Assisti ao debate de domingo do jeito que a maior parte do país assistiu: mal.
Aba aberta em segundo plano, som baixo, eu trabalhando em outra coisa. De vez em quando uma frase furava o ruído e eu levantava os olhos, como quem ouve o próprio nome numa sala de espera.
Ao fim de 2 horas, fiz um inventário honesto do que tinha ficado. Um “foragido”. Um “até seu pai” — que me levou de volta aos tempos de xingamentos de colégio. Uma guerra declarada ao narcoterrorismo oposta a uma insinuação de subserviência ianque que me lembrou o plebiscito da ALCA. Um hospital de grife transplantado para o SUS.
Nenhuma ideia.
Registro isso logo para que fique claro de que lado do balcão estou. Assisti de lado, com metade da atenção, como todo mundo. Só, talvez, tenha assistido com expectativas mais baixas do que a média falante.
Segunda de manhã, a sentença já estava redigida em todos os cadernos de política: “faltou debate de ideias.”
Foi unânime, ou quase. “Pouco propositivo”, disse um. O formato favoreceu o ataque e a ironia, disse outro. Os colunistas de um grande jornal deram notas de 1 a 5, e a média ficou em 2,3 contra 2,2, placar de quem foi a uma final e voltou do estádio reclamando do gramado.
Reparei, porém, num detalhe: na hora de apontar quem tinha vencido, os mesmos analistas que lamentavam a “ausência de ideias” usaram critérios curiosos para suas próprias opiniões: quem estava mais calmo; quem pautou a conversa; quem tirou quem do sério. Até comentário sobre o relógio no pulso de cada candidato eu vi ao longo da segunda-feira.
Julgaram exatamente como o eleitor julga, e em seguida reclamaram de que o eleitor julgasse assim.
Existe uma casta iluminada que ainda acredita, em pleno 2026, que debate político serve para confrontar visões de mundo. Imagina Platão num púlpito, Aristóteles no outro, e os alunos da Academia na plateia, de caderno aberto, anotando premissas e levantando a mão para pedir a palavra.
Entendo a decepção. Só acho que ela vem de uma expectativa que nunca teve endereço.
Faz muitos anos. Eu era jovem e levava a democracia a sério do jeito que só os jovens levam. Em certa eleição — de que já não lembro o ano — resolvi fazer a coisa certa: ir aos comitês dos candidatos e pedir o programa de governo para ler e comparar.
(Fique à vontade para rir, leitor. Eu também ri ao lembrar desse causo)
Entrei no primeiro. Havia bandeiras enroladas num canto, uma pilha de santinhos sobre a mesa e uma moça ao telefone. Esperei que ela desligasse e fiz o pedido.
Ela me olhou como se eu estivesse diante do balcão de uma farmácia pedindo um milk-shake. Chamou um rapaz lá dos fundos, que se viu tão surpreendido com o descabimento do meu pedido quanto ela. Ele me ofereceu um adesivo.
No segundo comitê, a cena se repetiu com outro elenco. No terceiro, me deram um boné.
Encerrei meu périplo pré-eleitoral com material suficiente para decorar um carro e nenhuma linha sobre o que qualquer daquelas pessoas pretendia fazer com o país. E hoje eu compreendo: ninguém tinha escondido nada de mim. Simplesmente não havia o que esconder, e eu era o único imbecil naquelas salas que achava que programa de governo existia para ser lido.
Voltemos a domingo.
Enquanto a casta esperava a Academia, o país fazia outra coisa: pesquisava no Google. As buscas que dispararam durante o debate formam um retrato involuntário, mais revelador que qualquer pesquisa qualitativa.
Quem criou o SUS? O MEI foi criado em qual governo? Presos podem votar?
Quem pesquisou “quem criou o SUS” no meio de um debate presidencial estava fazendo a coisa certa: estava conferindo.
Mas quem nem sabe direito para que lado é o gol do adversário não tem como participar proveitosamente de uma discussão sobre esquema tático.
O número existe e é desconfortavelmente antigo. Levantamentos apontam que quase 30% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. Os brasileiros proficientes, capazes de ler um texto longo, comparar argumentos e chegar a uma conclusão própria, são da ordem de 10% do total.
Um debate de ideias pressupõe gente capaz de acompanhar uma ideia: guardar a premissa enquanto escuta a conclusão, comparar dois argumentos, identificar inconsistências. No Brasil, essa gente é 1 em cada 10. Os outros 9 ficam pelo caminho — e de, dentre eles, há o risco real de alguém achar que falácia é um tipo de verdura.
Cobrar debate de ideias amplo, neste país, é reivindicar que a novela das nove seja transmitida em latim. Pode-se lamentar à vontade: a audiência não vai aprender latim até sexta-feira — e vai votar no domingo igualzinho aos iluminados leitores de Tocqueville, só que em número muito maior. E qualquer candidato que se pretenda competitivo tem que se comunicar com essa turma.
O leitor mais nostálgico terá uma objeção pronta: antigamente era diferente.
Não era. O primeiro debate presidencial da televisão brasileira foi ao ar em julho de 1989, com 9 candidatos, e foi tão cheio de provocação e interrupção que a mediadora, anos depois, contou ter chorado ao fim da transmissão. O favorito, Fernando Collor, não foi. Faltou aos 6 debates do primeiro turno e ganhou a eleição.
A cadeira vazia, aliás, tem a idade da Nova República. Fernando Henrique faltou a 1 dos 3 debates de 1994 e, em 1998, não foi a nenhum. Lula faltou em 2006. Os púlpitos vazios da Band em agosto passado, à espera de Lula e de Flávio, só repetiram a tradição.
O debate presidencial nasceu junto com a primeira eleição direta em 29 anos, diante do maior eleitorado que o país já tinha reunido. Não há época de ouro a que voltar. O debate nasceu para todos, e “para todos” precisa de um formato que abranja todos. Sob as nossas circunstâncias concretas, isso significa que precisa ser lamentavelmente raso.
Reclamação a casta já fez, e com mais elegância do que eu faria.
Fico com o óbvio, que no Brasil costuma ser a parte mais difícil de enxergar: vence quem acerta a frase. Quem liga a televisão esperando Platão vai continuar se decepcionando a cada 2 anos, com a pontualidade de um eclipse.
Na sexta-feira há mais um, o último. Haverá frases novas, acusações novas e 40 e tantas checagens novas, publicadas em tempo real para quase ninguém. Depois, os comentaristas políticos vão lamentar, outra vez, a falta de ideias, com a convicção de quem diagnosticou um problema inédito e inesperado.
Sexta eu também vou assistir. Provavelmente numa aba em segundo plano.
E se algum jovem entrar num comitê esta semana pedindo o programa de governo, espero que alguém tenha a decência de lhe dar o boné logo de cara.
Poupa tempo. Eu levei anos.
Ricardo Schweitzer




Em 1989 eu fiz o périplo pelos comitês e consegui algumas coisas. O do Lula e do Brizola eram umas brochurinhas, no do Collor sobrava espaço para promover uma pizzaria. Mas, como você disse, quem nesse país liga para isso, não é?