Desde o dia 5 a pergunta chega de todo lado, de cliente e de quem nunca foi cliente, com variações de redação e nenhuma de conteúdo: que ação comprar para uma vitória do Flávio Bolsonaro?
Naquela segunda-feira o Ibovespa subiu 7,7% num pregão só e fechou no recorde, 206.912 pontos. Os juros futuros despencaram e o dólar caiu 4%, parando em R$ 5,00. Escrevi aqui há duas semanas sobre o que essa alta supõe a respeito do país. Hoje quero falar de quem pergunta.
A pergunta chegou depois da alta. Ela sempre chega depois.
Eu ganho a vida dizendo a gente adulta que investimento tem plano, que o plano se cumpre todo mês, e que a notícia do dia quase nunca deveria mudar coisa alguma. Digo isso em relatório, em vídeo, em email, em conversa de corredor.
Repito há anos, com a constância de quem sabe que ninguém está anotando.
Quem pergunta que ação comprar para a vitória de alguém está fazendo duas apostas e só percebe uma.
A primeira é na eleição. Essa ele sabe que está fazendo, e é a que menos me preocupa: cada um tem direito a seu palpite, e as pesquisas da véspera erraram o primeiro turno deste ano, o que nivela bastante o campo entre o especialista e o palpiteiro do bar.
A segunda aposta é que a vitória ainda não está no preço. Essa ele faz sem saber, e é a que já perdeu. O mercado passou uma segunda-feira inteira respondendo exatamente a essa pergunta, com dinheiro de verdade, e cobrou 7,7% pela resposta. Os bancos subiram, as ações sensíveis a juros subiram, as varejistas endividadas subiram como se tivessem descoberto petróleo.
Duas semanas depois, a pergunta chega à minha caixa de entrada com a resposta já paga. Pagou quem comprou antes. Quem pergunta agora está se oferecendo para ser o comprador de quem comprou antes.
Há variações mais criativas. Um leitor me perguntou se deveria incorporar uma classe de ativos inteira, que ele nunca teve, para surfar o resultado eleitoral. A classe era fundo imobiliário: o lugar onde menos sentido faz esperar ganho explosivo de curto prazo. Ele queria pegar onda de pedalinho.
Todo mundo teve um colega assim. Alguns de nós fomos esse colega.
O semestre começa com o professor anunciando a matéria, a data da prova e o peso de cada trabalho. Ele repete na segunda semana, na quinta, na oitava. Escreve no quadro. Manda por email. O colega está presente em boa parte das aulas, de corpo, e ausente em quase todas, de cabeça. Há sempre algo mais urgente: o estágio, o namoro, o campeonato, a festa de quinta que começa na quarta.
Durante quatro meses, a matéria fica para depois.
Depois é uma palavra confortável: ela não tem data. Até o dia em que tem.
Na véspera da prova, o colega acorda. Acorda com uma energia que não teve o semestre inteiro, a energia de quem decidiu fazer em oito horas o que eram dezesseis semanas. Corre à copiadora, que já tem fila. Compra a apostila que o professor indicou em março. Toma o terceiro café às onze da noite.
E então faz a pergunta que denuncia tudo. Liga para o colega que estudou e não pergunta como se resolve aquilo, nem por que a fórmula é assim. Pergunta: o que vai cair?
Ele não quer aprender a matéria; quer adivinhar a prova. Quer o atalho que transforma quatro meses de ausência numa noite de presença.
Às vezes funciona. O suficiente para ele acreditar no método e repeti-lo no semestre seguinte. Na maioria das vezes, a nota sai parecida com o chute, a matéria some da cabeça uma semana depois, e o que sobra é o cansaço de uma noite em claro que comprou pouca coisa.
O professor assiste à fila da copiadora e não diz nada. Avisar, ele avisou.
Os dados não ajudam quem prefere a véspera.
Das seis eleições entre 2002 e 2022, a bolsa subiu no pregão seguinte ao primeiro turno em cinco. Neste ano subiu de novo, mais do que em qualquer uma delas. Em 2014, subiu 4,7% com o candidato preferido do mercado no segundo turno, e ele perdeu. Em 2022, subiu 5,5% pelo mesmo motivo, e o candidato perdeu.
Quem comprou “a vitória” nessas duas segundas-feiras comprou uma alta que a urna devolveu.
Em 2018, a aposta acertou. O candidato preferido do mercado ganhou, as estatais do chamado kit Bolsonaro dispararam no dia seguinte ao primeiro turno, de 10% a quase 18%, e o investidor que fez a conta certa foi dormir tranquilo. A maior delas, a Petrobras, terminou o ano 15% abaixo do preço daquela segunda-feira, e abaixo até do preço da sexta anterior à eleição.
Errar a eleição custa caro. Acertar a eleição também pode custar.
Quem quer comprar a vitória de um candidato parte de uma premissa: a de que os últimos anos foram ruins para investir no Brasil.
Os índices dão razão a ele. O problema é que o índice não é a bolsa.
De janeiro de 2022 ao começo de setembro deste ano, o Ibovespa rendeu 73%, contando os dividendos. O CDI rendeu 76%. Quem carregou o risco do índice da bolsa brasileira por quase cinco anos ganhou menos do que quem deixou o dinheiro na renda fixa. As small caps, como grupo, terminaram o período praticamente onde começaram: 2%, em quatro anos e oito meses.
E mesmo assim deu para ganhar dinheiro investindo em ações no Brasil.
A carteira do RS Dividendos começou em janeiro de 2022. Até setembro, entregou 138%, contra 105% do índice de dividendos da própria bolsa. Passaram por ela vinte ações, compradas com preço-teto, mantidas enquanto a tese ficou de pé e vendidas quando deixou de ficar. Uma delas foi vendida com prejuízo.
Nenhuma foi comprada porque alguém ganhou ou perdeu uma eleição. Sem emoção, sem manchete, sem segunda-feira de 7,7%.
Ponha os dois números lado a lado. O melhor dia do ano rendeu 7,7%, e nem isso ficou com quem reage à notícia: ficou com quem já estava lá na sexta-feira. Quatro anos e oito meses de lição de casa renderam 138% a quem fez a lição.
Então a pergunta que eu devolveria a quem me escreve é outra. Se você é guiado pela notícia do dia, o que faz com o seu dinheiro depois que a notícia passa?
A não ser que a alta do pós-eleição resolva a sua vida, e para quase ninguém resolve, aquilo é dopamina e assunto para o churrasco de domingo. É acertar a dieta e o treino num dia só, sem a menor ideia do que vai comer amanhã.
Falta de aviso, garanto, não houve.
Falo de small caps quando ninguém quer ouvir falar de small caps. O interesse aparece em massa quando elas já subiram 40%. Falo de dolarizar parte do patrimônio com o câmbio calmo, e a fila se forma quando o dólar dá o primeiro susto. Falo de bolsa quando a bolsa está barata e esquecida; a caixa de entrada lota quando ela bate recorde.
Sempre o mesmo movimento: meses de sono, uma manhã de pânico ou de euforia, e a decisão de fazer de uma vez o que deveria ter sido feito aos poucos. Sempre depois.
O óbvio ululante é que o plano não é sexy que nem a notícia. O plano é um aporte numa data fixa, numa quantia fixa, com um destino decidido meses antes. Ninguém conta no jantar que fez o aporte do mês. A notícia tem candidato, pesquisa, recorde, alguém ficando rico na televisão. A notícia tem enredo. O plano tem planilha.
Talvez eu fale do jeito errado. Sinceramente, não sei. Sei que repito a mesma coisa há anos e que as perguntas mudam de assunto sem mudar de forma.
Uma sugestão para os três dias que faltam. Ela vale com qualquer resultado e não depende de nome.
Antes de perguntar o que comprar se ele ganhar, responda: o que você faria se ele perdesse? E, se ele ganhar e a bolsa cair mesmo assim, como caiu a Petrobras em 2018?
Enquanto eu escrevia estas linhas, saiu uma pesquisa nova com empate técnico, 45% a 44%. O Ibovespa, que abria em alta, virou para o negativo ainda pela manhã. Até domingo virá mais uma, e mais outra, e o preço vai mudar de humor com cada uma delas.
Se a resposta honesta à pergunta acima é “vendo tudo”, a sua carteira tem um palpite no lugar do plano. Plano de investimento que depende de um resultado binário e incerto é aposta, da mesma família da bet do celular. Muda só o aplicativo.
O que funciona com qualquer resultado é chato o bastante para ninguém perguntar por ele. Escrever quanto se põe por mês e em quê, em que proporção. Aportar numa data que não depende do noticiário. E rebalancear quando a proporção fugir do combinado, numa data marcada com antecedência, que é a única ferramenta que conheço capaz de fazer alguém vender um pouco do que subiu e comprar um pouco do que caiu sem ter de vencer o próprio estômago.
O rebalanceamento faz, por regra, o contrário da véspera.
Domingo tem eleição. Segunda tem pregão. Na terça já estará chegando a próxima pergunta, sobre outra coisa que acabou de subir.
Quanto à pergunta do título: não sei o que vai subir na segunda. E pouco me importa a resposta. A recomendação mais concreta que consigo dar para esta semana é não faça nada.
Se havia algo a fazer na sua carteira, era para ter sido feito há muito tempo, aos poucos, por método. Esta é justamente a semana em que o julgamento de todo mundo está mais comprometido: pesquisa de manhã, virada à tarde, grupo da família à noite. Decisão tomada nesse ambiente sai com a cara do ambiente.
O que vale pensar agora é exatamente o que valeria pensar com 5, 10 ou 20 anos pela frente, seja quem for o próximo presidente. Quanto, em quê, em que proporção, por quanto tempo. Nenhuma dessas respostas muda no domingo.
Eu, nesta semana, não estou fazendo nada. Desde o primeiro turno, nenhuma recomendação de nenhum produto meu subiu. As que mudaram foram para baixo, e duas delas porque o papel, no embalo da festa, passou do preço-teto; numa delas, mesmo depois de eu ter subido o teto para refletir o juro mais baixo. O método mandou rebaixar no exato momento em que a manchete mandava comprar.
Oportunidade aparece, e costuma aparecer sem aviso. Quem estudou o semestre inteiro recebe a questão surpresa com alguma calma, porque a matéria já está lá. Quem não estudou mete os pés pelas mãos, e é nessa hora que se compra fundo imobiliário para surfar eleição.
Investir na véspera da prova é isto: fazer numa noite o trabalho de meses e pagar a diferença no preço. A prova, aqui, não acaba no domingo. Ela dura o tempo que o seu dinheiro ficar investido, e a matéria foi anunciada no primeiro dia de aula.
Uma última coisa — e esta é comercial, sem disfarce.
Se você chegou até aqui e prefere a lição de casa à véspera, a carteira do RS Dividendos é o jeito que eu conheço de fazê-la. Não espero reviravolta nenhuma nela na segunda-feira. Espero (e expectativa não é garantia) que o método continue fazendo nos próximos anos o que fez nos últimos: sem emoção, sem frenesi, sem depender de quem ganha eleição.
Seria muito mais fácil inventar uma escassez para convencer você a pegar o cartão de crédito agora. Vaga limitada, preço que sobe à meia-noite, última chance antes de domingo. Seria marketing mentiroso, do mesmo tipo que me fez sair do mercado de research. Não estou aqui para isso.
E é justamente por não me prestar a isso que a maior parte de quem ler estas linhas vai pular o botão abaixo e deixar para depois. Daqui a quatro anos, vai ler um texto idêntico a este, lamentar por alguns segundos o que poderia ter sido e perguntar de novo qual ação vai subir mais na segunda-feira seguinte.
Questão de escolha.
Ricardo Schweitzer




Após alguns textos sobre café e outros assuntos, os quais também li, nos presenteou com esse texto sensacional, pura aula de mercado, parabéns e obrigado!