Tudo funcionava enquanto ninguém perguntava
ou: Frankenstein, Trump, Vorcaro e outros experimentos que deram errado
Frankenstein não é uma história de monstro. É uma história de consequências. O doutor cria algo que não deveria existir, recusa-se a reconhecê-lo, e passa o resto do livro surpreso com os resultados. O leitor, naturalmente, não se surpreende com nada.
Esta semana, o doutor teve um dia difícil.
Vários doutores, na verdade.
Comecemos pelos Estados Unidos, onde aconteceu ontem a coisa mais previsível do mundo, que ninguém previu.
A Suprema Corte americana derrubou as tarifas de Trump por 6 a 3.
O Chief Justice John Roberts redigiu o acórdão. Donald Trump havia nomeado três dos seis juízes que votaram contra ele. Roberts foi indicado por George W. Bush numa época em que Bush ainda achava que deixaria um legado respeitável. Gorsuch e Barrett foram escolhas do próprio Trump no primeiro mandato.
A criatura, convocada ao laboratório, olhou para o doutor e disse não.
Trump chamou os juízes de “desleais à Constituição” e “influenciados por interesses estrangeiros”. A bolsa subiu. Horas depois, ele anunciou novas tarifas usando uma lei diferente. Porque a criatura pode queimar o laboratório, mas o doutor não cancela o experimento.
O que muda na prática é mais complicado do que parece. Metade das tarifas cai. A outra metade, imposta com fundamentos legais distintos, permanece. O governo pode dever até US$ 175 bilhões em reembolsos a importadores, num processo que o próprio Kavanaugh, no voto dissidente, descreveu como “provável bagunça”.
Para quem aprecia eufemismos jurídicos: “bagunça” numa dissidência da Suprema Corte é o equivalente a um cirurgião dizendo, no meio da operação, que ficou mais complicado do que o esperado.
Para o Brasil, o efeito imediato é favorável: dólar mais fraco, fluxo de capital para emergentes, Ibovespa respirando. O mercado, que tem a memória de um peixe-dourado e o otimismo de um golden retriever, leu a notícia e comprou.
Trump também lançou esta semana o “Board of Peace”, sua alternativa particular à ONU. Reuniu líderes de quase 50 países em Washington, prometeu US$ 10 bilhões em recursos americanos sem consultar o Congresso, e nomeou a si mesmo presidente do órgão por tempo indeterminado. O objetivo declarado é reconstruir Gaza como um resort de luxo com arranha-céus.
Não estou inventando nada disso.
O doutor criou uma instituição, colocou-se no comando permanente dela, e anunciou que vai financiá-la com dinheiro que não é seu.
É, em linhas gerais, o modelo de negócio de metade dos réus do caso Master.
No Brasil, o doutor chama-se Vorcaro. E o laboratório está em chamas há semanas.
O Banco Central liquidou o Banco Pleno na quinta-feira: mais um nó do ecossistema Master. Controlado por Augusto Lima, que vendia abadás de carnaval antes de virar banqueiro. Com o Pleno, o custo total do caso para o Fundo Garantidor de Créditos beira R$ 52 bilhões.
A matemática está fazendo o que a matemática sempre faz: existindo, independentemente de quem preferia que ela não existisse.
O que torna o caso verdadeiramente notável não é a escala. É a repetição: a BRK, liquidada em 2023, operava o mesmo esquema, com os mesmos personagens, e já havia custado quase R$ 2 bilhões ao FGC.
O ensaio geral aconteceu às claras. O regulador assistiu. Ninguém interrompeu a peça. Dois anos depois, a peça principal estreou no mesmo teatro, com elenco ampliado e orçamento maior.
Vorcaro não construiu apenas um banco. Construiu um sistema que funcionava enquanto ninguém fazia as perguntas óbvias. O problema é que as perguntas óbvias sempre chegam, no mais tardar quando a PF bate na porta, desde que nenhum ministro do STF esteja do outro lado segurando a maçaneta.
André Mendonça reverteu as decisões de Toffoli, liberou a PF para investigar sem restrições e tornou facultativo o depoimento de Vorcaro na CPMI do INSS. Mendonça herdou o caso por sorteio depois que Toffoli “decidiu” se retirar voluntariamente, com a espontaneidade de quem vê a criatura acordar e opta por estar em outro cômodo.
A imprensa chamou de gesto republicano. Cada um com seus eufemismos.
Há uma quarta criatura, mais quieta e mais perigosa que todas as outras.
Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG, disse esta semana com todas as letras o que a maioria prefere dizer em código: estabilizar a dívida pública brasileira exige um ajuste de 2% do PIB. Nenhum governo, incluindo o que eventualmente suceder o atual, tem condições políticas de fazê-lo.
A conclusão lógica é que o ajuste não será feito. A conclusão seguinte, que Mansueto não disse mas deixou no ar como perfume de outra pessoa no elevador, é que a trajetória continua.
Enquanto isso, a Previc revelou que 233 planos de previdência fechada estão no vermelho, com déficit somado de R$ 28 bilhões. Os fundos de pensão, que já concentram 86% da carteira em renda fixa, planejam aumentar ainda mais essa fatia conforme os juros caem.
É uma lógica circular de beleza quase matemática: a queda de juros que o mercado deseja vai deteriorar exatamente o sistema que sustenta boa parte do mercado.
A criatura fiscal não foi criada esta semana. Ela cresce há décadas, alimentada por emendas parlamentares, penduricalhos, déficits que se acumulam e planos previdenciários que fazem promessas que os juros baixos não conseguem cumprir.
Não tem pressa. Sabe que o doutor vai continuar fingindo que ela não existe.
Sobre o carnaval e suas consequências políticas, o Planalto em pânico com os evangélicos e a oposição ameaçando judicializar o samba: escrevi na terça-feira com o espaço que o assunto merecia. O link está aqui. A criatura também samba.
Para fechar a semana com a dignidade que ela merece: Trump, no mesmo período em que a Suprema Corte lhe aplicou a derrota mais humilhante do segundo mandato e o Oriente Médio flertou com mais uma guerra, encontrou tempo para ordenar a liberação dos arquivos governamentais sobre extraterrestres e OVNIs.
A criatura de Frankenstein não queria destruir o doutor. Queria ser reconhecida. O doutor recusou. O resto não é tragédia. É contabilidade.
Neste ponto, os alienígenas são a parte menos surpreendente da semana. E olha que a semana incluiu um homem se autoproclamando presidente vitalício de uma ONU que ele mesmo inventou.
-Ricardo Schweitzer




Excelente texto Ricardo