fundos.
E a ironia final, a que o Chico Anysio apreciaria mais do que qualquer outra: o PT nasceu no chão de fábrica. Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Lula era torneiro mecânico.
O partido que a indústria pariu governou o Brasil por 16 dos últimos 23 anos. E nesses 16 anos, a base industrial que criou o partido foi se desmontando. Peça por peça.
Do jeito que vai, o sindicato que gerou o Lula pode virar peça de museu. Porque ganhar dinheiro transformando aço no Brasil fica mais difícil a cada ano.
O filho matou o pai sem perceber.
Não vou dar conclusão. Não sei qual é. Posso estar errado sobre a gravidade disso.
Talvez capital estrangeiro gerencie melhor, invista mais, e daqui a dez anos a siderurgia esteja mais eficiente do que jamais foi.
Talvez. Mas não é nisso que a Nippon Steel apostou.
O programa de privatização que a ex-mulher do Chico Anysio ajudou a criar continua dando frutos. Só que ninguém privatizou o Custo Brasil junto. E aí o resultado é esse: vendemos as empresas, mantivemos o país que espanta empresas. O novo dono não fugiu da privatização. Fugiu de nós.
A política de substituição de importações terminou substituindo o dono.
-Ricardo Schweitzer




É um drama, mas há muitos capítulos ausentes dessa história. Ou há páginas em branco nesses capítulos. Parabéns por levantar a discussão.
ps: você ganhou muito respeito aquando do post sobre o Vladimir Timmerman. Aquilo foi forte.
Mas a nossa indústria nasceu e sobreviveu às custas de anabolizante estatal. Claro que a privatização das estatais monstrengas veio acompanhada de cada vez mais custo Brasil e extração fiscal de nível sueco, o dinheiro-jabuti como chamei (porque não existe no orçamento, mas o burocrata coloca lá). Só que pedir um subsídio a portas fechadas enquanto brada contra os juros a céu aberto dá menos trabalho. A própria interlocucao com a sociedade, o soft power da indústria, toma uma surra do pessoal do agro, por exemplo. Está aí a música sertaneja que toca muito, mas muito mais que samba nos Spotifys da vida.