A camisa que ninguém pediu
ou: sobre sapos venenosos, gírias inventadas e o país que odeia o que compra
Eu tinha nove anos quando Roberto Baggio chutou para a lua e Taffarel ficou parado olhando a bola que não veio. Ou veio. Sinceramente, não lembro. Lembro da sala do apartamento do meu pai, do sofá bege, de gente que eu não conhecia gritando, e de não entender por que aquilo importava tanto.
Era julho de 1994 e o Brasil era pentacampeão (ou tetracampeão, tanto faz). Eu estava ali por osmose; pela gravidade social que o futebol exerce sobre quem mora neste país e comete o pecado silencioso de não se importar.
Nunca dei bola para bola. Futebol, para mim, sempre foi pão e circo na versão atualizada: o circo é transmitido em 4K e o pão está mais caro. É um fenômeno que observo com a mesma curiosidade distante com que observo corrida de Fórmula 1 (playboys correndo em círculos) ou a liturgia do Oscar (Glória Pires e seu não sou capaz de opinar me fizeram sentir representado — coisa rara). Reconheço que existe, que mobiliza, que importa para muita gente. Simplesmente não sinto.
É desse lugar que escrevo hoje. De fora da janela. A diferença entre a minha ignorância e a de quem desenhou a nova camisa da Seleção é que eu jamais teria a arrogância de, tão alheio a isso tudo, ainda assim mexer no uniforme de 210 milhões de pessoas.
Em 21 de março, a Nike lançou os novos uniformes da Seleção para a Copa de 2026. A camisa titular, amarela, trazia na gola a inscrição “Vai, Brasa”. Nos meiões, onde tradicionalmente se lê “Brasil”, lia-se “Brasa”. A camisa reserva era azul com detalhes em preto, inspirada num sapo-flecha venenoso da Amazônia, e assinada pela Jordan Brand. O Jumpman, a silhueta de Michael Jordan enterrando uma bola de basquete, aparecia ao lado do escudo da CBF, em amarelo, ligeiramente maior que o brasão nacional.
É a primeira vez na história que uma seleção nacional de futebol veste uma marca de basquete. O conceito de marketing dizia que o sapo-flecha “alerta seus predadores” e que enfrentar o Brasil “é por sua conta e risco”. O slogan era “Joga Sinistro”. A versão para torcedor pela bagatela de R$ 449,99.
A rejeição — quem diria! — foi imediata. A FGV, em parceria com a Polis Consulting, analisou 119 mil menções nas redes sociais entre 1 e 26 de março: 72,4% eram negativas. Dos sentimentos mapeados, 40% expressaram raiva e 32%, nojo. A crítica central, repetida com variações por gente de esquerda e de direita num raro momento de unanimidade nacional, cabia numa frase: ninguém chama o Brasil de Brasa.
Houve ainda um bônus: no material promocional, o canarinho mascote da Seleção apareceu com três pernas. Três pernas. Repito: três pernas. Erro clássico de imagem gerada por IA e revisada por rigorosamente ninguém. A Nike não confirmou nem negou. Mas é um detalhe que resume tudo o que precisa ser dito sobre o cuidado que houve.
A designer responsável, pasme, é brasileira. Chama-se Rachel Denti. Formou-se em Design Gráfico pela UnB, fez intercâmbio na Holanda, passou por Nova York e desde 2021 mora em Portland, onde lidera o design de vestuário para Ásia-Pacífico e América Latina na Nike. É, por definição contratual, a pessoa que decide como a camisa da Seleção Brasileira se parece.
Denti defendeu a inscrição: “Brasa se escuta nos estádios e na rua, e agora os jogadores vão poder usar no corpo.” Não se escuta. Não nos estádios que ela frequentava (embora eu desconfie fortemente que ela tenha frequentado estádios tanto quanto eu, que nunca pisei em um) antes de se mudar para o noroeste americano; não nas ruas que ela percorria em Brasília. “Brasa” pode existir em algum nicho digital, num grupo de WhatsApp de brasileiros em Portland, numa legenda irônica de TikTok. Não existe no vocabulário de nenhuma torcida organizada, de nenhum bar de esquina, de nenhum pai que leva o filho ao estádio no domingo.
Não estou, aqui, insinuando que Rachel Denti seja incompetente. Eu não me daria ao trabalho de escrever um artigo para isso. O problema é mais interessante: ela trabalha dentro de um sistema que renomeia o amarelo-ouro da seleção brasileira de “Canary” — em inglês, para consumo interno de uma corporação cujas ações acumulam queda de 75% na bolsa americana. A Nike batizou a cor da nossa camisa no idioma dela, propôs uma gíria que ninguém usa como se fosse orgânica, e estampou um sapo venenoso que a esmagadora maioria da população brasileira sequer sabia que existia numa camisa reserva assinada por uma marca de basquete. Tudo isso passou por aprovação. Alguém em Portland olhou para esse pacote e disse: sim, os brasileiros vão adorar.
Não adoraram. A questão é por quê alguém achou que adorariam.
A resposta começa na CBF. O presidente Samir Xaud vetou o “Brasa” em 26 de março, numa entrevista à ESPN em que disse: “Não terá Brasa. Nosso uniforme é nosso manto, é verde e amarelo.” Bonita frase. Xaud culpou a Nike, alegando que foi “pego de surpresa” pela inscrição. Manteve, porém, a Jordan Brand na camisa reserva. O Jumpman ficou.
Xaud tem 41 anos, é médico infectologista e filho de José Gama Xaud, cartola que comanda a Federação de Futebol de Roraima há 42 anos (é oficial: eu nem era nascido quando Xaud pai lá se instalou).
Antes de assumir a CBF, o filho preparava-se para herdar a federação do pai. Jornalistas o chamaram de paraquedista. Responde a processo de improbidade administrativa por suposta fraude quando era diretor de um hospital em Roraima.
Mas Xaud não é exceção. É continuidade: os últimos cinco presidentes da CBF saíram do cargo por corrupção, assédio ou decisão judicial. Ricardo Teixeira renunciou sob acusação de corrupção. José Maria Marin foi preso pelo FBI em Zurique. Marco Polo Del Nero foi banido pela FIFA. Rogério Caboclo caiu por assédio. Ednaldo Rodrigues foi afastado pela Justiça.
Eis a linhagem dos homens que, há décadas, se apresentam como como guardiões do “manto sagrado”. Também poderia ser uma linhagem de governadores do Rio de Janeiro, mas isso é assunto para outra hora.
O futebol brasileiro vive, aliás, uma coexistência jurídica que merece atenção. Em 2021, o Congresso criou a SAF — Sociedade Anônima do Futebol — especificamente para “profissionalizar a gestão dos clubes”: conselho fiscal permanente, transparência obrigatória, emissão de debêntures, governança de verdade.
Eu não consigo imaginar o que um gringo pensaria de um país ter um tipo de pessoa jurídica específico para isso, mas tudo bem. Fato concreto é que vários clubes aderiram. Botafogo tem dono americano. Cruzeiro teve Ronaldo. Vasco negociou com fundo estrangeiro. Nos clubes, há pelo menos uma tentativa de modernização.
Na CBF, que manda em todos eles, o modelo é o mesmo de sempre: eleição por colégio de federações estaduais controladas por cartolas regionais, sem transparência, sem governança, sem vergonha. É como se o futebol brasileiro tivesse inventado a democracia nos municípios e mantido a monarquia absolutista na capital. O mais puro suco do Brasil, mais uma vez.
E é essa monarquia que assinou o contrato com a Nike. US$ 105 milhões por ano até 2038. Valor total potencial: R$ 7,3 bilhões. Quem decide a camisa é o presidente da CBF, por prerrogativa estatutária. Um homem que responde a processo de improbidade, descendente de uma espécie de Sarney roraimense, decide sozinho o que 210 milhões de brasileiros vão vestir quando quiserem torcer pelo próprio país.
Mas calma. O melhor capítulo desta história é o último.
A camisa que 75% dos brasileiros rejeitaram… bateu recorde de vendas. Trinta por cento acima do uniforme de 2014, quando a Copa foi aqui. A versão premium de R$ 749 esgotou cinco dos sete tamanhos disponíveis. O país inteiro disse que era horrível, que era desrespeito, que era o fim da tradição. Depois foi lá e comprou, a um preço que, na versão mais cara, corresponde a 20% da renda mensal do brasileiro médio, segundo dados da última PNAD.
Não sei se isso é sobre futebol. Acho que nunca foi. É sobre um país que não sabe exatamente o que é, mas sabe perfeitamente o que não é. Não é Brasa. Não é sapo-flecha. Não é gíria inventada por expatriada em Portland para agradar gerente de produto em Oregon. Isso o brasileiro sabe com uma clareza inabalável.
O que ele faz com essa clareza é outra história: rejeita com a boca, mas compra com o cartão. E, na Copa, vai vestir a camisa que rejeita, escolhida pelo Sarneyzinho roraimense, porque sim.
Isso explica muito sobre o Brasil contemporâneo. Até se pode gritar. Mas, ao fim, a maioria cede a um conformismo resignado frente a algo que alguém que ela não (re)conhece, que por ela sequer foi escolhido, decidiu.
Eu continuo sem dar bola para bola. Mas confesso que, por um instante, quase entendi por que aquilo importa.
-Ricardo Schweitzer



