Há um cachorro no meu condomínio. Porte médio, branco com manchas pretas, sem nome.
Ninguém o batizou. Batizar é o primeiro passo para adotar, e adotar é justamente o que ninguém quer fazer, de modo que o cachorro atravessa os dias como certos parentes atravessam as festas de família: todo mundo sabe quem é, ninguém sabe como chamar.
Não tem endereço fixo. Circula. Passa os dias na frente de uma casa específica, por razões que vou explicar adiante e que ele próprio desconhece por completo.
É dócil na maior parte do tempo. Na menor parte, já ameaçou avançar em alguns moradores, e quem levou o susto tem todo o direito de não achar graça nenhuma. Registro isso logo, para que ninguém me acuse de escrever fábula: o cachorro tem seus dias ruins, e quem o quer longe tem seus motivos.
De todos os moradores, ele é o único que dorme bem no momento. Não sabe que é um problema, pois não lê o grupo de WhatsApp.
O condomínio se dividiu em três partidos, como acontece em qualquer lugar onde há mais de duas pessoas e um assunto.
O maior é o dos alheios. Não alimentam, não reclamam, não leem a discussão até o fim. São a maioria, e a maioria tem uma vantagem enorme sobre as minorias: ninguém espera nada dela.
O alheio atravessa a crise inteira com a serenidade de quem não foi convidado para ela, e de certa forma não foi mesmo.
O segundo partido quer que o cachorro simplesmente suma.
O verbo é exatamente esse, e é um verbo curioso, porque não tem destino. Ninguém propõe para onde. Sumir é uma solução que dispensa logística: o cachorro deixa de estar aqui e passa a estar em lugar algum. Que fica, por coincidência, fora do campo de visão de quem pediu.
É a mesma política que a humanidade aplica ao lixo desde que inventou o caminhão.
O terceiro partido se preocupa com o bem-estar dele. Leva comida, defende o animal no grupo, se indigna com quem quer vê-lo pelas costas. Solução, também não tem, mas a ração está sempre em dia.
Os três divergem em quase tudo e concordam num ponto só: alguém precisa resolver isso. E esse “alguém”, nos três casos, é outra pessoa.
Agora, a casa.
Uma vizinha, por pena, começou a dar comida ao cachorro na frente de casa. Pena é a origem de quase tudo de bom e de quase tudo de complicado que acontece num condomínio. O cachorro, que de bobo não tem nada, entendeu o recado e se instalou ali.
A partir daí, a calçada dela virou assunto público. O raciocínio do grupo era simples e, como quase todo raciocínio simples, injusto: quem alimenta é responsável. Ninguém explicou responsável por quê, nem com que meios, nem até quando.
A tensão subiu até o ponto em que o marido dela se viu obrigado a colocar uma barreira na frente da própria casa, para que o cachorro que a mulher alimentava não entrasse mais.
Peço ao leitor que releia a frase anterior com calma. Dentro de uma mesma casa, ergueu-se uma barreira contra a consequência de uma bondade.
E então veio o desdobramento que nenhum roteirista ousaria propor, por inverossímil: outras vizinhas, protetoras dos animais, começaram a levar comida exatamente para o mesmo lugar. Para a frente da casa cercada.
A caridade, como se vê, tem preferência de endereço. É generosa com o cachorro e econômica com a própria calçada.
Tentou-se o que se tenta nessas horas.
A prefeitura lavou as mãos, com a eficiência que costuma reservar a essas ocasiões. As ONGs estão lotadas — como estão lotadas sempre, porque o abandono de animais é das poucas indústrias brasileiras que nunca conheceram crise. Lar temporário existe, é privado e custa dinheiro. Dinheiro que ninguém quer pagar.
A administração do condomínio fez o que administrações fazem quando não sabem o que fazer: emitiu um aviso. O recado, em substância, era que poderia haver consequências para quem alimentasse o animal. Quais consequências, e com base em quê, ficou por conta da imaginação de cada um.
O regimento tem regras sobre animais. Várias. Todas pressupõem que o animal tenha dono. O cachorro sem dono escapa das duas listas, a do proibido e a do permitido: está fora do papel. A norma foi escrita para um mundo em que todo cachorro tem alguém que responde por ele, e esse mundo, pelo visto, fica em outro condomínio.
Há um nome técnico para esse tipo de impasse, e prometo usá-lo uma única vez: benefícios difusos, custos concentrados. Quando o problema se resolve, todo mundo ganha um pouco; quem resolve paga tudo sozinho.
Diante dessa conta, a decisão sensata de cada morador é esperar. E é o que cada morador faz, com uma sensatez impecável.
Enquanto isso, o grupo do condomínio.
Começou com o cachorro, como era de esperar. Reclamações, defesas, defesas das defesas. Em pouco tempo o cachorro virou pretexto. As pessoas descobriram que tinham coisas a dizer umas às outras havia anos, e um animal sem nome ofereceu a ocasião que faltava.
Vieram os ataques laterais, aqueles que não têm nada a ver com o tema e por isso mesmo machucam mais. Implicâncias antigas saíram da gaveta, ainda com a etiqueta de preço.
No auge, alguém resolveu questionar a administração por causa de quem vende comida sem nota fiscal dentro do condomínio. Partimos de um cachorro sem dono e chegamos à Receita Federal. Ninguém sabe dizer em que momento a curva foi feita.
O cachorro certamente não sabe.
Condomínio é o único regime em que todos têm direito a voz e ninguém tem dever de ação. A voz, aliás, se exerce com uma disposição admirável, e de preferência depois das onze da noite.
Resta falar de mim, que é a parte constrangedora.
Eu não alimento o cachorro. Não sou do partido das protetoras nem do partido do sumiço. Tenho, como todo mundo, coisas incontáveis para fazer, e reclamo da falta de tempo com a regularidade de um relógio de parede.
Mas, infelizmente, não consigo ficar impassível diante da guerra civil instaurada no grupo. Resultado? Agora estou coordenando esforços para dar um destino digno a um cachorro que não é meu, que não me escolheu e que, se pudesse opinar, provavelmente preferiria que eu o deixasse em paz.
Chamar isso de compaixão renderia elogios no grupo. Quem me conhece chamaria de cansaço, e quem me conhece está certo.
Existe um tipo de pessoa que não consegue ver um problema parado. Chamo isso de defeito de fabricação: uma intolerância à paralisia que de longe se parece com virtude e de perto se parece com irritação. Quem tem esse defeito sabe exatamente do que estou falando, e sabe também que ele não tem cura, só recaídas.
Esse impasse tem uma saída que nenhum manual descreve. O custo acaba caindo em alguém, e esse alguém costuma ser o mais impaciente, quase nunca o mais indicado.
A solução que todos esperavam que viesse de outra pessoa vai mesmo vir de outra pessoa. Desta vez, a outra pessoa sou eu.
Ainda não há solução. Estou tentando. Se der certo, ninguém vai lembrar quem fez; se der errado, todos vão lembrar quem tentou. É a cláusula padrão de quem se mete.
Escrevo sobre um cachorro, mas desconfio que o leitor já trocou o cachorro por outra coisa faz uns três blocos.
Troque por um buraco na rua, um semáforo quebrado, a escola do bairro, o rio que transborda todo verão. O roteiro sobrevive à troca sem perder uma vírgula. Todo mundo vê o problema. Todo mundo concorda que alguém precisa fazer alguma coisa.
A maioria reclama. Uma minoria bem-intencionada corre em direções diferentes, cada uma com seu pote de ração. Quem tinha o dever de agir emite um aviso. E, cedo ou tarde, um incauto toma o problema para si.
Encontrar um culpado é a única tarefa coletiva que executamos com eficiência, e o incauto facilita o trabalho: ele se oferece. A partir do momento em que alguém se mete, o problema ganha dono, e dono era exatamente o que faltava para que houvesse a quem culpar.
Fiz uma conta de padaria, sem rigor nenhum. Somadas as mensagens, as indiretas e as réplicas das réplicas, um décimo da energia gasta reclamando do cachorro bastaria para resolver o caso. A indignação, porém, tem uma propriedade curiosa: quanto mais se queima, menos o carro anda.
Sinceramente, não sei em que momento viramos uma gente que prefere ter razão a ter solução. Sei apenas que o condomínio é o lugar onde isso se vê de perto, com nome, endereço e pote de ração na calçada.
E o cachorro?
Segue onde sempre esteve, comendo a ração das protetoras, indiferente à barreira, ao regimento, à prefeitura, às ONGs, à nota fiscal e a mim. Atravessou a maior crise institucional da história do condomínio sem perder uma hora de sono.
Causou tudo isso sem fazer nada. Bastou existir.
Confesso uma inveja que não fica bem num adulto. De todos nós, ele é o único que não espera que alguém resolva coisa nenhuma.
Ricardo Schweitzer




Sensacional! a conta cai no colo de quem se mete!
Caramba! Esse condomínio é o Brasil. "Viva o povo brasileiro". Sempre esperamos quem resolva nossos problemas. Se rezaram a algum Santo... eis que surge São Ricardo, próximo síndico do condomínio (brincadeiras à parte).
Tem sido muito agradável ler seus ensaios, como o de hoje que de um assunto tão banal, você consegue transformar numa verdadeira aula de civismo, nos convidando à reflexão.
Grande Abraço, meu caro!