Sicário: a testemunha que não vai testemunhar
ou: no Brasil, a conveniência de certos fatos dispensa explicações.
Em 2003, a polícia de Belo Horizonte conheceu Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão pelo apelido de Mexerica.
Ele tinha sido preso na Delegacia de Repressão ao Furto e Roubo de Veículos. Receptação, a entrada clássica no currículo. Dentro da cela da delegacia, Mexerica tentou encerrar a própria existência. Não conseguiu. O delegado da época, Cláudio Utsch, lembrou do caso décadas depois com um detalhe que resume o Brasil melhor do que qualquer editorial: Mexerica casou com a filha dele.
O bandidinho casou com a filha do delegado. Em qualquer outro país, isso seria anedota. No Brasil, é prólogo.
Em 4 de março de 2026, Mexerica já tinha outro nome, outro salário e outra cela. Agora era Sicário — palavra que, no latim, significa “homem da adaga.” A etimologia não é coincidência: sicários eram os assassinos profissionais de Roma, conhecidos pela sica, uma lâmina curva que cabia debaixo da toga. O instrumento perfeito para quem precisava agir perto do poder sem ser visto.
A PF o descrevia como chefe operacional d’A Turma, milícia privada do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
O salário era de R$ 1 milhão por mês, pago pelo cunhado do banqueiro e distribuído entre os membros da equipe com a regularidade de uma folha de pagamento corporativa. Em troca, Sicário providenciava acesso ilegal aos sistemas da própria PF, do MPF, do FBI e da Interpol. Monitorava jornalistas, ex-funcionários, concorrentes, empregadas domésticas, enfim: qualquer um que Vorcaro considerasse ameaça ou inconveniência.
Nas mensagens recuperadas do celular do banqueiro, ele aparecia recebendo ordens para “puxar endereço tudo” de uma empregada que o patrão queria “moer”, e para organizar um assalto ao jornalista Lauro Jardim — objetivo declarado: “quebrar todos os seus dentes.” Mourão conhecia a rotina dominical de Jardim. Sabia onde ele estaria.
Entre Mexerica, o receptador de veículos de BH, e Sicário, o chefe de milícia com acesso à Interpol, há vinte e três anos e um caminho que o Brasil pavimentou com a maior naturalidade.
Não é uma história de exceção. É uma história de ascensão.
Preso de manhã. Encontrado desacordado na cela à tarde, uma camiseta enrolada na grade. Levado ao Hospital João XXIII. Às 18h55 de 06/03, a confirmação de que ele não voltaria mais à cela. No dia 8, encontrou no Cemitério do Bonfim seu novo endereço.
A questão que vai ficar sem resposta não é a mais óbvia.
O diretor-geral da PF declarou que a sequência de eventos dentro da cela está filmada “sem pontos cegos.” O vídeo foi enviado ao gabinete do ministro André Mendonça. E lá está, em sigilo, enquanto um inquérito supostamente “apura as circunstâncias”. A defesa de Sicário declarou que, às 14h daquele dia, ele estava em “plena integridade física e mental”. Horas depois, o quadro mudou sensivelmente.
O que aconteceu entre 14h e o momento em que ele foi encontrado do jeito que foi? A resposta existe em algum servidor, em algum arquivo, nas mãos de alguém com interesse em não respondê-la.
Não estou dizendo o que aconteceu. Estou dizendo que há uma câmera, um sigilo e um inquérito. E que esse conjunto de elementos tem um histórico, no Brasil, que o leitor conhece melhor do que eu.
Em 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi encontrado numa cela do DOI-CODI, em São Paulo, em circunstâncias que você, leitor, sabe muito bem. É impossível ser brasileiro e não conhecer esse caso.
O establishment da época alegou que tal desfecho fora fruto de atos do próprio Herzog. A fotografia da cena circulou, e qualquer um com olhos na cabeça percebeu que o relato oficial desafiava as leis da física.
O que se seguiu foi uma das lutas mais longas da história recente do país. Família, colegas, advogados, Ordem dos Jornalistas, Igreja Católica. Décadas de pressão organizada, memória coletiva deliberadamente mantida viva por gente que tinha razões pessoais para não deixar o assunto morrer.
Em 2013, quase quarenta anos depois, a História foi oficialmente reescrita. Ao contrário do que foi sustentado sistematicamente por assombrosos 38 anos, não foi o próprio Herzog que provocou o que ocorreu naquele dia 25 de outubro.
A busca pela verdade só persistiu porque havia gente que amava Vladimir Herzog. Ou porque, mesmo sem afeto à pessoa dele, via no caso uma bandeira que merecia ser empunhada. Havia uma causa. Havia um nome que merecia ser lembrado e defendido. A memória de Herzog era um projeto coletivo; e esse projeto tinha patrocinadores com energia suficiente para durar décadas.
A diferença entre Herzog e Sicário não é política. É mais simples, e muito mais suja.
Sicário não lutava contra o establishment. Pelo contrário: era parte de uma organização criminosa. Recebia um milhão por mês para intimidar empregadas domésticas, monitorar jornalistas e planejar surras a mando de um banqueiro.
Sicário era um bandido, como tantos outros. Da pior espécie. Ninguém vai fazer vigília por ele. Não haverá nenhuma ONG engajada na apuração dos fatos. Ninguém vai escrever uma peça de teatro. Não haverá “comissão da verdade” em favor dele. Não haverá décadas de pressão organizada. Não haverá família com energia para sustentar uma causa. É altamente provavel que o vídeo da cela acabe envelhecendo em sigilo até que o inquérito seja arquivado por falta de interesse de quem deveria ter interesse. E o assunto vai para debaixo do tapete da História, sepultado pela próxima fase da operação e pelo próximo escândalo.
Isso é o que torna o seu perecimento conveniente de um jeito que sua vida nunca foi.
Vivo, Sicário era o elo entre Vorcaro e tudo que Vorcaro mandou fazer que não consta em nenhuma mensagem de WhatsApp, em nenhum servidor periciado, em nenhum iCloud. O que estava no celular a PF já tem. O que estava na cabeça dele foi embora com ele. A delação que poderia ter acontecido, a voz numa sala com um promotor e um acordo na mesa, o mapa completo d’A Turma, os nomes que ainda não apareceram em nenhum auto… nada disso vai acontecer. É esse o meu ponto. E esse ponto é alívio para muita gente nesse exato momento.
Pode ter sido por uma decisão de Mexerica, pode ter sido por outra coisa. Tanto faz: nos dois casos, o resultado é o mesmo, e serve ao mesmo conjunto de pessoas: quem precisava que ele calasse está dormindo melhor esta semana. Quem estava nos grupos de WhatsApp que a PF ainda não viu está dormindo melhor esta semana. Quem tinha nome na lista de colaboradores de Sicário e não tem nome em nenhum servidor… está dormindo melhor esta semana. Aliviado por saber que há grandes chances de o assunto ficar por isso mesmo.
Parabéns. Durmam em paz. Em um País onde tanta coisa funciona mal, dessa vez podemos nos orgulhar: o sistema funcionou. Perfeitamente. Para quem deveria funcionar.
-Ricardo Schweitzer




Mexerica genro do delegado é muito Nelson Rodrigues!
Receio de você deixar a carreira de analista do mkt financeiro e abraçar a carreira de cronista definitivamente…