BRB: festa estranha, gente esquisita
ou: como o Brasil inteiro pode acabar chamado a pagar a conta deixada por uma insólita história de amor em Brasília
Há uma música do Legião Urbana, lançada em 1986, que todo brasileiro chato da minha geração conhece de cor: Eduardo e Mônica.
É sobre mundos opostos: ela, mais velha; sofisticada, sabia exatamente o que queria. Ele, o menino bobalhão que não deveria ter ido àquela festa. Mas foi, encontrou alguém interessante e nunca mais foi o mesmo.
A letra pergunta: “quem um dia irá dizer que existe razão pras coisas feitas pelo coração?”
Dez anos depois, em 96, o governo FHC respondeu com o PROES. E hoje, mais 30 anos passados, faz sentido perguntar de novo.
O “Programa de Incentivo à Redução do Setor Público Estadual na Atividade Bancária” custou entre R$ 61 e R$ 90 bilhões em títulos da dívida pública e extinguiu, privatizou ou federalizou 25 dos 30 bancos estaduais brasileiros. O Itaú ficou com Banerj, Bemge e Banestado. O Santander comprou o Banespa por R$ 7 bilhões.
O motivo era sempre o mesmo: governadores usavam seus bancos como extensão da máquina política, emprestavam para si mesmos, financiavam aliados, usavam o caixa como fundo eleitoral.
Existe razão, portanto. E ela é cara: o velho jogo da política na sifilítica maneira de pensar.
O BRB sobreviveu ao PROES por acidente. O DF não aderiu na época, pois não havia “condições políticas” na Câmara Legislativa. Ficou como fóssil vivo, sobrevivente de uma extinção em massa que ocorreu exatamente para impedir o que o BRB acabaria fazendo três décadas depois.
Em 1964, no centro de um planalto vazio, o Banco de Brasília nasceu. Junto com o Distrito Federal. Cresceram juntos, como era natural numa instituição cuja razão de existir era servir ao governo que a criava. Hoje, 138 agências, majoritariamente no quadradinho. 3.200 funcionários. Patrimônio líquido da ordem de R$ 4 bilhões.
O negócio era simples e confortável: pagar o contracheque de servidor público, administrar depósitos judiciais do DF, financiar imóvel de funcionário de ministério. Ninguém na Faria Lima sabia o ticker de cabeça. Eu mesmo confesso: só aprendi depois de todo o rolo sobre o qual vai tratar este artigo.
Até que o BRB quis ser gente grande. “Quem um dia irá dizer que existe razão pras coisas feitas pelo coração?” Vieram os naming rights do Mané Garrincha, o estádio que custou R$ 1,4 bilhão e recebe três jogos por ano. Veio o banco digital “Nação BRB FLA”, R$ 32 milhões anuais para patrocinar o Flamengo. Um banco de servidor público de Brasília querendo alcançar os 40 milhões de torcedores rubro-negros espalhados pelo Brasil. Agências em São Paulo, Rio, Minas, Goiás.
Eduardo queria ser estrela no Rio de Janeiro.
Daniel Vorcaro e o Banco Master você já conhece. Contei a história completa neste artigo aqui. O resumo que interessa agora: banco que cresceu 86% ao ano pagando 140% do CDI, modelo que o próprio Vorcaro descreveu à PF como “100% baseado no FGC”, R$ 41 bilhões de rombo, o maior colapso bancário da história do Brasil.
Mas antes dos corpos começarem a boiar, Vorcaro precisava de alguém para absorver as carteiras de crédito que o mercado inteiro recusava. Havia em Brasília um banco estadual querendo crescer, com governador receptivo e histórico de fazer o que a política pede.
Eduardo estava disponível.
Em doze meses, a carteira de crédito do BRB saltou de R$ 37 bilhões para R$ 57 bilhões. Desses R$ 20 bilhões novos, R$ 12,2 bilhões eram carteiras do Master, muitas delas fictícias: créditos simulados, empréstimos que não existiam, devedores que jamais tomaram o dinheiro.
A fraude da Tirreno, uma das carteiras, foi descoberta. Sem compreender o que seu olho encontrava, o BRB seguiu comprando.
Em reunião de diretoria, o então presidente Paulo Henrique Costa disse que “faz-se necessário efetuar as compras de carteiras sob pena de o Master quebrar.” O jurídico havia alertado por escrito. O Banco Central sabia dos problemas do Master desde março de 2025. Ambos foram ignorados.
O BRB não tropeçou num buraco. Viu o buraco, recebeu memorando da própria diretoria jurídica dizendo que era um buraco, e pulou dentro. De cabeça. Deliberadamente. Por quê? Quem um dia irá dizer...
E quando o caldo entornou, dobrou a aposta: o BRB se propôs a comprar o Master inteiro. Como se fosse urgente e preciso, a Câmara Legislativa do DF aprovou a operação em dois turnos no mesmo dia, em agosto de 2025. Ibaneis sancionou tudo duas horas depois.
Na música, Eduardo se apaixona. Aqui, talvez fosse exatamente isso.
Paulo Henrique Costa disse à PF que “costumeiramente prestava contas” ao governador, e que não levaria adiante uma aquisição sem comunicar ao acionista controlador. Vorcaro disse à PF que conversou “algumas vezes” com Ibaneis sobre a negociação, e que o governador “conversava frequentemente com a presidência do BRB” sobre as transações.
Ibaneis disse que, nos encontros com Vorcaro, “entrou mudo e saiu calado.” Talvez o governador saiba Libras, o que tornaria sua versão tecnicamente correta. Disse também que seu “único erro” foi ter confiado em Paulo Henrique. Deduzo então que, na leitura de Sua Excelência, todo o restante foi um acerto.
O rombo, até onde se sabe.
A provisão mínima determinada pelo Banco Central é de R$ 2,6 bilhões. O diretor de Fiscalização do BC disse à PF que a probabilidade é que passe de R$ 5 bilhões. Estimativas chegam a R$ 9 bilhões. No último número conhecido (pois a publicação do balanço do 3T25 ainda está atrasada…), o patrimônio líquido do BRB era de R$ 4,3 bilhões. Faça as contas.
Um banco que deve mais do que tem, sem conseguir publicar o próprio balanço trimestral, continuava mandando SMS para os correntistas: “seguimos firmes, seguimos fortes, seguimos com você.”
Para cobrir o rombo, o GDF enviou à Câmara Legislativa um projeto usando doze imóveis públicos como garantia — entre eles terrenos no Lago Sul e o Centrad, em Taguatinga. A oposição chamou de “cheque em branco”. Talvez cubra o cheque sem fundo que o BRB recebeu do Master. Talvez não.
O FGC condicionou qualquer empréstimo à entrada de outros bancos num consórcio. Não se viabilizou. A Caixa entrou em negociação para comprar as carteiras boas, zero Master. Se nada funcionar, vem a federalização (o MP, junto ao TCU, já monitora) ou a privatização — esta última, lida nas entrelinhas da indicação de Edison Garcia, o homem que privatizou a CEB, para o conselho do BRB mês passado.
O prazo para publicação do balanço é 31 de março de 2026.
Ibaneis Rocha anunciou que deixará o governo em 28 de março para concorrer ao Senado. Três dias antes do vencimento. Celina Leão herda a bomba com o prazo estourando 72 horas depois.
É a versão brasiliense de soltar um peido no elevador e descer no andar seguinte.
Os quatro pedidos de impeachment do Governador do DF foram arquivados pelo presidente da Câmara Legislativa, Wellington Luiz — que é, pasme, aliado de Ibaneis.
O STJ abriu procedimento para apurar a participação do governador no imbróglio. Mas candidato a senador tem outra prerrogativa de foro. O PL, que avaliava apoiar Ibaneis na disputa à câmara alta do Congresso Nacional, já saltou do barco. Ou melhor, do submarino no qual Ibaneis pretende imergir no Paranoá.
“Entrei mudo e saí calado.” Bonita frase. O problema é que quem sai calado costuma deixar a conta na mesa.
O servidor público de Brasília deposita o salário no BRB; paga imposto ao GDF, que vai capitalizar o BRB; e, se a conta não fechar, paga imposto federal para a União absorver o BRB. É um modelo de negócio em que o cliente financia a própria falência.
E, se o banco for federalizado, o rateio vai para além do Planalto Central: a conta de uma decisão que Ibaneis tomou em duas horas passa a ser dividida pelo Brasil inteiro.
Involuntariamente, Ibaneis Rocha talvez ressuscite o PROES 30 anos depois. Aquela falta de “condições políticas” na Câmara Legislativa do DF, lá em 96, ecoa hoje.
Terminaria por aqui, mas ainda cabe um epílogo:
Quando o Banco Central decretou a liquidação do Master, nomeou um responsável técnico para conduzir o processo. O nome do senhor, registrado em ata oficial: Eduardo Felix Bianchini.
No fim, mandaram um Eduardo para limpar a bagunça que o Daniel deixou.
Renato Russo perguntou em 1986 se existe razão pras coisas feitas pelo coração. O BRB respondeu quarenta anos depois. A resposta custa pelo menos R$ 5 bilhões, e o contribuinte do Distrito Federal está pagando.
Por enquanto.
-Ricardo Schweitzer
P.S.: Quem me acompanha pelo Instagram pode saber que, inicialmente, minha ideia era que o “fio condutor” desse artigo fosse composto de músicas do Oswaldo Montenegro. Eu desisti; optei por Legião Urbana. Então, Oswaldo ficou de fora… ou será que não?



