O preço de estar certo no Brasil
ou: por que um gestor de fundos precisa de escolta armada para almoçar no Itaim
As últimas notícias me fizeram pensar muito em Vladimir Timerman.
Pensar em Timerman me fez pensar na minha própria hipocrisia. Porque eu nunca escrevi sobre ele. Nunca o mencionei publicamente. Nunca associei meu nome ao dele.
E agora, com a Operação Compliance Zero nas manchetes, com Vorcaro preso, com Tanure sendo investigado pela Polícia Federal, com a Justiça aceitando a denúncia de insider trading na Gafisa, eu fico aqui, confortavelmente sentado, pensando em escrever um texto elogioso sobre o homem que disse tudo isso antes de todo mundo.
O agravante: ao contrário da maioria do mercado, eu sou totalmente independente. Não tenho sócio institucional, não tenho banco por trás, não tenho rabo preso com ninguém. É um privilégio pelo qual paguei caro. E que torna meu silêncio ainda mais difícil de justificar: eu não tinha nem a desculpa que a maioria tinha.
Convenhamos que é fácil homenagear alguém depois que a história prova que ele estava certo. Difícil era estar ao lado dele quando a história ainda não tinha se decidido.
E eu tive a chance de estar, mas deixei passar.
Para quem não conhece: Vladimir Timerman é fundador da Esh Capital, uma gestora de investimentos de São Paulo. Filho do infectologista Artur Timerman - um dos maiores especialistas em AIDS do Brasil - e batizado em homenagem a Vladimir Herzog. Circula descalço pelo escritório em Pinheiros. Tem um tabuleiro de xadrez na mesa.
É o tipo de personagem que o mercado financeiro brasileiro classificou como “ativista”, que é a palavra educada que a Faria Lima usa para “incômodo”.
O modelo de negócio da Esh é comprar participações minoritárias em empresas e, a partir dessas posições, brigar contra controladores que ele considera terem governança ruim. Ele fez isso na Terra Santa, na Alliar, na Gol/Smiles, dentre outras.
Mas o caso que define a carreira dele, a epopéia pela qual ele pagou o preço mais alto, é a guerra contra Nelson Tanure.
Timerman denunciou, durante anos, irregularidades na Gafisa. Disse que Tanure manipulava operações societárias, usava informação privilegiada e operava como controlador oculto. Disse que existiam ligações entre Tanure, fundos offshore e o Banco Master. Disse que Daniel Vorcaro era cúmplice.
Ele disse tudo isso quando dizer tudo isso era considerado, na melhor das hipóteses, excentricidade. Na pior, “crime”.
E o sistema respondeu como sistemas respondem quando alguém aponta o que não deveria ser apontado. Tanure processou Timerman mais de dez vezes. A Justiça de São Paulo o condenou a quase dois anos de prisão por “perseguição” (stalking, no jargão técnico de quem quer transformar denúncia em patologia).
Teve busca e apreensão na própria casa. Censura prévia que o proíbe de falar sobre Tanure. A Abradin pediu R$ 20 milhões em indenização. O Banco Master e Vorcaro - representados pelo escritório da esposa de Alexandre de Moraes, na única causa reconhecidamente patrocinada por tal banca advocatícia em troca daquele contrato cujos termos vieram a público recentemente -, moveram queixa-crime por calúnia contra ele.
A queixa foi rejeitada em todas as instâncias. A Procuradoria-Geral de Justiça de São Paulo reconheceu, em parecer formal, que as denúncias de Timerman eram procedentes. A Justiça Federal aceitou a denúncia contra Tanure por insider trading. A PF deflagrou a Compliance Zero. Vorcaro foi preso. O Master foi liquidado.
Tire suas próprias conclusões.
Existe uma cena em Crime e Castigo em que Raskolnikov, o protagonista de Dostoiévski, se pergunta se tem o direito de transgredir a moral ordinária em nome de algo maior. A resposta de Dostoiévski é complexa: Raskolnikov está certo sobre a corrupção do mundo à sua volta, mas os métodos que usa para “corrigi-lo” o destroem por dentro.
Timerman não matou ninguém. Mas a estrutura narrativa é a mesma. Ele viu a fraude, decidiu que tinha o direito (ou o dever) de expô-la, e pagou um preço pessoal desproporcional. Excruciante.
A diferença é que Raskolnikov agiu por delírio filosófico. Timerman agiu porque era acionista da Gafisa e seu fundo dependia de que a governança funcionasse.
Isso nos leva à pergunta que seus críticos adoram fazer: ele fez por virtude ou por dinheiro?
Eu acho a pergunta fascinante. Principalmente porque ela é irrelevante.
Adam Smith resolveu esse dilema em 1776. Supõe-se que a maior parte dos membros do condado o leram. Não é da benevolência do açougueiro que esperamos o jantar. O padeiro não acorda às quatro da manhã por amor à humanidade. O capitalismo funciona (quando funciona) porque alinha incentivos privados com resultados públicos.
Timerman denunciou Tanure porque tinha pele em jogo. Seu fundo era acionista da Gafisa. A fraude que ele apontava destruía valor para os cotistas. O modelo de negócio dele dependia de que a denúncia fosse levada a sério. Ele tinha, ao mesmo tempo, toda a razão e todo o interesse.
Walter White, em Breaking Bad, começa cozinhando metanfetamina para pagar o tratamento de câncer e garantir o futuro da família. Conforme a série avança, fica claro que o câncer era pretexto. O que move White é algo mais visceral: a recusa em ser ignorado, a certeza de que o sistema que deveria reconhecê-lo o subestimou a vida inteira.
Quando diz “I am the danger”, White não está falando com os traficantes: está falando com todos que o subestimaram.
Timerman não é Walter White. Para começar, não tenho nenhuma evidência de que cozinhe metanfetamina. Mas a dinâmica é parecida: o ativismo dele é movido por uma mistura inseparável de convicção e interesse; de indignação e modelo de negócio; de raiva legítima e cálculo financeiro.
Os críticos querem que a gente escolha um lado. Eu me recuso.
A verdadeira questão não é se os motivos eram puros. É se o resultado foi justo.
Conclua como quiser.
Agora vem a parte em que eu preciso falar sobre o resto de nós.
Em 1964, uma mulher chamada Kitty Genovese foi assassinada em Nova York. O caso ficou famoso porque 38 vizinhos ouviram os gritos e ninguém ligou para a polícia. Virou referência clássica em psicologia social: o efeito bystander.
Quanto mais gente testemunha uma emergência, menor a chance de alguém agir. Cada um assume que o outro vai fazer alguma coisa. Ninguém faz nada.
O mercado financeiro brasileiro testemunhou o caso Timerman como os vizinhos de Kitty Genovese testemunharam o assassinato. A diferença é que os vizinhos de Kitty não tinham planilhas de Excel demonstrando que os gritos eram procedentes.
Vou ser direto: a maioria do mercado viu mérito nas denúncias de Timerman. Gestores, analistas, advogados, jornalistas. Muita gente sabia. Muita gente comentou em off. Muita gente balançou a cabeça com ar grave em jantares privados e disse “esse Tanure é complicado” antes de pedir a segunda garrafa de vinho.
E na hora de se manifestar publicamente? As exceções cabiam numa Kombi. Daquelas cuja parte de trás foi convertida em caçamba, para fazer pequenos fretes.
Eu me incluo nessa maioria silenciosa. Nunca escrevi uma linha sobre o assunto. Nunca me posicionei. Nunca associei meu nome ao de Timerman quando isso significava alguma coisa; quando ele precisava que outros dissessem “estamos vendo a mesma coisa”.
Confesso: não foi por acidente. Foi por cálculo. O risco reputacional de se associar a um cara que acumulava processos criminais era alto demais. O risco de ser arrastado para a mesma cama de gato jurídica era real. E eu sou peixe pequeno demais para me meter num imbróglio desse tamanho: meus filhos precisam comer.
E havia, sejamos honestos, um componente mais simples: covardia. A covardia racional de quem olha para o cara descalço brigando com o sistema e pensa: “alguém precisa fazer isso, mas esse alguém não precisa ser eu”.
Eu conheço Timerman pessoalmente. Estive com ele uma única vez, para almoçar um kebab no Itaim. Ele anda com segurança armado. Em pleno Itaim. Na hora do almoço.
Pense nisso por um momento. Um gestor de fundos precisa de escolta armada para almoçar num bairro nobre de São Paulo porque denunciou irregularidades corporativas. No lugar dele, eu também andaria.
Antes mesmo de me conhecer pessoalmente, Timerman confiou em mim para testemunhar em um procedimento arbitral movido contra ele. Por quem? Nelson Tanure. Ele confiou em mim. Eu nunca me manifestei publicamente por ele.
O anti-herói só existe porque os supostos heróis se recusam a aparecer.
Capitão América jamais ficaria quieto. Capitão América teria denunciado Tanure na CVM, convocado uma coletiva de imprensa e dado uma entrevista emocionante ao Fantástico.
Capitão América, representação fiel do arquétipo do herói puro, não existe. Não no mercado financeiro brasileiro. Não no mundo real. E é por isso que precisamos de anti-heróis. Precisamos de gente que faz a coisa certa pelos motivos impuros, porque gente que faz a coisa certa pelos motivos puros simplesmente não aparece.
Timerman apareceu. Descalço, barulhento, processado, censurado, e certo.
O pai dele batizou o filho em homenagem a Vladimir Herzog. O jornalista que a ditadura matou por dizer o que não podia ser dito. O filho cresceu e foi perseguido judicialmente por dizer o que não podia ser dito. Se pudesse antever o futuro, talvez o pai tivesse escolhido outro nome - ou, talvez, tivesse redobrado a convicção na escolha feita.
Nem todo herói usa capa. Alguns andam descalços por um escritório em Pinheiros.
Mas não quero terminar esse texto com uma celebração. Seria fácil demais. Mais do que isso: seria desonesto.
Porque o saldo da “vitória” de Timerman é o seguinte: anos de processos judiciais. Condenação criminal por stalking. Busca e apreensão na própria casa. Censura prévia. Ação de R$ 20 milhões. Reputação sistematicamente atacada pela máquina jurídica de um empresário que contratou como advogada a esposa de um ministro do Supremo.
A vindicação veio, sim. Mas veio depois que o Banco Master foi liquidado. Depois que Vorcaro foi preso tentando embarcar para Dubai. Depois que a Polícia Federal deflagrou a Compliance Zero.
Ou seja: foi necessário que o sistema inteiro desabasse para que alguém reconhecesse que o cara descalço de Pinheiros tinha razão.
Isso é uma história de redenção ou o maior desincentivo possível para o próximo denunciante?
E convém lembrar: a redenção moral não se traduziu em redenção financeira. O negócio de gestão de Timerman foi praticamente arruinado ao longo desses anos. A Esh Capital, que deveria ser o veículo da sua tese de investimento, virou o veículo da sua guerra pessoal contra o sistema.
Ele estava certo, e mesmo assim perdeu. No Brasil, ir contra o establishment (mesmo com razão) é algo um tanto quixotesco. Dom Quixote pelo menos tinha Sancho Pança. Timerman tinha uma Kombi vazia. E, agora, bolsos vazios.
O Brasil não tem um mecanismo funcional de proteção a denunciantes no mercado de capitais. A CVM, que deveria ser a primeira linha de defesa, atravessou essa história inteira como figurante.
A mensagem implícita para qualquer gestor que esteja vendo uma fraude agora é: se você abrir a boca, vai passar pelo que o Timerman passou. E talvez, daqui a cinco anos, alguém reconheça que você estava certo. Talvez.
Enquanto isso, os incentivos continuam intactos. Tanure processou Timerman com advogados que custam mais do que muita gestora fatura num ano. O Judiciário aceitou as teses de perseguição. A censura prévia foi concedida.
O custo de denunciar é assimétrico ao ponto de ser proibitivo para qualquer pessoa que não tenha a teimosia (ou a loucura) de um Vladimir Timerman.
O sistema só funcionou porque um indivíduo com incentivo econômico pessoal fez a grandessíssima bobagem de se dispor a pagar um custo pessoal e profissional completamente desproporcional. Não existe mecanismo institucional. Existe um cara descalço num escritório em Pinheiros que decidiu que não tinha medo.
A propósito: a julgar pelas suas publicações no LinkedIn, o próximo capítulo da trama é contra servidores de carreira da CVM. Acompanhemos. Pelo menos enquanto a Justiça não determina alguma censura prévia quanto a isso também.
Esta é, portanto, uma homenagem imperfeita a um anti-herói imperfeito. Não me peça para dizer que Timerman é um santo. Ele não é. Não me peça para dizer que seus métodos são irrepreensíveis. Não são. Não me peça para dizer que eu teria feito o que ele fez. Eu não fiz.
O que eu posso dizer é que, quando o mercado inteiro preferiu o silêncio, ele preferiu o barulho. E o barulho, desta vez, ressoou.
Fica o incômodo. É o mínimo que eu devo.




Uau, que texto maravilhoso Ricardo. Poucos são como o Timerman mas ninguém escreveu o que você escreveu nesse post. Vamos torcer para o Timerman já estar escrevendo o roteiro dessa série para a Netflix.
Perdi dinheiro com a ESH e não me arrependo. Sempre achei que estava do lado certo da história.