Escrevo excepcionalmente neste sábado, véspera do segundo turno, e não sei quem vai ganhar amanhã. Ninguém sabe.
Publico hoje de propósito. Daqui a pouco mais de 24 horas, metade do país estará comemorando e a outra metade, lamentando, e qualquer coisa escrita depois da apuração seria lida como festa ou como luto. Hoje, o que vem abaixo ainda pode ser lido pelo que diz.
Faço questão de explicar, porque a explicação é o argumento: uma lista de prioridades para o país que precisa esperar a apuração para ser escrita é uma lista de torcida. Esta, pelo contrário, serve para qualquer um dos dois: ganhe quem ganhar, o vencedor herda os mesmos problemas, com as mesmas datas de vencimento.
Comecemos pelo óbvio, que no Brasil precisa ser enunciado com a solenidade de uma revelação: o país precisa de menos facção e mais polícia que investigue, de fila menor no SUS, de menos corrupção, de esgoto tratado, de estrada que não mate… e por aí vai. Qualquer dos dois candidatos assinaria essa lista sem ler. E é por isso que ela não ganha mais do que este parágrafo.
Interessa-me a outra lista: a dos problemas que todo mundo conhece, mas que ninguém resolve e que atravessam governos de todas as cores com a saúde de um imortal.
Desconfio de que o motivo seja um só, e sobre ele eu falo lá no fim.
Primeiro: o brasileiro paga imposto de país rico.
A carga tributária fechou 2025 em 32,4% do PIB, a maior da série do Tesouro. A média da OCDE, o clube de que fazem parte Alemanha, Japão e Canadá, foi de 34,1% em 2024.
Estamos a menos de 2 pontos do Primeiro Mundo — pelo menos na hora de pagar. Na hora de receber, o retrato é outro.
O setor público acumulou, nos 12 meses até agosto, um déficit nominal de 9,5% do PIB. A dívida bruta está em 82,9% do PIB, e a Instituição Fiscal Independente, do Senado, projeta 95,7% para 2030, o último ano do mandato que começa em janeiro. Tradução: tudo o mais constante, quem tomar posse em janeiro vai entregar o cargo devendo quase um PIB inteiro.
Seria de esperar que um país que arrecada como a Alemanha e entrega o que entrega passasse os dias perguntando para onde vai o dinheiro. Não passa. A eficiência do gasto público é o grande ausente do debate brasileiro. Discute-se quanto se gasta, discute-se em quem se gasta, e quase nunca se discute o que se compra com o que se gasta.
O pouco que se discute chega atrasado, porque quase tudo já está comprometido antes de o presidente sentar na cadeira. No projeto de orçamento de 2027, quase 92% da despesa primária é obrigatória. Isso significa que quem for eleito terá menos de 1 real em cada 10 para efetivamente fazer alguma coisa: o resto do dinheiro já está todo carimbado.
E o clamor popular, ainda assim, é sempre por mais. Mais hospital, mais escola, mais polícia, mais programa, mais desconto, mais isenção para o meu setor, mais crédito barato para a minha causa. Mais governo, enfim, sob o pressuposto silencioso de que a conta vai para outro endereço: o rico, a empresa, o banco, o estrangeiro. Os outros.
Os outros, no Brasil, têm o CPF de todo mundo. Pagam no preço do arroz, na conta de luz, no imposto embutido em cada nota fiscal que ninguém lê. O Estado brasileiro é financiado por uma multidão de pessoas convictas de que não o financiam.
Não vou fingir que o pedido é irracional. Quem passa meses à espera de uma consulta com especialista tem toda a razão em querer mais SUS, e ninguém que dependa de escola pública precisa de lição sobre restrição orçamentária. O problema começa na pergunta seguinte, que nunca é feita: com que dinheiro, e quanto dele fica pelo caminho para que chegue lá na ponta o quanto é de fato necessário.
Por que ninguém faz essa pergunta em voz alta? Porque ela não fica bem num santinho, nem numa inserção de propaganda obrigatória.
Há uma explicação para a economia ter andado alguma coisa nos últimos anos, e não é das melhores. Não é a única, e não tenho a pretensão de que explique tudo. Mas são dois vetores fáceis de enxergar, e os dois estão sem combustível.
O primeiro é o gasto público. A despesa do governo federal cresceu bem acima da inflação no começo do mandato, e em 2025 cresceu de novo, 3,4% acima dela. Gasto público produz resultado rápido e visível: obra, contratação, benefício na conta. É a alavanca mais à mão de qualquer governo, e foi usada.
O segundo é o crédito às famílias. O saldo de empréstimos a pessoas físicas cresceu 39% entre o fim de 2022 e o fim de 2025, cerca de 22% acima da inflação do período. Com emprego em alta e crédito à disposição, as famílias fizeram o que famílias fazem: compraram.
Agora chegaram as faturas. O governo não tem mais espaço para gastar: a dívida sobe por conta própria, só com os juros, que custaram ao setor público quase 9% do PIB nos últimos 12 meses. As famílias não têm mais renda para se endividar: comprometem quase 30% do que ganham com o pagamento de dívidas, o recorde da série do Banco Central. A inadimplência de pessoa física está na casa dos 6%, também a maior já registrada. Oito em cada dez famílias estão endividadas.
O próprio Banco Central já cortou a previsão de crescimento deste ano para 1,8% e projeta 1,4% para 2027, com o consumo das famílias perdendo fôlego. Desemprego de 5,3% está perto do chão, e do chão só se sai para cima.
Quem assume em janeiro herda, portanto, uma tarefa de equilibrista: conter o gasto público exatamente quando as famílias deixam de conseguir gastar, numa economia que desacelera. É uma bomba que não se desarma. Na melhor das hipóteses, haverá uma explosão controlada e um esforço de contenção de danos. A conta vai chegar à popularidade do novo governo, seja ele qual for, e é provável que chegue antes do fim do primeiro ano.
Por que ninguém desarmou a bomba antes? Porque ela é de efeito retardado, e o mandato tem 4 anos.
Agora passemos ao longo prazo, começando pelo assunto mais chato da República.
A Previdência do setor privado vai custar mais de 8% do PIB em 2026. São 40 e poucos centavos de cada real que o governo federal gasta, antes de juros. A IFI projeta isso alcançando 9% do PIB lá por 2035 — e dali para a frente essa curva só sobe por conta da demografia: o Brasil está envelhecendo antes de ficar rico.
Todo mundo sabe disso. E todo mundo tem bons motivos para não fazer nada a respeito. Ninguém quer se aposentar mais tarde. Ninguém quer contribuir mais — e com razão: o desconto no contracheque é concreto e mensal, e o benefício é abstrato e distante. Todos concordam que o envelhecimento da população é um problema gravíssimo, desde que seja um problema a ser resolvido pelos outros.
O resultado é um país que “reforma” a Previdência como quem troca a sola do sapato. Desde 1988, mexeu-se nas regras em 1998, 1999, 2003, 2005, 2015 e 2019, para ficar nas mudanças grandes. Algumas apertaram, outras afrouxaram o que a anterior tinha apertado. A de 2019, a maior de todas, saiu do Congresso com a economia prevista encolhida em cerca de um terço e deixou estados e municípios de fora.
Uma reforma de verdade, daquelas que resolvem para uma geração, exigiria um capital político que não aparece desde a Constituinte. Não vejo razão para supor que vá aparecer nesta geração — talvez, também, em nenhuma outra. O mais provável é que continuemos como estamos: de meia-sola em meia-sola, empurrando o problema para quem vier depois, até que a sola não aguente mais e alguém se descubra com a batata quente na mão sem ter mais a quem repassar. Então algo vai acontecer, e o custo político, econômico e social será estratosférico.
Por que ninguém resolve de uma vez? Porque o custo de uma reforma séria é altíssimo e é cobrado na eleição seguinte, enquanto o benefício vence daqui a 30 anos, quando quem a aprovou já estará aposentado.
O trabalhador brasileiro produz hoje, por hora trabalhada, pouco mais do que produzia quando eu era criança.
Entre 1982 e 2018, a produtividade da hora de trabalho cresceu, em média, 0,4% ao ano. Em mais de 3 décadas, isso dá um ganho acumulado de uns 15%. Uma geração inteira para produzir 15% a mais. Em 2025, a produtividade cresceu de novo 0,4%, como se o país quisesse provar que a média não era acidente.
Há muitas explicações para isso, e boa parte delas cabe numa sala de aula.
O Brasil gasta em educação pública 4,5% do PIB, mais do que a média da OCDE. Como o PIB é pequeno e as crianças são muitas, isso se traduz em cerca de US$ 4 mil por estudante, menos de um terço dos quase US$ 14 mil da média dos países ricos. No PISA de 2022, o aluno brasileiro tirou 379 pontos em matemática; a média da OCDE foi 472.
Os dois diagnósticos que costumam disputar esse dado estão parcialmente certos. Sim, falta dinheiro por aluno, mas também falta saber gastar o dinheiro que existe. Quem diz que o problema é só verba esquece que o país, no consolidado, já gasta como se fosse país rico — e, portanto, mais educação significaria menos outra coisa sem que haja qualquer consenso sobre qual é essa outra coisa. Quem diz que é só gestão esquece que gestão nenhuma transforma 4 mil dólares em 13 mil.
O efeito sobre a produtividade é direto: não existe máquina, software ou fábrica moderna que compense um trabalhador que não consegue entender o manual. Capital físico se importa em navio; capital humano se forma em 15 anos de escola boa, e não há porto que o traga pronto.
Há exemplos de que dá para melhorar. O Ceará virou referência nacional em alfabetização com uma política mantida por governos sucessivos durante muitos anos. O detalhe que importa é exatamente esse: “muitos anos” e “governos sucessivos”.
Por que ninguém prioriza de verdade? Porque a criança alfabetizada em 2027 só chega ao mercado de trabalho na década de 2040, e até lá ninguém se lembra de quem a alfabetizou — nem ela mesma.
A outra face da produtividade é a empresa, e aí o retrato não melhora.
A indústria de transformação respondeu por menos de 12% do PIB em 2025. A fatia do Brasil no valor que a indústria do mundo inteiro produz caiu para 1,2% em 2023, a menor da série da ONU. No ranking de competitividade do IMD deste ano, o Brasil ficou em 65º lugar entre 70 países — a pior posição já registrada, atrás de Chile, Argentina, Colômbia e Peru.
Isso acontece numa das economias mais fechadas do mundo, com tarifa média de importação na casa de 12%. A indústria brasileira conseguiu a proeza de encolher protegida.
O debate sobre isso costuma opor dois times: a indústria pede (mais) proteção, (mais) crédito subsidiado, (mais) incentivo setorial e câmbio (mais) desvalorizado; os economistas, do interior de seus gabinetes, pedem abertura e concorrência. Os dois têm parte da razão: abrir de uma vez quebra quem não tem como competir carregando o custo de produzir no Brasil. Proteger para sempre cria empresas que só sobrevivem protegidas. No meio, há empregos de verdade e cidades inteiras que vivem em torno de uma fábrica, e nenhuma teoria elegante dispensa quem governa de olhar para elas.
O que dá para fazer é menos glamouroso do que escolher setores campeões: consiste em tornar mais barato produzir aqui. Um sistema tributário que não exija um departamento só para ser entendido, uma infraestrutura logística que não represente um desafio extra a quem produz, contratos que valham o que dizem, e gente com formação para operar o que se compra — este último item é o bloco anterior visto do outro lado do balcão.
Por que ninguém faz? Porque redução de custo sistêmico não somente bate lá na questão fiscal, lá de cima, como ainda por cima não tem fita para cortar.
Fala-se pouco, quase nada, de desenvolvimento regional. É estranho, porque o Brasil é vários países dentro de um mapa só.
Em 2023, o PIB por habitante do Sudeste foi de uns R$ 68 mil. O do Nordeste, cerca de R$ 28 mil: 2,5 vezes menor. O do Norte, um pouco acima. O Sul vem logo abaixo do Sudeste, e o Centro-Oeste tem o maior PIB por habitante do país, apoiado no agronegócio e no Distrito Federal, onde mora a máquina pública: uma região próspera, sustentada por dois motores que não se replicam.
Nas regiões pobres, a falta de desenvolvimento tem uma mecânica conhecida. Pouca escola boa forma pouca mão de obra qualificada; pouca mão de obra qualificada atrai pouca empresa; pouca empresa gera pouco emprego formal; e a renda, na falta de emprego, passa a vir da transferência do governo. A família que depende da transferência de renda tem filhos que estudam em escola ruim e vive numa região onde a própria falta de mão de obra qualificada desincentiva a abertura de empresas. O círculo se fecha e se perpetua.
O Nordeste tem 27% da população brasileira, responde por ~14% do PIB e cerca de 46% das famílias são atendidas pelo Bolsa Família.
Ninguém deveria ser contra dar de comer a quem tem fome, e quem trata transferência de renda como esmola nunca precisou dela. O problema é outro: num país onde a pobreza se concentra em regiões inteiras, a transferência deixa de ser ponte e vira destino. O debate passa a ser sobre o tamanho do cheque, a cada eleição, e a emancipação das pessoas fica para depois — um depois que nunca chega.
Ninguém escolhe nascer num lugar sem escola boa e sem emprego formal. A estrutura escolheu por elas.
E a persistência dessa situação machuca o pacto federativo. Uma parte do país sente que sustenta a outra; a outra sente que foi esquecida. As duas têm sua parcela de razão, e é desse ressentimento mútuo que se alimenta muito do que há de pior na política nacional.
Por que ninguém resolve? Porque o cheque rende voto no mês seguinte, e a escola, a estrada e a fábrica levam uma década. No Brasil há eleição a cada 2 anos.
Repare nas respostas que fui deixando no fim de cada bloco.
A pergunta que não cabe no santinho. A bomba de efeito retardado num mandato de 4 anos. A reforma cujo custo vence na eleição seguinte. A criança que ninguém lembrará de ter alfabetizado. A obra sem fita para cortar. O cheque que rende voto no mês seguinte.
São seis problemas diferentes e uma explicação só. A regra do jogo político brasileiro premia o que dá popularidade imediata e pune o que exige paciência. As contas públicas em frangalhos e as famílias no limite são o que acontece quando se faz qualquer coisa pelo aplauso de curto prazo. Educação, previdência, indústria e desenvolvimento regional são o que fica para trás quando as reformas que importam são antipáticas, caras em capital político e não rendem voto.
Não é surpresa que décadas se passem sem que o país avance no que é estruturalmente importante. Surpresa seria o contrário.
O incentivo está à vista de quem quiser olhar. O deputado brasileiro é eleito disputando votos no estado inteiro, inclusive contra os colegas do próprio partido, e sobrevive levando obra e verba para a sua base. As emendas parlamentares, que eram cerca de R$ 4 bilhões em 2015, chegaram a quase R$ 50 bilhões em 2024, em valores corrigidos: 12 vezes mais em menos de 10 anos. Segundo um estudo de 2022, a fatia do orçamento que o Congresso brasileiro controla é cerca de 20 vezes a média dos países da OCDE. Em 14 países desse clube, os parlamentares praticamente não mexem no orçamento.
Ninguém precisa ser vilão de filme para o resultado sair assim; basta responder racionalmente às regras que se tem. E o resultado é que sobra política de governo e falta política de Estado.
Seria o momento de apresentar a solução, e é aqui que preciso ser franco. Não sei qual seria o desenho ideal. Tampouco sei qual seria o desenho possível, que é o único que interessa num país de carne e osso: discutir o ideal é exercício de quem trata o Brasil como uma partícula sem massa num tubo de vácuo, e o Brasil tem massa, atrito, interesses legítimos em conflito e uma sociedade que hierarquiza suas urgências por critérios que nenhuma planilha captura.
O que sei é por que o desenho possível é tão difícil. As regras do jogo só podem ser reescritas por quem joga o jogo, e a reescrita que importa é justamente a que tornaria o jogo menos favorável a quem vai votá-la. É esperar que as raposas aprovem um projeto de reforma do galinheiro que aumenta a segurança das galinhas.
Não sei como resolver.
Volto a amanhã.
Alguém vai ganhar. Uma parte do país vai dormir com a sensação de ter salvado a pátria, e a outra, de tê-la perdido. As duas vão gastar os próximos meses discutindo o vencedor, e esse é o assunto errado.
Em janeiro, ele recebe uma conta que não fecha, famílias sem fôlego para gastar, uma Previdência que envelhece mais rápido que o país, uma escola que não forma, uma indústria que encolhe protegida e um mapa partido ao meio. Recebe também a regra do jogo que produziu tudo isso, intacta, e a mesma razão de sempre para não mexer nela.
E nós receberemos o resultado disso tudo. De novo.
Vote em quem achar melhor. Escrevi este texto sem saber quem vai ganhar, e termino sem precisar saber.
Ricardo Schweitzer



