Abriram a lata e encontraram a família brasileira
ou: sobre o dia em que uma escola de samba tentou humilhar conservadores e acabou fazendo a melhor campanha da oposição
Eu ia publicar outro texto hoje.
Estava pronto, revisado, com aquele cheiro de roupa passada que todos reconhecemos e amamos. Mas não: ele volta pra gaveta e aparece outro dia.
Acontece que, no domingo à noite, uma escola de samba de Niterói decidiu, em cadeia nacional, me entregar o melhor presente que um autor de artigos poderia receber: um tema que se escreve sozinho.
Em marketing de conteúdo, isso se chama timing post. É quando o assunto é quente demais pra ficar no forno. Então eu larguei o texto pronto e sentei pra escrever outro do zero, numa terça-feira de carnaval, enquanto o resto do país está de ressaca ou de fantasia.
Façam o favor de retribuir o sacrifício compartilhando este artigo com pelo menos uma pessoa. Duas, se você for generoso. Três, se for conservador. No grupo de WhatsApp da sua paróquia ou da sua igreja, se você entendeu o recado.
E mande pro seu parlamentar favorito. Eu adoraria que ele lesse isso aqui.
A Acadêmicos de Niterói, escola fundada em 2018 que estreava no Grupo Especial com a humildade de quem chega num jantar alheio e senta na cabeceira, escolheu homenagear o presidente Lula.
Até aí, carnaval. Escolas já homenagearam de tudo: Xuxa, Chacrinha, a soja brasileira. Um presidente em exercício é novidade, mas a Sapucaí já viu coisas piores.
O problema não foi o enredo. Foi a ala de número 22.
Vinte e dois. O número do PL na urna. A escola garante que é coincidência. Claro.
A ala se chamava “Neoconservadores em Conserva”. A fantasia: uma lata com o rótulo “Família em Conserva”, estampado com a imagem de um pai, uma mãe e dois filhos.
Na cabeça dos componentes, quatro chapéus representando os cavaleiros do apocalipse conservador: o fazendeiro, a “perua” (termo oficial da escola, não meu), o militar e o evangélico.
A lata aberta, segundo a proposta artística, revelaria que por dentro o conservador não é tão bonito quanto o rótulo sugere.
Eu sou conservador. E católico. Essa pauta é minha. E digo com a serenidade de quem já viu gente tentar me ofender com mais criatividade: foi a tentativa de insulto mais generosa que a direita brasileira recebeu em anos.
A ideia dos criadores do enredo era simples: família tradicional é coisa velha. Embolorada. De prateleira. Uma conserva que já passou do prazo. Você embala numa lata, põe numa passarela com purpurina e a plateia entende que aquilo é ridículo. Arcaico.
O que os brasileiros de fato entenderam, dos rincões mais distantes do país (aqueles dos quais a classe política só lembra na hora de pedir voto), assistindo pela TV ou acompanhando a repercussão pelo celular: “aquela lata tem uma foto da minha família.”
Mas, já que escolheram a metáfora, vamos levá-la a sério. Conserva é o alimento que resiste ao tempo. Que atravessa estações. Que alimenta quando tudo ao redor já apodreceu. Os alimentos fresquinhos, revolucionários, cheios de promessas de renovação; esses estragam em dias, viram compostagem e são esquecidos na gaveta de baixo da geladeira. De Moscou a Caracas, a prateleira dos “progressos” está cheia de comida estragada.
Existe um erro estratégico que a esquerda brasileira comete com frequência quase litúrgica. Ela confunde o que é impopular entre seus pares com o que é impopular no país.
No grupo de WhatsApp do departamento de ciências sociais da USP, família tradicional talvez seja piada. No Brasil, é o que 80% das pessoas reconhecem quando olham pro próprio álbum de fotos.
Quando você transforma normalidade em insulto, a piada volta. Sempre volta.
É como se alguém fizesse um desfile satirizando pessoas que almoçam arroz com feijão. Você pode cobrir de glitter e sambar em cima. No dia seguinte, 200 milhões de brasileiros vão postar foto do prato com orgulho.
Porque você não satirizou um comportamento. Satirizou uma identidade.
E foi exatamente o que aconteceu. Em menos de 24 horas, a trend “família em conserva” tomou as redes. Milhares de famílias se colocaram voluntariamente dentro da lata. Congressistas, pastores, gente comum: todo mundo gerou sua própria versão do rótulo, agora com orgulho onde deveria, supostamente, haver vergonha.
O símbolo que nasceu desse acidente é de uma potência que nenhum estrategista de marketing pensaria em criar.
A lata de conserva é a nova camiseta da seleção brasileira, com uma vantagem: custa cinco reais e você encontra em absolutamente qualquer mercado de qualquer porte do país. Do Extra da Barra ao armazém do interior do Amapá.
Nenhuma agência de publicidade, nenhum comitê de campanha, nenhum spin doctor inventaria algo tão genial.
Porque não foi inventado. Foi entregue.
Campanhas políticas gastam fortunas tentando criar símbolos que grudem.
Lembra do “L” com a mão? Do dedo indicador apontando pro céu? Agora a direita tem um que não precisou inventar, testar em focus group nem pagar agência. A esquerda embalou, rotulou e entregou na porta.
E a lembrança vai ser reavivada toda semana, no corredor do supermercado. Recall semanal, sem custo de mídia. Toda lata de ervilha, de milho, de sardinha vai ser um lembrete silencioso.
Agora imagine uma passeata. Milhares de pessoas, em silêncio ou não, empunhando uma lata de conserva. Sem bandeira de partido, sem boneco inflável, sem carro de som. Só a lata. Pense nessa imagem. É épica. E custa o troco do pão.
O que a Acadêmicos de Niterói fez, sem querer, foi criar o material de campanha mais eficaz de 2026. Com dinheiro público, aliás, o que torna tudo ainda mais poético.
Eu sei o que parte dos leitores está pensando: “mas o carnaval sempre foi político, sempre teve sátira, sempre provocou.”
Verdade. Joãosinho Trinta já botou mendigo em carro alegórico e disse que “o povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual.” O carnaval tem esse direito e essa tradição.
Mas ter o direito de fazer não significa que foi bem feito.
A diferença entre sátira boa e sátira ruim é a mesma diferença entre um cirurgião e um açougueiro: os dois usam faca. Sátira boa atinge o poderoso e faz o público rir porque reconhece a verdade. Sátira ruim atinge o público e faz o poderoso rir.
Quando você coloca a família do seu espectador numa lata de deboche, você não está fazendo sátira. Está fazendo campanha pro outro lado.
E tem outra coisa. Debochar de cristão, de conservador, em plena Sapucaí, em cadeia nacional, com dinheiro público, pode. É manifestação cultural. É a tradição carnavalesca. É sátira, é humor, é arte.
Agora pense em fazer a mais educada, a mais sutil, a mais comedida das críticas a qualquer outro grupo. Em especial àqueles que recebem o rótulo de “minorias”. Apenas pense. Não faça, em hipótese alguma. O mero ato de pensar já seria Crimideia, como já diria George Orwell em 1984.
É capaz de o exército tomar as ruas e você ser preso antes do fim do desfile, exatamente pelos mesmos defensores da tese de que prisão não reabilita ninguém.
E por que dá pra fazer isso com cristão? Porque cristão deixa. Há muito tempo confundem “dar a outra face” com “permitir que esfreguem sua face no chão”.
A mansidão virou convite. A tolerância virou endereço de entrega pra qualquer deboche que precisasse de um alvo fácil.
A esquerda brasileira acredita que família, fé e tradição são posições políticas que podem ser derrotadas com argumentos. Não são. São experiências vividas. Você não convence alguém de que a própria família é ridícula. Você não desmonta com samba-enredo o que uma pessoa construiu em décadas de casamento, criação de filhos, domingos na igreja.
E aqui cabe um dado que a esquerda prefere ignorar: conservador tem filhos. Cristão cresce e multiplica. O progressista tem uma planta e um cachorro — que, pelo menos por enquanto, não votam.
É uma visão de mundo autofágica. Enquanto um lado enche berçário, o outro enche petição online. A demografia não mente e não negocia; ela só espera.
Quando um deputado escreveu “lembre-se disso na hora de votar”, ele estava sendo óbvio, mas estava certo. O eleitor médio não vai lembrar do enredo. Vai lembrar que alguém, com o dinheiro dos seus impostos, achou que a existência da sua família era motivo de chacota.
Só que essa massa mansa vota. E talvez, num desses domingos em que alguém resolve transformar sua fé em fantasia de carnaval, ela perceba que tem força. Tomara que perceba antes que encontrem uma maneira de impedi-la.
A direita passa por um momento de dispersão. Bolsonaro inelegível, pré-candidatos se multiplicando, pautas se fragmentando. E sejamos francos: mesmo antes, boa parte da base nunca achou Bolsonaro um nome maravilhoso. Simplesmente era o que tinha. E talvez isso aconteça em 2026, outra vez. Apenas descendo um galho na árvore genealógica.
Mas olhemos para a big picture. Faltava algo que lembrasse essa base do que ela tem em comum. Algo que fosse maior que qualquer candidato. A escola de Niterói entregou esse vetor de identidade numa bandeja de prata. Ou melhor, de folha de flandres: chapa de aço revestida com estanho.
Nada une mais um grupo do que ser atacado naquilo que considera sagrado. E a família é o sagrado do conservador. Não o partido. Não o candidato. A família.
Aliás, convém lembrar o que o enredo não mostrou.
A comissão de frente encenou Alexandre de Moraes prendendo Bolsonaro. Havia um carro com o ex-presidente vestido de palhaço Bozo, presidiário, atrás de grades. Havia Michel Temer arrancando a faixa de Dilma. Havia carro alegórico com a “Estrela Vermelha” do PT e ala dos “Patriotas da América” ironizando bolsonaristas.
O que não havia: qualquer menção ao Mensalão. Ao Petrolão. À Odebrecht. Ao sítio de Atibaia. Aos 580 dias que o homenageado passou na cadeia. Sergio Moro ironizou dizendo que ficou esperando o carro da Odebrecht passar. Ainda está esperando.
Quando a sua biografia precisa de edição pra virar enredo, talvez o “herói” não seja tão interessante assim.
Janja, quem diria, teve um raro arroubo de bom senso: desistiu de desfilar com medo de configurar campanha antecipada. Pelo menos uma vez — uma única vez — não tentou roubar a cena. Reconheçamos que ela tem visão estratégica. Mais do que o carnavalesco responsável por todo esse papelão.
Toda a esquerda adorou o deboche. Aplaudiu. Compartilhou. Riu. Ótimo.
Mas anota aí: lá perto de outubro, não vai faltar político de esquerda com terço na mão, fotografado em missa, ajoelhado em banco de igreja com cara de quem acabou de descobrir que Deus existe.
Lembra do Fernando Haddad e da Manuela d’Ávila? Não é por acaso: é método.
Perto da urna, conservador vira eleitor. E eleitor é útil. A família que era piada em fevereiro vai virar palanque em setembro. Depois, volta ao seu lugar de sempre: o lugar de ridicularizado no qual, por excesso de mansuetude, se permite colocar.
Resta saber se, pelo menos dessa vez, os conservadores vão se lembrar de quem lhes cuspiu na cara e riu.
Abriram a conserva esperando encontrar algo feio. Encontraram milhões de famílias que se reconheceram no rótulo e decidiram que, na verdade, a embalagem ficou bonita.
O insulto virou identidade. O deboche virou orgulho. A sátira virou propaganda.
Não sei se quem escreveu o enredo da Acadêmicos de Niterói estuda marketing. Mas deveria. Nem que fosse pra aprender o que não fazer.
Ricardo Schweitzer
Instagram: @ricardoschweitzer
X (Twitter): @_rschweitzer




A oligofrenia dessa gente é evidente e gritante; pena que estejam no poder, e com dinheiro. Pena também que temos um povo que, em sua esmagadora maioria também é oligofrênico, que se satisfaz com uma esmolinha aqui e um sambinha ali.
Expectativa: conservador tem filho e progressista tem planta e o filho do conservador vai votar na direita.
Realidade: vc, conservador, tem dois filhos e o pobre periférico que curte e faz carnaval tem 5 filhos antes dos 30 anos e eles gostaram, vão zoar os conservadores mesmo tendo uma "família tradicional" e todos vão votar no Lula.
Essa guerra os conservadores nunca vão ganhar, não adianta.
Na teoria o q vc escreveu faz sentido. Na prática, 80% da população nem entendeu que foi satirizada.