No último 25 de setembro, que foi uma sexta-feira, a Simpar (SIMH3) fechou a R$ 8,32 na B3. Na terça desta semana, as ações fecharam a R$ 13,78. Foram 66% de valorização em 7 pregões. No mesmo período, a empresa não fez nenhum anúncio que justificasse isso.
A alta veio em duas prestações. A primeira, de 30%, saiu na semana em que as pesquisas de segundo turno convergiram para o empate técnico entre Flávio Bolsonaro e Lula. A segunda, de 28% em 2 pregões, veio depois que Flávio terminou o primeiro turno à frente de Lula.
É fácil inferir que a ação andou por motivos que não passam pelo balanço da companhia, mas sim pelo balanço das intenções de voto.
E Simpar não foi caso isolado: só nos 2 pregões depois do primeiro turno, a Movida subiu 33%, a Vamos 27%, a JSL 23%. Fora do grupo, Ecorodovias e Pague Menos foram a 31%, Cyrela e Magazine Luiza passaram de 20%. Na segunda-feira o Ibovespa ganhou 7,7% num dia só e fechou no recorde, 206.912 pontos.
Alguma coisa mudou, e não foi na Simpar. Para entender o quê, é preciso olhar para a metade da conta que quase ninguém olha.
Uma ação vale o dinheiro que a empresa vai gerar daqui até o fim dos tempos, trazido para hoje. Fluxo de caixa em cima, taxa de desconto embaixo. Todo analista aprende isso no primeiro mês e passa o resto da carreira fingindo que a parte difícil é a de cima.
A parte de cima é o que a empresa faz: vende mais, gasta menos, toma mercado, erra a aquisição. Muda, claro. Mas muda no ritmo do mundo real, que tem contrato assinado, fábrica para construir, cliente que demora a decidir.
Revisão de premissa operacional vem em degraus de alguns por cento, trimestre a trimestre, e quase sempre atrasada. A única exceção é quando a margem é fina demais: um crescimento de 1 centavo para 2 centavos é uma variação percentual de 100%, e a variação percentual é muito mais interessante na manchete de jornal do que o número.
A parte de baixo é outra criatura. A taxa de desconto começa nos juros, e juro de longo prazo é uma opinião coletiva sobre o futuro de um país, reprecificada a cada pregão por gente que acordou de bom ou de mau humor — e, ainda por cima, é afetada pelo bom ou mau humor de quem escreveu as principais notícias do dia.
Numerador e denominador mudam. Em tempos diferentes, escalas de tempo diferentes, velocidades diferentes e intensidades diferentes.
Pense em duas empresas. Uma entrega quase todo o seu valor nos próximos 5 anos: paga dividendo gordo, cresce pouco, deve pouco. A outra promete o grosso do seu valor para depois de 2035, quando o plano de expansão maturar. Corte 1 ponto da taxa de desconto.
A primeira mal percebe. A segunda se descobre instantaneamente mais valiosa sem ter feito rigorosamente nada para isso, apenas porque o dinheiro que está longe é justamente o que mais sente o desconto.
Agora ponha dívida na segunda. Dívida funciona como alavanca: se o valor da empresa sobe 10%, a dívida continua do mesmo tamanho: todo o valor adicional vai para o acionista. Vale ter em mente que a recíproca é verdadeira, mas nesta semana ninguém está muito preocupado com reciprocidade.
Crescimento longo embutido no preço, mais alavancagem financeira. Quando as duas coisas moram na mesma ação, o nome técnico é nitroglicerina.
E a lista da semana é um catálogo do gênero: a Simpar fechou o segundo trimestre com dívida líquida perto de 3 vezes EBITDA; Movida e Vamos vivem de comprar frota a crédito e alugar; construtora depende de financiamento longo; varejistas frequentemente conciliam margens baixas e alto potencial de crescimento… enfim.
A bolsa sobe inteira porque a premissa de custo de capital caiu para todo mundo. Sobe mais quem tem mais futuro no preço, mais dívida no balanço ou as duas coisas.
Já estabelecemos, então, que a tônica da semana tem mais a ver com o denominador do que com o numerador. A pergunta que interessa, então, é o que o denominador está supondo.
Nos 2 pregões depois do primeiro turno, a NTN-B 2035 saiu de 7,52% para 6,94% de juro real.
Dizer que o juro real de longo prazo do Brasil deve ser 7% em vez de 8%, ou 6% em vez de 7%, é fazer uma afirmação sobre as contas públicas dos anos à frente. Juro real longo alto é o preço que o credor cobra para financiar um governo cuja dívida ele não sabe onde vai parar. Passar a cobrar menos significa acreditar que o futuro de hoje é melhor do que o futuro de ontem.
Para a dívida parar de crescer em relação ao PIB existem dois caminhos principais, ambos conhecidos desde que inventaram o orçamento: arrecadar mais ou gastar menos.
(Crescer mais também ajuda, mas crescer mais é o que todo governo promete e nenhum entrega por decreto)
Os dois caminhos custam caro. A aposta do governo atual foi no primeiro — e, claramente, a aposta não se pagou. O segundo exige bancar a consequência do corte do gasto: topar ser impopular cedo. E governo impopular cedo perde poder de barganha no Congresso e chega mal à eleição seguinte.
Independente disso, o mercado parece ter se convencido nesta semana de que o mundo político vai arcar com o preço cheio sem pestanejar.
Suponha que sim. Há até um número circulando: segundo a coluna de Mônica Bergamo, na Folha, um assessor da campanha de Flávio Bolsonaro apresentou em setembro a uma consultoria de risco político uma proposta de corte de R$ 190 a 200 bilhões em despesas — perto de 1,5% do PIB —, numa “Super PEC” de até 10 medidas. A aprovação, segundo o relato, viria antes da posse.
Vale pôr o número ao lado do orçamento: o de 2027 foi enviado ao Congresso em 31/08 e deve ser votado até 2208. Dos R$ 2,8 trilhões de despesa primária, ~92% são obrigatórios — aquela parte que não se corta com caneta. A despesa discricionária do Executivo inteira, que é onde a caneta alcança, soma ~R$ 220 bilhões. Se for anual, o corte relatado é do tamanho de quase toda ela.
Daí a PEC: o dinheiro está quase todo do lado obrigatório, e mexer em boa parte dele é mudar a Constituição. São precisos 308 deputados e 49 senadores, em 2 turnos em cada Casa.
Antes da posse, em 5 de janeiro, quem vota é este Congresso, em fim de mandato, nas mesmas semanas em que vota o orçamento. O Congresso novo só chega em fevereiro. Pelo mesmo relato, há gente da própria equipe que considera o calendário inviável.
E se desse para cortar fundo? Teríamos a política fiscal virando de expansionista para contracionista enquanto a monetária ainda aperta, com a Selic em 13,75% e o próprio mercado projetando inflação de 5% este ano e de 4,3% no ano que vem. A receita é conhecida: desemprego subindo, massa salarial caindo, renda disponível comida por uma inflação que ainda não foi embora. Impacto no PIB. Tudo isso num presidencialismo de coalizão, em que cada voto no Congresso tem preço e o preço sobe quando o governo cai nas pesquisas de popularidade.
Ajuste fiscal duro com popularidade em queda é uma frase que o Brasil já tentou escrever algumas vezes, mas raramente chegou ao ponto final.
Mas vamos conceder tudo. Boa intenção, equipe competente, Congresso cooperativo. Sobram duas perguntas que o preço desta semana respondeu sem que ninguém tivesse perguntado.
A primeira é de velocidade. O mercado tirou 58 pontos-base do juro real da NTN-B 2035 em 2 pregões. Pagou-se o apartamento pelo preço de pronto, e a obra não tem nem alvará. O ajuste que justificaria isso, se vier, vem em anos. Entre a promessa precificada nesta semana e a primeira evidência fiscal de verdade há pelo menos 18 meses de notícias, e cada uma delas pode mexer no denominador para qualquer lado.
A segunda é sobre o depois. Segundo o mesmo relato, a proposta traz uma moeda de troca: o compromisso de não disputar a reeleição em 2030, para que o custo do aperto não pese na própria candidatura. Resolve o problema do chefe do Executivo, mas os deputados que vão sustentar o governo a partir de fevereiro disputam 2030 do mesmo jeito — e cobram de acordo.
E quem herda o país depois de 4 anos de ajuste, drástico ou gradual? O pêndulo volta, a próxima eleição premia quem prometer desfazer o aperto, e o ciclo recomeça? Ou o preço está dizendo que o Brasil entrou numa nova fase, de equilíbrio e responsabilidade, daquelas que a gente reconhece em outros países e nunca viu morar aqui?
Não temos como saber. O incômodo é que o preço se comporta como se soubesse.
Este texto não tem lado. O raciocínio valeria igual com os nomes trocados, e vai valer na próxima eleição também.
Quando o motor é o numerador, a alta tem a inércia do mundo real: demora para vir e demora para ir. Quando o motor é o denominador, a alta tem a estabilidade de uma pesquisa eleitoral (e olhe lá). Muda se, por qualquer motivo, as intenções de voto virarem até o dia 25. Muda, também, se o eleito de verdade se mostrar menos parecido com o eleito imaginado — coisa que costuma acontecer com mais frequência do que se gostaria. Muda inclusive se acontecer, nesse ínterim, qualquer coisa lá fora que ofusque a dinâmica política local: nunca nos esqueçamos que, no plano dos mercados de capitais globais, o Brasil fica a duas linhas de distância da Turquia em uma planilha de mercados secundários.
Euforia é uma posição sobre o denominador que a pessoa toma sem saber que tomou.
O exercício que proponho é menos divertido e mais útil: procurar as ações que fazem sentido a preço de hoje mesmo supondo que o Brasil não melhora tanto assim. Se melhorar, tanto melhor: a conta fecha com folga. Se não melhorar, quem fez a conta desse jeito terá dependido menos de sorte.
-Ricardo Schweitzer
Este é um artigo de opinião. Os títulos e valores mobiliários aqui mencionados visam apenas ilustrar os argumentos apresentados, de forma que tais menções não são e não devem ser interpretadas como recomendações de investimento de qualquer natureza.




Raciocínio bem ponderado e equilibrado. Pena que esteja faltando gente adulta no mercado.