6 Comentários
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Avatar de Mauricio Simões

Olha, atuo como designer há quase quatro décadas, então posso dizer com tranquilidade que já vi quase tudo nesse mundinho. E uma das baixezas mais comuns da nossa área (às vezes por preguiça, mas na maioria delas é desonestidade mesmo) é o famigerado “memorial descritivo ex-post-facto” ou, vamos no popular, “inventado”. A cartilha é conhecida: primeiro, desenham qualquer coisa; depois, suam a camisa para inventar as “escolhas criativas”, as justificativas e as especificações para tentar dar algum sentido àquilo.

Esse tal sapo-flecha (?) estampado na camisa da Seleção obviamente nasceu dessa exata desonestidade. Assim como ninguém minimamente ligado ao futebol jamais gritou um “Vai, Brasa!” na vida (nem mesmo de forma pejorativa), nunca antes na história deste país ouviu-se falar desse maldito sapo-flecha, muito menos da possibilidade esdrúxula de associá-lo ao uniforme do Brasil. Isso tudo é invenção pós-polêmica, um malabarismo retórico de quem precisou arrumar uma desculpa urgente. Algum ecochato militante olhou para a estampa e disse: “Tem um sapo parecido com isso. E é venenoso.” Pronto. Tá feita a associação forçada. Agora, o Brasil é “do mal”, tem que dar medo. Ou, na pior das escolhas vocabulares da campanha: deve ser “sinistro”.

Claro, boa parte dos brasileiros consome essa palavra apenas como uma gíria inofensiva e legalzinha, associada a algo bom (na mesma toada ingênua de quem ouve os “diálogos cabulosos” do PT com o PCC e acha tudo muito normal), mas quantos desses iletrados sabem que “sinistro”, em sua raiz etimológica, carrega o peso do agourento, do acidente e – o que é mais emblemático nessa história toda – significa, literalmente, a mão esquerda?

Chega a ser sintomático. Estranhamente, bem num ano em que a esquerda (ops, o PT) vem fazendo um esforço hercúleo para sequestrar e subverter símbolos para si (a exemplo das Havaianas tentando emplacar o “Entre 2026 com o pé esquerdo e veja como isso é bom!”), tentam fazer a mesma manobra com a camisa da Seleção, aquele símbolo que, por anos, vem sendo o grande estandarte das manifestações populares contra os vermelhos.

Canary? Brasa? Sinistro? Sapo-Flecha? Jordan gigante? Se esse catadão de bizarrices não for o mais puro desespero estético e político, eu sinceramente já não sei mais o que é.

Avatar de Marcelo G

Talvez o erro foi achar que a camisa foi amplamente rejeitada. Nem sempre os keyboard warriors que xingam no twitter sao uma amostra do Brasil inteiro

Avatar de Diário do Pai

Espetáculo de texto...acho que representa mais brasileiros aqui do que qualquer brasileiro expatriado sem dúvida...

Avatar de Paulo Felix

Eu poderia fazer algum comentário, mas não há nada de valor a acrescentar ao artigo brilhante. De momento e talvez de forma secular estamos relegados à pobreza intelectual, moral e material. Não só não aprendemos com os nossos erros como não aprendemos quase nada de nada. Na realidade, penso que temos os Sarneyzinhos que, como generalidade de povo, queremos e merecemos.

Avatar de Jacques Meir

A camisa da CBF, que não é da seleção, foi “comprada” no cartão ou no PIX, como elemento de distinção. É um clássico, compro porque marca uma posição minha em relação aos demais. Ela diz mais sobre mim do que eu mesmo.

Não é mais o “verde-amarelo”. É o canary, uma gourmetização da torcida que não sabe conviver com a igualdade. E ultimamente isso diz muito sobre como somos torcedores, muito como elemento identitário que renega e vê o outro como inimigo. Logo, a camisa “canary” pode ser odiada com seu “Brasa”, mas faz desse “brasa” o distintivo da exclusividade e da exclusão.

Avatar de Cláudio Galassi

É incrível como Roraima (o Estado mais pobre e sem infraestrutura) da Botocúndia, nos legou Sarney, Alcolumbre e o presidente da CBF. Até a energia elétrica de lá vem da Venezuela. É um mato só. Somos governados do mato. Estamos no mato sem cachorro.