Como lucrar com o colapso da Raízen
ou: Lula estava na sala, os Batista estão de olho na Ipiranga, e tem gente prestes a fazer fortuna com uma dramática destruição de valor da bolsa brasileira
Já começo avisando: este texto é longo. Mais longo do que o habitual por aqui.
Se você estiver com pressa, salve para depois — sob risco de perder uma oportunidade concreta de fazer dinheiro. Azar o seu.
Se estiver disposto a continuar, prometo que vai valer a pena. Não porque eu tenha poderes sobrenaturais, mas porque tenho 20 anos de bagagem e passei muitas horas sem dormir num escritório no interior de São Paulo juntando peças que, separadas, parecem notícias comuns. Juntas, formam um quadro que a imprensa financeira ainda não descreveu com clareza.
Não sou médium. Não estou prevendo o futuro. Tudo que segue é análise, inferência e opinião de um cara com acesso aos mesmos fatos que qualquer um. A diferença é que eu não tenho chefe, não tenho cliente de banco de investimento sentado na minha frente, e não preciso ser convidado de volta para a próxima teleconferência de resultados.
Por fim, uma confissão: o processo criativo deste artigo foi caótico. E o caos foi amplificado pelo surgimento contínuo de fatos novos enquanto eu tentava escrever sobre os anteriores. Eu me sinto trocando o pneu com o carro andando. Mas azar: na hora em que der para contar essa história de forma bonitinha e linear, tudo isso já vai ser fato consumado e vai estar minuciosamente apurado no Valor Econômico. E aí não vai ter dinheiro na mesa.
Com isso dito, vamos ao que importa.
Semanas atrás, escrevi que a Raízen tinha dois pais e nenhum disposto a pagar pensão. O texto original está aqui.
O que eu não imaginava é que os dois genitores iriam se demitir ao mesmo tempo, em 48 horas, diante das câmeras.
Terça-feira, 3 de março. O presidente da Shell Brasil anuncia publicamente que a empresa está “comprometida” a injetar R$ 3,5 bilhões na Raízen. E que “espera paridade” da Cosan.
Quarta-feira, 4 de março. As negociações colapsam. Cosan sai. BTG sai.
“Comprometida” não é “aportou”. “Espera” não é “acordou”. E “paridade”, no vocabulário de quem já está planejando a saída, significa: você paga primeiro, depois eu vejo o que faço.
Antes de continuar, uma nota sobre a língua portuguesa corporativa, que merece sua própria cátedra.
O fato relevante publicado pela Raízen na quarta-feira dizia que a companhia pretende(ia?) “assegurar um ambiente protegido e ordenado para conduzir discussões com seus credores financeiros e buscar uma solução consensual, que poderá ser implementada por meio de Recuperação Extrajudicial, se necessária.”
Vou traduzir frase por frase.
“Ambiente protegido e ordenado” significa: ninguém pede dinheiro por enquanto. “Solução consensual” significa que ninguém concordou com nada ainda. “Se necessária” é o tipo de condicional que aparece quando a necessidade já é certa, mas o advogado pediu para não assinar embaixo.
Essa é a língua que as empresas falam quando já tomaram a decisão, mas ainda não contrataram o assessor de imprensa para anunciá-la.
O detalhe mais constrangedor, porém, não está no comunicado. Está nos bastidores das negociações.
O plano original previa R$ 3,5 bilhões da Shell, R$ 1 bilhão da Cosan e R$ 500 milhões do próprio Rubens Ometto, via holding pessoal. A Cosan e o BTG saíram. E a contribuição pessoal de Ometto, segundo fontes que acompanham as negociações, pode depender de ele conseguir um empréstimo.
O dono da empresa precisa pedir emprestado para salvar a própria empresa.
Isso não é um detalhe menor. Rubens Ometto construiu um dos maiores impérios industriais do Brasil. Transformou usinas familiares de Piracicaba numa holding com R$ 45 bilhões em faturamento. Comprou a Esso, fez a JV com a Shell, criou a Rumo, a Compass, a Moove. É genuinamente um dos maiores empreendedores da história econômica brasileira.
E chegou ao ponto em que, para colocar R$ 500 milhões numa empresa da qual é controlador, pode precisar bater na porta do banco. O problema não é a falta de ativos. É que os ativos estão majoritariamente embaraçados, garantindo outras dívidas, dentro de estruturas que mal cabem numa planilha. É o lado sombrio do mesmo talento: cada aposta bem-sucedida financiou uma aposta maior.
Mas a crise da capitalização não é o fim da história. É o prólogo.
Porque, enquanto os pais brigavam pela conta, alguém estava sentado na sala esperando.
No centro de um planalto vazio…
Antes do Carnaval de 2026, o presidente Lula convocou uma reunião em Brasília. Na sala: representantes da Cosan e da Shell, executivos do BTG Pactual, Fernando Haddad, Aloizio Mercadante — atual presidente do BNDES, faço questão de frisar. E, segundo fontes com conhecimento direto do encontro, Magda Chambriard, presidente da Petrobras.
A Petrobras nega a presença de Chambriard. Veementemente. Tá bom.
Na reunião, um dos temas foi a venda de ativos estratégicos da Raízen para a Petrobras. A ideia não avançou porque ainda havia propostas alternativas dos acionistas na mesa.
Semanas se passaram. E as propostas alternativas à época ventiladas fracassaram. Todas elas.
A janela que o governo esperava está aberta.
Como assim? Vamos lá. Eu explico.
Em outubro de 2025, o conselho de administração da Petrobras aprovou formalmente o retorno à distribuição de combustíveis. Prioridade inicial declarada: GLP, o gás de cozinha. Mas a porta estava aberta.
Em janeiro de 2024, a Petrobras notificou a Vibra de que não renovará o contrato de licença da marca BR, que vence em 2029. O CFO disse explicitamente que a cláusula de não-concorrência com a Vibra foi um dos motivos. Essa cláusula também expira em 2029, proibindo a Petrobras de competir diretamente com a Vibra na distribuição até lá.
Você está pensando no que eu estou pensando?
Pois é.
O problema é que o governo tem um obstáculo técnico com pelo menos sete contornos possíveis. E o Brasil não é exatamente famoso por parar em obstáculos jurídicos quando o timing eleitoral está correndo. Eu já volto aos tais obstáculos: antes, é preciso dar um passo para trás e olhar a big picture.
Há três peças em movimento simultâneo aqui, e é importante olhar para todas ao mesmo tempo.
A Raízen está em colapso negociado. Dívida líquida de R$ 55,3 bilhões, alavancagem de 5,3 vezes o Ebitda, prejuízo de R$ 15,6 bilhões no terceiro trimestre — dos quais R$ 11,1 bilhões foram impairment que redefiniu o valor dos ativos para um número que os próprios donos agora reconhecem como real. A ação que estreou a R$ 7,40 negocia abaixo de R$ 0,70.
A Ipiranga foi colocada à venda pelo Grupo Ultra, com o BTG Pactual conduzindo o processo. A informação foi trazida pelo Lauro Jardim (cujos dentes seguem intactos, felizmente). Interessados confirmados: TotalEnergies, Saudi Aramco e a J&F, a holding dos irmãos Batista (guarde esta informação). Valuation estimado: R$ 25 a 30 bilhões.
E a marca BR expira em 2029, deixando a Vibra sem o ativo que define sua identidade para o consumidor final.
Em market share (ANP, 2024): Vibra tem pouco mais de 20%, Ipiranga e Raízen, cerca de 15% cada.
Coloque esses três números num mapa e você vai entender por que o CADE, involuntariamente, funciona como filtro que aponta para a Raízen: Raízen mais Ipiranga juntas ultrapassariam 30% de market share combinado — acima da Vibra, e o CADE barraria qualquer comprador.
Ou seja: uma investida da Petrobras no setor precisaria contemplar ou Raízen, ou Ipiranga. Sendo que a primeira é muito mais barata, por motivos óbvios.
Além disso, há um detalhe sobre os compradores interessados na Ipiranga que vou guardar para o final deste texto. Porque esse detalhe muda a natureza de tudo.
Mas calma. Aqui entram os fatos supervenientes que não me deixam fechar esse texto, que já deve estar na sua quinta versão e começando a parecer uma colcha de retalhos.
Antes de falar no governo, é preciso falar na Shell. Porque o movimento que ganhou força nos últimos dias pode fechar a janela do governo antes que ela seja usada.
O arranjo que está se desenhando é este: Shell aporta R$ 3,5 bilhões. Ometto coloca R$ 500 milhões via holding pessoal, presumivelmente financiados. Cosan e BTG ficam de fora. Com isso, a Shell ultrapassa 50% do capital e é obrigada, pelas normas contábeis internacionais, a consolidar a Raízen no próprio balanço.
Dívida bruta da Raízen: cerca de R$ 70 bilhões, equivalente a US$ 13,5 bilhões. Para uma empresa cujo upstream de petróleo e gás tem disciplina de capital reconhecida globalmente, absorver isso sem pré-condições seria suicídio de balanço.
A Shell não vai fazer isso. Pelo menos, não de forma tão ingênua.
O que a Shell vai fazer — se fizer — é forçar um haircut antes de consolidar. A recuperação extrajudicial serve exatamente para isso: estruturar a conversão de aproximadamente R$ 25 bilhões de dívida em participação acionária, diluindo os credores e os atuais acionistas, chegando a um balanço já saneado, e só então assumindo o controle. Credores e minoritários levam o prejuízo. A Shell leva o controle. É cirúrgico.
E há um ativo escondido nessa operação que o mercado ainda não precificou. A Raízen acumulou mais de R$ 20 bilhões em prejuízos fiscais, que poderiam gerar cerca de R$ 6 bilhões em créditos tributários diferidos. Hoje não estão reconhecidos no balanço porque a empresa não tem previsibilidade de lucros suficiente para justificá-los. Sob controle da Shell, com gestão mais conservadora e eventual separação dos negócios de distribuição e açúcar-etanol, esses créditos se tornam realizáveis.
É valor real, hoje invisível, que a Shell estaria comprando junto com o resto.
O problema, do ponto de vista do governo, é que uma Raízen sob controle de uma multinacional britânica centenária com sede em Londres é um alvo completamente diferente de uma Raízen em desespero, sem dono claro, com os credores pressionando e os acionistas fugindo. Pressionar a Shell é uma conversa muito diferente de pressionar o Ometto. E a janela de distress, que era a alavancagem do governo, pode estar se fechando.
Pode. Porque o plano da Shell ainda precisa andar. E inclui uma eventual aprovação dos credores. E, se os credores rejeitarem, talvez a recuperação judicial seja o próximo passo — situação na qual o tabuleiro muda de novo.
Volto aos obstáculos de um eventual avanço da Petrobras.
O obstáculo técnico mais claro é a cláusula de não-concorrência com a Vibra, válida até junho de 2029.
Mas sejamos francos: estamos no Brasil. Esse obstáculo tem caminhos. Vou percorrer todos nos quais eu consegui pensar, porque cada um revela algo diferente sobre como nossa pátria amada idolatrada salve salve funciona.
O mais elegante: dívida conversível. A Petrobras (ou o BNDES, ou whoever) entra como credora da Raízen hoje, via instrumento conversível com warrant. Não viola a cláusula, porque não está competindo com ninguém: está emprestando dinheiro em nome da segurança energética da nação. Em 2029, quando a restrição expira, exerce o warrant, converte em equity e voilá. Comprou barato, sem barulho político antes da eleição. É o caminho preferido dos que ainda fingem acreditar em elegância jurídica no Brasil.
O da negociação: tratativa direta com a Vibra. A Vibra tem dois interesses existenciais: manter a marca BR e não ter a Petrobras como concorrente. O governo tem a chave de um desses interesses. A troca é simples de articular: Vibra renuncia antecipadamente à cláusula de não-concorrência e recebe a renovação da marca. Não é ameaça: é negociação. A diferença, no Brasil, depende de quem está do outro lado da mesa e quão recente foi a última visita da Receita Federal. Envolveria a Petrobras operar na ponta final com outra marca — e eu vou voltar nesse assunto mais à frente.
O via BNDES: a Petrobras não compra. Uma empresa nova, constituída pela União com capital do BNDES, compra os ativos. Em 2029, a Petrobras incorpora o veículo. Juridicamente questionável, mas factível num país onde o judiciário não é exatamente alérgico à criatividade quando o pedido vem do lado certo.
O via Transpetro: a Petrobras já tem a Transpetro, subsidiária de logística e transporte. Expandir o mandato para “distribuição” é discussão semântica que um parecer jurídico pode resolver. Essa discussão duraria até 2029, quando a questão fica acadêmica de qualquer forma.
O da recuperação judicial: se a Raízen entrar em RJ, ativos vendidos em hasta pública por determinação judicial. Um juiz de recuperação pode decidir que a cláusula de não-concorrência não vincula a arrematação, porque é ato judicial distinto de compra voluntária. A Petrobras arremataria num leilão. A tese é discutível. A disposição de testá-la num judiciário que não é exatamente neutro, não é.
O rasgado: o governo instrui a Petrobras a entrar. A Vibra acomoda ou judicializa — e se expõe ao risco de sofrer todo tipo de represália pelas mil e uma vias disponíveis a um Estado disposto a aporrinhar uma empresa privada. O processo dura anos. Em 2029, vira questão acadêmica. Na melhor das hipóteses, Vibra conquista uma vitória de Pirro.
O da ironia máxima: o BNDES financia a Vibra para comprar os ativos de distribuição da Raízen. A Petrobras não entra. O governo controla indiretamente, via BNDES acionista. Usar a empresa privatizada pelo governo Bolsonaro para fazer política industrial petista. Há um problema técnico: Vibra mais Raízen combinadas ultrapassariam 30% de market share, o que exigiria, em tese, aprovação do CADE. Mas… a complacência do CADE diante de operações com interesse governamental declarado pode ou não ser um obstáculo, dependendo de como você avalia a independência do Conselho. Se funcionar, é genial. Se for descoberto, é escândalo. No Brasil, com frequência, é as duas coisas ao mesmo tempo.
Esses são os cenários que consegui enxergar sozinho. Melhor dizendo: acompanhado de uma garrafa de Cabernet Franc, num escritório no interior de São Paulo, numa noite em que o silêncio era total e a garrafa não. Devem haver inúmeros outros possíveis, que um punhado de raposas velhas com OAB, pagas a peso de ouro, conseguiriam listar sem muita dificuldade.
Num País cujo lema ordem e progresso poderia facilmente ser substituído por é proibido, mas pode, restrições como a que eu trouxe são praticamente decorativas.
Agora o problema que nenhum desses caminhos resolve completamente: a marca Shell.
A Shell não vai licenciar sua marca para o governo brasileiro. Pardon my French: nem fodendo. São concorrentes globais com interesses diametralmente opostos. Se o Estado compra os ativos físicos da Raízen sem a marca, os 7.000 postos ficam sem bandeira. Os revendedores, que são entes privados independentes vinculados por contrato à Raízen — mas sem lealdade além dele — migram para qualquer outra bandeira na primeira oportunidade. O Estado ficaria com terminais, logística e tanques, mas sem rede de varejo visível — cenário que constitui justamente o que não quer.
A solução mais óbvia seria a marca BR. Com ela, da noite para o dia, 15% dos postos de combustíveis do Brasil seriam pintados de verde e amarelo, sem desorientar o consumidor. Mas, como já disse, isso exige um acordo com a Vibra.
E se esse acordo não vier? Aqui entra a ironia que merece uma nota de rodapé na história econômica brasileira.
No governo FHC, circulou internamente um plano de rebatizar a Petrobras como Petrobrax, criando uma marca mais internacional para atrair investidores estrangeiros após a quebra do monopólio do petróleo. O plano nunca saiu do papel; em parte porque a marca Petrobras tinha valor real, em parte porque os políticos já tinham sofrido o suficiente defendendo a quebra do monopólio.
A ironia é que o PT, partido que transformou a defesa do nome Petrobras em causa nacional, pode se ver forçado, pelas circunstâncias, a criar exatamente o que FHC não teve coragem de fazer: uma segunda marca de distribuição, verde e amarela, com subsídio implícito de preço no atacado, para segurar os revendedores enquanto o rebranding não termina.
Chame de PetroBR, PetroDistri, Posto do Painho ou qualquer nome que um marqueteiro safado inventar às três da manhã. O efeito é o mesmo: anos de obras inacabadas, um mundaréu de dinheiro gasto em retrofit de posto, e uma promessa que precisa parecer real antes de outubro de 2026.
Em meio a tantas (tantas mesmo!) elucubrações, quem perde nessa história toda? Os acionistas da Raízen.
A maioria dos cenários viáveis envolve compra de ativos, não de equity. O governo não precisa salvar os acionistas da Raízen, e não pretende. Aliás, ninguém pretende. Em qualquer processo de recuperação, a dívida de R$ 55 bilhões está na frente da fila. Os credores capturam o valor; os acionistas ficam com a casca.
No caso-base atual — Shell assumindo controle via conversão de dívida — a emissão de ações novas para converter R$ 25 bilhões em participação acionária dilui o equity existente de forma que transforma R$ 0,61 de hoje em milésimos de centavos amanhã. O minoritário comprou RAIZ4 sabendo que uma ação é um pedacinho de uma empresa, mas não imaginou que esse pedacinho seria de dimensões subatômicas. Na prática, o capital original está perdido.
Em suma, comprar RAIZ4 imaginando um cenário no qual esse ticker sai favorecido é apostar em algum cenário que me faltou imaginação para descrever. Talvez me falte imaginação. Talvez seja, de fato, uma aposta ruim. O tempo dirá.
A Cosan é outro caso. Já fragilizada — o BTG entrou em 2024 para estabilizá-la, não à Raízen — com a S&P tendo revisado negativamente a perspectiva por contágio. O interesse não declarado de Ometto é sair da Raízen com o mínimo de dano à Cosan. Os credores entenderam isso e estão cobrando o máximo pelo portão de saída.
No caso-base, a Cosan é diluída, mas aliviada: sai de sócia num naufrágio para sócia minoritária numa empresa gerida pela Shell. Paradoxalmente, o pior para ela no curto prazo pode ser o melhor no longo.
Sobre a Shell: é necessário registrar o que está acontecendo aqui, porque a narrativa pública é de “parceira responsável que não abandonou a empresa”.
Se o caso-base se confirmar, a Shell vai entrar como sócia majoritária de uma empresa já saneada, após um haircut que os credores pagarão. Por um aporte de R$ 3,5 bilhões, vai consolidar um ativo que gera R$ 11 bilhões de Ebitda e que herdará R$ 24 bilhões em prejuízos fiscais acumulados, hoje invisíveis, potencialmente gerando R$ 6 bilhões em créditos tributários realizáveis sob gestão mais conservadora.
É a mesma frieza que descrevi no artigo anterior como “engenharia de descompromisso”, com o sinal trocado. Antes, era sobre como não entrar. Agora é sobre como entrar sem pagar o preço cheio.
A Shell aprendeu com o E2G: quando as apostas são feitas com dinheiro de outros, o downside fica para quem emprestou. Agora talvez vá comprar o controle com o dinheiro que os credores perderam.
É legal, elegante e absolutamente impiedoso.
Quem lucra de verdade com tudo isso não é a Shell: é quem não tem nenhuma exposição à Raízen.
Mas antes de falar sobre quem está na melhor posição nesse tabuleiro, preciso descrever o cenário que guardei para o final. Porque é o mais perturbador, e perturbador de uma forma que a cobertura financeira ainda não articulou com clareza.
Como já disse, a J&F está interessada na Ipiranga.
A J&F é a holding de Joesley e Wesley Batista. Os mesmos que, entre 2007 e 2011, foram amplamente favorecidos pela política dos campeões nacionais promovida pelo BNDES sob Luciano Coutinho. Que, em 2017, gravaram o presidente Michel Temer discutindo propina, numa operação que acabou com o governo sem acabar com a J&F. Os mesmos que assinaram acordos de delação e continuaram tocando os negócios. Os mesmos que, ao que tudo indica, mantêm relacionamento próximo com o atual governo. Os mesmos que… — a lista seria longa; daria um artigo em separado. Mas acho que você já entendeu meu ponto.
Se a J&F compra a Ipiranga — e isso é uma possibilidade real —, a distribuição de combustíveis no Brasil fica assim: Vibra com ~20% de market share, Ipiranga com 15% sob controle dos Batista, e Raízen com 15% em processo de absorção estatal ou sob uma Shell, possivelmente com o governo brasileiro no encalço, tendo como principal ferramenta de pressão as operações de E&P, que são o que realmente interessa à empresa no Brasil.
Isso significa que aproximadamente 30% das bombas de combustível do país poderiam ter o preço final influenciado, de forma direta ou indireta, pelo que se passa num gabinete no terceiro andar do Palácio do Planalto.
A Petrobras já controla o preço no atacado. O que o governo quer é um mecanismo de pressão sobre o preço final. Tal mecanismo poderia ser uma estatal que não precisa dar lucro. Ou um grupo econômico amigo. Ou ambos. A primeira peça do mecanismo poderia nascer a partir dos 7.000 postos Shell da Raízen. A segunda, de uma Ipiranga controlada pela J&F.
Ainda sobre Ipiranga: outra interessada nela é a toda-poderosa Saudi Aramco, estatal saudita que ocupa o pódio de maior petroleira do mundo. O discurso de proteção do interesse nacional cairia bem para favorecer um grupo brasileiro na disputa. Ainda mais se tal grupo for de empresários amigos do governo da vez.
O paradoxo final fica para a Vibra, que pode sair fortalecida de um colapso ao qual tem zero exposição.
Uma Raízen sob controle da Shell é um competidor gerido por uma multinacional com disciplina de retorno sobre capital. Não faz guerra de margem em posto de gasolina. Não derruba preço para defender market share.
Aliás, a Vibra ganhou 1,3 ponto percentual de market share desde agosto de 2025, com as operações da PF contra a informalidade devolvendo clientes às grandes redes. Dinheiro real, independente de toda a novela da Raízen.
A Vibra perde a marca BR em 2029. É risco real que já está no preço. E eles já estão se virando nesse sentido. Provavelmente a nova marca nunca será tão vibrante quanto BR, mas paciência.
O único cenário francamente nefasto para a Vibra — e, convenhamos, para qualquer um que venda combustível no Brasil — é a dobradinha: Raízen absorvida pelo Estado via Petrobras, Ipiranga comprada pela J&F. Nesse arranjo, 30% das bombas do país ficam na órbita direta ou indireta do governo federal. A Vibra, com ~20% de market share, vira o único grande player genuinamente privado num setor que, para todos os efeitos práticos, deixaria de ser privado. Competir com quem não precisa dar lucro é um esporte diferente. Pergunte para quem tentou. A questão é a probabilidade desse cenário: por mais assustador que ele pareça, acho que tem outras opções mais à frente na fila.
Dito tudo isso: onde está a oportunidade?
Não é em RAIZ4. Já expliquei por quê. Comprar RAIZ4 agora é apostar no 13º cenário de uma lista de 12.
É em VBBR3. A Vibra é positiva ou neutra em quase todos os cenários que descrevi. No único cenário catastrófico para ela — a dobradinha estatal — a Petrobras também sofre, porque o mercado odeia quando a empresa vira braço de política industrial. O que abre o long/short mais elegante disponível: comprado em VBBR3, vendido em PETR4. Se o governo avança na reestatização, PETR4 cai (mais) com o noticiário e VBBR3 cai (menos) refletindo a incerteza do setor. Se o governo recua, VBBR3 sobe e PETR4 fica mais ou menos onde está. A assimetria favorece a posição.
Mas atenção: nada do que escrevi tem qualquer obrigação de acontecer. Às vezes, meus delírios dão dinheiro. Noutras vezes, não. Use meus devaneios sob sua própria conta e risco.
Reestatização é uma palavra feia. O vocabulário oficial prefere “retorno estratégico”, “soberania energética”, “interesse nacional na cadeia de distribuição”. Ou, na versão mais elaborada, que certamente está sendo redigida por algum assessor petista neste exato momento: “correção dos retrocessos históricos promovidos pela gestão anterior”.
Mas 7.000 postos de gasolina com a marca do governo, em todas as esquinas do Brasil, seis meses antes de uma eleição presidencial, é uma ferramenta. Não importa se a marca se chama BR, PetroBR ou qualquer nome inventado às três da manhã.
O instrumento é o ponto.
A bomba de combustível como termômetro político é uma obsessão que atravessa partidos e décadas no Brasil. Nunca foi sobre eficiência — a BR Distribuidora era cronicamente ineficiente antes de ser privatizada, e a Petrobras é uma péssima operadora de varejo.
Também nunca foi sobre o consumidor final. Tampouco sobre a transição energética.
É sobre quem aparece no posto quando o preço sobe.
Ninguém está falando em reestatização.
Que é exatamente o que você diz quando está reestatizando.
-Ricardo Schweitzer
Minha intenção era que isso fosse um artigo de opinião. Mas provavelmente a APIMEC vai concluir que é um relatório de análise. Então, para eles não encherem meu saco, em nome das boas práticas de compliance, faço as declarações regulatórias de praxe: este texto foi elaborado de forma autônoma e independente. Não possuo investimentos em nenhuma das empresas mencionadas. Pelo menos por enquanto.




Delícia de artigo. Opinião de quem não entende nada de economia (apesar de ter um filho economista- que acredito não entender nada também...), nunca jogou pôquer, e mesmo já estando velhinho, continua ingênuo. Vou vender minha casa e comprar VBBR3. É mentirinha... 😁
mt bom ricardo, parabens!