PMAM3: o Barsianismo self-service (e por que ele quase sempre termina mal)
ou: a distinção que o público que se diz seu seguidor mais ignora.
Em 13 de novembro de 2025, a B3 enquadrou PMAM3 (Paranapanema, também conhecida como Paranaproblema) como penny stock. Trinta pregões consecutivos abaixo de R$ 1, prazo até 02 de julho de 2026 para a ação se recompor.
Não recompondo, a empresa perde a autorização para negociação na bolsa. A notícia ocupou três parágrafos numa matéria de portal e morreu ali. Ninguém comentou.
O único movimento relevante em torno da empresa veio de seis meses antes, em abril: Luiz Barsi Filho havia comunicado à CVM uma posição de 5% do capital. Em janeiro de 2026, reduziu para 3,5%.
Os dois fatos coexistem. Esta carta é sobre o que está embaixo dessa coexistência.
A Paranapanema entrou em recuperação judicial em 30 de novembro de 2022. Variação cambial sobre dívida em dólar, prejuízo de R$ 317 milhões no terceiro trimestre, dívida total na casa dos R$ 450 milhões. O plano foi aprovado por credores em agosto de 2023 e homologado em novembro do mesmo ano. Conversão de dívida em ações em seis etapas; a primeira, homologada em valor parcial, foram R$ 10,5 milhões.
A ação, no caminho, derreteu. PMAM3 abriu janeiro de 2026 cotada a R$ 0,67. Em dez anos, perdeu 97% do valor. Em 13 de novembro de 2025, depois de trinta pregões abaixo de R$ 1, recebeu o enquadre de penny stock da B3. O prazo de adequação termina em 02 de julho de 2026. Se a empresa não se reenquadrar até lá, a B3 pode cancelar a autorização para negociação dos papéis. Não é rebaixamento de segmento; é remoção da bolsa. Nesses casos a saída prática é grupamento de ações — e foi assim que a Inepar, em maio de 2023, escapou do enquadramento penny stock pelo qual passava à época.
Barsi declarou 5% do capital à CVM em abril de 2025. Reduziu para 3,5% em janeiro de 2026. Os dois números são oficiais, comunicados feitos por ele. Tudo o mais sobre a posição é interpretação.
A leitura preguiçosa é fácil de fazer. Ou Barsi “sabe algo que ninguém sabe”, sentido fideísta da imprensa adoradora; ou Barsi “finalmente errou”, sentido contrário, igualmente preguiçoso.
As duas leituras tratam o caso como decisão pessoal isolada. As duas falham porque ignoram a distinção que o próprio Barsi sempre fez explícita.
Em entrevistas dadas ao longo de duas décadas, ele dividiu o portfólio em dois bolsos. O primeiro é o núcleo, que ele chama de previdenciárias: bancos, energia, seguradoras, saneamento, transportes e telecom. Empresas que pagam dividendo recorrente, em fluxo previsível, e que sustentam o que ele e a família consomem. É esse o método que ele recomenda em entrevista, é esse o método que ele defende em livro, é esse o método que ele explica em palestra.
O segundo bolso, que outros costumam chamar de satélite, são apostas oportunistas; posições de baixa convicção pública, casos contraintuitivos comprados com a sobra do fluxo das previdenciárias.
Barsi não esconde esse segundo bolso. Mas também não o ensina (pelo menos não como “fundamento” do seu método). E há razão para isso.
PMAM3 nunca foi previdenciária. Sempre foi oportunidade/satélite. Não é Barsi mudando de método sob pressão da bolsa encolhendo; é o lado satélite que sempre existiu, que ele sempre admitiu ter.
Antes de qualquer crítica, é preciso colocar uma coisa em claro: o método é correto.
Dividend investing, na versão personalizada que Barsi pratica ou na versão despersonalizada que outros, inclusive eu, defendem, é o que a maioria dos investidores individuais deveria fazer. É arroz-com-feijão. Empresas estabelecidas, fluxo de proventos, paciência de décadas, reinvestimento composto. Quem segue isso por trinta anos chega a algum lugar relevante. Quem segue isso por quarenta chega a um lugar muito relevante. Não há atalho mais comprovado, nem mais entediante, na renda variável brasileira.
O problema do varejo não é falta de bons métodos. É falta de paciência para ficar só no arroz-com-feijão. A indústria de cursos brasileira sabe disso, vive disso, e construiu um ecossistema inteiro vendendo a sensação de que o atalho existe, desde que você compre o curso certo, ou o seguidor certo, ou a planilha certa.
Não existe. O que existe é tempo, e a maioria não tem paciência para esperar o tempo fazer o trabalho dele.
Os números esclarecem o que a retórica esconde.
Barsi tinha, em estimativa publicada pela Exame em junho de 2024, patrimônio na casa de R$ 4 bilhões. É número que ele próprio não publica e que não está atualizado para 2026, mas que serve como ordem de grandeza: bilhões, com B. Em 2021, declarou ter recebido mais de R$ 170 milhões em dividendos só de Unipar num único ano. À CNN Brasil chegou a dizer que Eletrobras isolada lhe pagava, à época, R$ 300 mil por mês. Posição que ele já reduziu substancialmente desde então.
Quando ele declarou 5% de PMAM3 em abril de 2025, a empresa valia perto de R$ 131 milhões na bolsa. A posição declarada valia, portanto, cerca de R$ 6,5 milhões. Sobre R$ 4 bilhões, isso é 0,16%. Em janeiro de 2026, com a posição reduzida para 3,5% e o marketcap derretido para algo na casa de R$ 82 milhões, a aposta valia cerca de R$ 2,9 milhões. 0,07%.
Conclusão: PMAM3 pode ir a zero amanhã, e o fluxo de dividendos das previdenciárias dele segue pagando o dia de Barsi sem qualquer ajuste.
Agora, o varejo. Quem tem R$ 200 mil investidos e ouve “Barsi comprou PMAM3, vou comprar também” raramente aloca pouco. A psicologia do retail brasileiro empurra para o oposto: 5%, 10%, 20%, às vezes mais. Alocar pouco é, na cabeça do investidor convicto, “perder oportunidade” ou “não acreditar de verdade”. Em sizing relativo, é uma aposta que vai de 30 a mais de 100 vezes maior do que a do próprio Barsi, conforme a dose de convicção. Em casos extremos passa de 200 vezes.
Mesmo ticker no portfólio, jogos completamente diferentes. De um lado, um bilionário diversificado faz uma microaposta de cauda; de outro, o investidor médio brasileiro faz uma alocação que, se virar zero, dói por anos.
Há ainda duas camadas finas de erro epistemológico em “comprar porque Barsi comprou”.
Primeira camada: transferência indevida de responsabilidade. Barsi não tem que dar satisfação a ninguém sobre o que faz com o próprio dinheiro. Pode mudar de ideia em silêncio, pode reduzir posição sem entrevista, pode sair completamente sem dever explicação. Quem segue está aceitando, sem perceber, o risco de descobrir, daqui a um ano, que continua segurando uma ação que ele já vendeu há tempos. A redução de 5% para 3,5% entre abril de 2025 e janeiro de 2026 não veio com pronunciamento.
Quem ainda está em PMAM3 hoje porque “o Barsi está em PMAM3” pode estar copiando uma posição que ele continua reduzindo sem aviso.
Segunda camada: o cemitério silencioso. Toda mitologia de investidor infalível é construída sobre os ganhadores que ele cita e os perdedores que ele não cita. Não há ocultação. Não há obrigação de citar perdedor; ninguém é obrigado a colecionar fracasso em público. Mas a memória pública é seletiva, a indústria de cursos tem incentivo para reforçar a seleção, e o resultado é a percepção de uma carreira de acertos que ignora aritmética básica.
Há perdedores. Sempre há. O que muda é se você os enxerga ou não. Não é exclusivo de Barsi. É traço estrutural de qualquer figura que vira ícone, de Buffett a Lynch, de Soros a Klarman.
Falo daqui de uma cicatriz com história, não de teoria.
Já gastei tempo razoável da minha vida com teses de reestruturação. Em alguns casos a aposta deu certo em tempo aceitável; Taurus foi o exemplo mais claro. A tese funcionou e o timing fechou. Ao longo do caminho descobri que Barsi também estava posicionado em Taurus, e desde muito antes de eu encontrar o caso. A coincidência me chamou atenção na época. Hoje, olhando para trás, vejo que estávamos no mesmo papel jogando jogos completamente diferentes.
Pelo que é público, Barsi acumulou Taurus ao longo de anos durante o período em que a empresa esteve sob estresse financeiro severo. A então Forjas Taurus teve prejuízo em todos os exercícios entre 2013 e 2017; em 2017, o prejuízo bateu em R$ 286 milhões e a dívida líquida fechou em R$ 723 milhões, com a empresa atrasando pagamento a fornecedores e a recuperação judicial discutida abertamente como cenário plausível. Em dezembro de 2018 ele declarou ter atingido 10,33% das ações preferenciais, posição construída em “múltiplas aquisições” anteriores. Ou seja: acumulou durante a crise, não depois dela.
A virada da Taurus veio entre 2018 e 2019, e veio em duas frentes que se sobrepuseram. A primeira foi interna: a fábrica passou por uma ampla reestruturação operacional, que acompanhei de perto à época, e o CFO daquele momento conduziu um esforço de guerra na frente financeira para reorganizar a estrutura de capital. A segunda foi externa: a posse do governo seguinte em janeiro de 2019 abriu uma janela regulatória de armas que ninguém previu em 2014 ou 2015.
A ação disparou. O caso entrou para o folclore como prova de paciência e convicção.
O detalhe que importa para a leitura honesta do caso é este: salvo engano (e não tenho qualquer problema em me retratar se errado estiver), as pessoas que executaram a virada operacional e financeira não eram as mesmas de quando Barsi começou a acumular a posição. A empresa que se levantou em 2018-2019 era, em boa medida, uma empresa diferente da que ele tinha comprado anos antes. Logo, ele não anteviu a virada interna, que dependeu de gestão competente que entrou na empresa depois dele, nem a virada externa, que dependeu de uma eleição que ninguém antecipava em 2014. A posição foi salva por dois vetores alheios à decisão original.
O resultado financeiro exato da posição em Taurus não é público. Barsi não publica P&L pessoal por papel, e ninguém deveria esperar que publicasse. Mas o ponto não depende desse número: o ponto é que a entrada original não tinha como prever nem o esforço de gestão que viria depois nem o ambiente regulatório que viria ainda mais à frente.
Foi mérito de paciência ou foi destino? As duas coisas, em proporções que ninguém sabe medir; mas só uma das duas vira mito.
Isso é sobre Barsi e é sobre qualquer investidor que vira ícone. É como mitologia funciona: quem tem muitas posições (e, ao que parece, Barsi tem) quase sempre encontra alguma que dá certo, e os casos que dão certo são os que entram para a narrativa pública. Os que dão errado, ou os que dão certo apenas por força do destino, ficam de fora. É o cemitério silencioso operando do lado de dentro do próprio portfólio, antes mesmo de qualquer biógrafo escrever uma linha.
Do alto dos meus quarenta anos, cheguei a uma conclusão que demoraria menos para chegar se tivesse ouvido melhor a primeira vez: reestruturação tem mais a ver com adrenalina do que com retorno ajustado pelo trabalho que dá. Hoje defendo primeiro o arroz-com-feijão dos dividendos, porque é o que de fato funciona para o investidor individual. Apostas satélite, em sizing humilde, podem entrar; mas só depois que o núcleo está consolidado. E mesmo aí, com a expectativa correta: a maioria não vai dar certo, e tudo bem.
Volto ao caso.
PMAM3 segue listada. Em 02 de julho de 2026, ou a ação se recompõe ou a empresa pode perder a autorização para negociação. Barsi, ao que se sabe, segue comprado com sizing reduzido, e nada do que ele faça ou deixe de fazer é da sua conta. Mas o que você faz com o seu dinheiro é da sua conta.
Se quer ser que nem o Barsi, seja por completo e pela ordem correta. Núcleo previdenciário primeiro, com paciência. Oportunidades depois, com sobra. E mesmo assim, com sizing que não destrua sua vida se der errado.
O resto não é homenagem ao método. É álibi: usar o nome do Barsi como fiador de uma aposta que ele nunca faria, em sizing que ele nunca toleraria, e ainda devolver a conta para ele quando der errado.
-Ricardo Schweitzer
P.S.: Se quiser aprender o método do Barsi, o lugar é o AGF — turma para quem aproveito esse artigo para enviar um caloroso abraço. Se quiser recomendações objetivas e fundamentadas que, muito embora não sejam explicitamente barsianas, bebem de fontes comuns, o RS Dividendos está à disposição por menos de R$20 mensais. A escolha é sua — e, seja qual for, desde que você pare de fazer bobagem com o seu dinheiro, eu fico feliz.



