O carnaval é a única instituição brasileira que funciona exatamente como prometido.
Durante quatro dias, a hierarquia se inverte. O pobre desfila de rei. O rico paga caro para fingir que é povo. O executivo de banco veste saia. O político samba. E todos, sem exceção, acordam na quarta-feira com a certeza de que algo terrível aconteceu, mas sem a menor ideia do quê.
Nesta semana, o mercado financeiro antecipou a folia.
Comecemos pelo número mais improvável da temporada: um ministro do Supremo Tribunal Federal abriu mão de um caso. “Voluntariamente”. No Brasil. Sem ser preso, exilado ou abduzido por alienígenas.
Dias Toffoli largou a relatoria do caso Master na quinta-feira à noite, depois que a Polícia Federal encontrou seu nome no celular de Daniel Vorcaro.
O roteiro é quase uma comédia pastelão. Fachin convocou os colegas para uma reuniãozinha, mostrou o que a PF tinha encontrado, e Toffoli concluiu, com a velocidade de raciocínio que a ocasião exigia, que talvez fosse prudente cuidar de outros processos. A imprensa chamou de “gesto republicano”. Eu chamaria de instinto de sobrevivência, mas cada um com seus eufemismos.
André Mendonça herdou a bomba por sorteio. Sorteio, aliás, é como o STF chama o ato de descobrir quem vai segurar a granada.
Mas esse não foi o único episódio cinematográfico.
Na terça, durante uma operação da PF contra investimentos suspeitos do Rioprevidência no Master, alguém jogou uma mala com R$ 429 mil do trigésimo andar de um prédio em Santa Catarina.
Do trigésimo andar. Uma mala. Com quatrocentos e vinte e nove mil reais.
Os policiais também apreenderam carros de luxo e celulares. Mas convenhamos: depois de ver dinheiro voando de um arranha-céu, o resto é anticlímax.
O caso Master, que nasceu grotesco, atingiu nesta semana o estágio que os críticos literários chamariam de “realismo fantástico”. E que os advogados criminalistas chamam de “quarta-feira normal”.
O Valor revelou que a BRK, uma financeirinha liquidada em 2023, operava o mesmo esquema, com os mesmos personagens, e já havia custado R$ 1,7 bilhão ao FGC.
Ou seja: o ensaio geral foi aberto ao público, todo mundo assistiu, aplaudiu educadamente e deixou a peça principal estrear no mesmo teatro.
O FGC, coitado, aprovou um plano de emergência para recompor o caixa: vai antecipar 84 meses de contribuição dos bancos em três anos.
Oitenta e quatro meses. Se você acha que parcelar uma geladeira em 24 vezes é criatividade brasileira, o sistema financeiro acaba de elevar o sarrafo.
O TCU mandou auditar o Banco Central, mas o ministro relator tirou o acesso do próprio BC ao processo, porque aparentemente no Brasil a transparência funciona como Wi-Fi de hotel: existe em teoria, mas, na prática ninguém consegue conectar.
Para coroar a semana, um fundo ligado ao pai de Vorcaro reduziu de R$ 14 bilhões para zero (zero!) o valor de um ativo ambiental que o mercado já classificava como “podre”. Quando até o lixo perde valor, estamos diante de algo metafísico.
Enquanto as entranhas do sistema financeiro eram expostas ao sol com a discrição de um bloco de carnaval na Presidente Vargas, o Ibovespa tocou 190 mil pontos pela primeira vez na história.
Pare. Releia. Respire.
A bolsa brasileira bateu recorde histórico na mesma semana em que um ministro do Supremo caiu por aparecer no WhatsApp de um banqueiro preso, uma mala de dinheiro foi defenestrada do trigésimo andar e o fundo garantidor do sistema bancário precisou inventar um parcelamento de sete anos para não quebrar.
Se isso não é carnaval, não sei o que é. Falta só a ala das baianas. E trocar a Miriam Leitão pela Leci Brandão.
O capital estrangeiro, criatura abençoada que não lê o noticiário policial brasileiro, despejou mais de R$ 30 bilhões na B3 desde janeiro. Superou em seis semanas tudo o que entrou em 2025 inteiro.
André Jakurski, no evento do BTG, resumiu a tese com a elegância de um trator: “regra número 1 é comprar bolsa enquanto gringo entra”. Jakurski tem esse dom raro de enunciar o óbvio como se fosse revelação divina. Moisés descendo do Sinai com um terminal Bloomberg.
O dólar recuou ao menor nível em dois anos. E, na fila de espera, Copasa, BRK Ambiental e Aegea preparam IPOs que podem movimentar R$ 20 bilhões. Seria a volta das aberturas de capital à B3 depois de um jejum de quatro anos.
Em tempo: BRK Ambiental não tem relação com a BRK financeira do parágrafo anterior. Achei melhor avisar.
A pesquisa Quaest de fevereiro trouxe o dado que o Planalto preferia receber depois do carnaval, quando a ressaca moral do país já estivesse normalizada.
A vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno encolheu para cinco pontos. Em agosto, eram dezesseis. A rejeição dos dois passou de 50%, o que é a maneira brasileira de dizer “queremos divórcio, mas não temos para onde ir”.
O detalhe que poucos notaram: Flávio começou a se reunir com instituições financeiras falando em responsabilidade fiscal e agenda liberal.
É. Eu sei.
Mas o mercado, que já acreditou em Eike Batista, em CDB do Master e em NFT de macaco, não tem exatamente um histórico rigoroso de ceticismo. Comprou a narrativa, precificou reforma, e seguiu comprando bolsa.
A leitura, simplificada ao extremo como toda leitura de mercado, é que alternância de poder significa possibilidade de reformas. É uma tese otimista, quase comovente na sua ingenuidade, e por isso mesmo perfeitamente calibrada para sustentar um rali.
No carnaval, todo mundo acredita na fantasia. Na quarta-feira, a gente conversa.
Nos Estados Unidos, a inflação fez algo que ninguém esperava: obedeceu.
O CPI de janeiro veio em 2,4% ao ano, abaixo do consenso, com o núcleo na mínima desde 2021.
O número é especialmente cômico porque as tarifas de Trump já estão em vigor e, segundo todos os modelos econométricos disponíveis, deveriam estar pressionando preços. Não estão. Ou, mais precisamente, ainda não estão. E explico: economistas erram previsões sobre tarifas com a mesma regularidade com que o São Paulo é eliminado da Libertadores: todo ano, sempre de um jeito novo, e sempre com uma explicação convincente.
Há um detalhe que quase ninguém mencionou. O shutdown de outubro impediu o Bureau of Labor Statistics de coletar dados normalmente, e parte dos números usa estimativas de carry-forward. Traduzindo do economês: a inflação americana pode estar sendo medida com uma régua torta, e o mercado está precificando cortes do Fed com base num dado que talvez não signifique o que o mercado acha que significa.
Mas enfim. O mercado não precisa de fatos; precisa de narrativas. E a narrativa do momento é que a inflação caiu, o Fed vai cortar (agora sob o comando de Kevin Warsh, que assume em maio com a missão de ser dovish sem parecer submisso, boa sorte), o dólar vai enfraquecer.
Dólar fraco empurra capital para emergentes. Capital em emergentes empurra gringo para a B3. Gringo na B3 empurra Ibovespa para 190 mil. Ibovespa a 190 mil empurra o brasileiro para uma euforia que convive, sem nenhum constrangimento, com malas de dinheiro voando de prédios e ministros do Supremo aparecendo como sócios de resorts com caça-níqueis e carteados.
É uma corrente de dominós belíssima. E, como toda corrente de dominós, termina quando uma peça não cai na direção certa.
O carnaval de 2026 começa com o mundo de ponta-cabeça. O juiz que mandava no caso mais importante do país saiu correndo. A bolsa bate recorde enquanto o sistema financeiro confessa seus pecados. O presidente favorito já não é tão favorito. A inflação americana cai quando deveria subir. E o dinheiro estrangeiro entra no Brasil como se este fosse um país sério.
Em quatro dias, a quarta-feira de cinzas chega. As fantasias saem. A purpurina gruda onde não deveria. E a pergunta que ninguém quer fazer é se essa inversão toda era só carnaval, ou se alguma coisa mudou de verdade embaixo da fantasia.
Bom carnaval. Fique de olho nas suas malas. Aparentemente, algumas ganharam asas.
-Ricardo Schweitzer




Parabéns! Comecei recentemente acompanhar seus artigos, mas sou assinante. Excelente texto! E o Brasil promete muitos bons textos esse ano!! :)
Coisa linda de texto.