Destruição criativa em tempo real
ou: Schumpeter estava certo, mas ninguém avisou que seria tão rápido
Joseph Schumpeter, o economista austríaco que inventou o conceito de destruição criativa, morreu em 1950. De infarto. Provavelmente teria outro se visse o que aconteceu esta semana.
A Anthropic lançou um produto que faz o trabalho de advogados, analistas e vendedores. A Thomson Reuters perdeu 16% de valor de mercado num único dia. A Salesforce, 26% no ano. Quase um trilhão de dólares evaporou do setor de software em questão de horas. E a Amazon anunciou que vai investir US$ 200 bilhões em inteligência artificial, só em 2026, enquanto demite 16 mil funcionários no mesmo trimestre.
Leia de novo esse último parágrafo. US$ 200 bilhões. Dezesseis mil demissões. O capitalismo não é contraditório. É apenas honesto quando pensa que ninguém está olhando.
Schumpeter dizia que o capitalismo progride destruindo o que veio antes. O cavalo destruiu a carruagem. O carro destruiu o cavalo. O Uber destruiu o taxista. Agora a inteligência artificial está destruindo o software que destruiu o papel que destruiu o pergaminho. A diferença é que antigamente a destruição levava décadas. Hoje leva um comunicado de imprensa.
A Goldman Sachs mantém uma cesta de ações de software. Caiu 6% num único dia, a pior sessão desde abril. Software era “o futuro” até a semana passada. Agora é o cavalo olhando para o Model T, tentando entender por que ninguém mais quer aveia.
Isso não significa que software morreu. Significa que o mercado está precificando, em tempo real, quem sobrevive e quem vira aveia. A diferença entre uma empresa de software com futuro e uma sem é, cada vez mais, a capacidade de incorporar IA antes que a IA a incorpore.
E a destruição não se limita ao setor de tecnologia. O mercado de trabalho americano resolveu dar sinais de que talvez, só talvez, a economia mais poderosa do mundo não seja tão indestrutível quanto o excepcionalismo sugere.
O ADP registrou 22 mil empregos privados em janeiro. Vinte e dois mil. Para um país de 330 milhões de habitantes, é o equivalente a dizer que a economia contratou o elenco de apoio de uma novela da Globo e parou por aí. O pior janeiro desde 2021.
A Challenger reportou 108 mil cortes anunciados, o maior número desde 2009. A Amazon demitiu 16 mil. A UPS, 30 mil. As vagas abertas caíram para 6,5 milhões, o menor nível desde 2020. Os pedidos de seguro-desemprego subiram para 231 mil contra 212 mil esperados.
Os Treasuries de 10 anos despencaram para 4,2%. Quando o dinheiro americano foge para títulos do governo americano, não é otimismo. É pânico vestido de terno.
E enquanto o mundo se reconfigura em velocidade brutal, o que faz o Brasil? O que o Brasil sempre faz nos seus melhores momentos: nada de espetacular.
O Ibovespa bateu recorde histórico na segunda-feira. 187.333 pontos. Fluxo estrangeiro de R$ 26,3 bilhões só em janeiro, mais do que todo o ano de 2025 e o segundo maior da série histórica. Alta acumulada de 15,2% no ano. O gringo, que passou 2025 inteiro dizendo que o Brasil era “uninvestable”, agora empurra dinheiro pela porta como quem chega atrasado num rodízio.
Na quarta, corrigiu 2,14%. O Bank of America publicou uma nota dizendo que a bolsa está perto de “nível de bolha”. O investidor que comprou na segunda entrou em pânico. O investidor que comprou em outubro deu de ombros e pediu outro café.
A diferença entre os dois é o que separa quem investe de quem aposta.
O Copom, essa instituição que o brasileiro médio confunde com um órgão de trânsito, publicou a ata da última reunião confirmando o que o mercado já precificava: corte de 0,50 ponto percentual em março.
A Selic está em 15%, maior nível desde julho de 2006. O Focus projeta 12,25% no fim do ano. Isso significa que o Brasil vai passar 2026 reduzindo juros enquanto o resto do mundo tenta entender se tem emprego suficiente para manter o consumo de pé.
Para quem opera mercado, isso é o que se chama de ambiente construtivo. Para quem escreve sobre mercado, é quase tedioso. A virtude macroeconômica brasileira é tão desinteressante quanto um casamento estável: ninguém escreve romance sobre ele, mas todo mundo quer um.
Há, porém, duas nuvens no horizonte. A primeira atende pelo nome de Guilherme Mello, indicado para a diretoria do Banco Central. Economista da Unicamp, aquela escola de pensamento cuja principal contribuição à ciência econômica foi provar que é possível estar errado com sofisticação teórica durante cinco décadas consecutivas. A simples menção do nome moveu juros longos. Não é todo dia que um economista consegue causar dano ao mercado antes mesmo de tomar posse. Tem que ter talento.
A segunda indicação é Tiago Cavalcanti, catedrático em Cambridge, que o mercado recebeu com o alívio de quem descobre que só um dos dois pneus está furado. Lula ainda não formalizou os convites, o que em Brasília significa que pode mudar de ideia a qualquer momento, por qualquer razão, inclusive nenhuma.
Mas o Brasil não seria o Brasil sem seus dramas particulares.
O Caso Master continua rendendo como novela em horário nobre. A Fictor, aquela empresa que apareceu do nada com R$ 3 bilhões para comprar o Master e depois reduziu o capital para R$ 1 mil (não é erro de digitação: mil reais), pediu recuperação judicial. Dívida: R$ 4,3 bilhões. A Polícia Federal investiga gestão fraudulenta tanto na Fictor quanto no BRB.
Vorcaro, num gesto que combina desespero com uma certa audácia criativa, procurou Lula dizendo-se “perseguido”. O Congresso, com a sabedoria institucional que lhe é característica, adiou a discussão para depois do Carnaval. Porque nada diz “urgência” como esperar o bloco passar.
Enquanto isso, a Reag apareceu na terceira matéria mais lida do Valor com fundos cujo patrimônio de R$ 45 bilhões era lastreado em créditos de carbono gerados em áreas griladas no Amazonas. A conexão com o Master? O pai de Vorcaro forçou seguradoras a direcionar 0,5% das reservas técnicas para esses créditos. É o tipo de esquema que, se fosse ficção, o editor devolveria o manuscrito por inverossimilhança.
Voltemos a Schumpeter.
O austríaco achava que o capitalismo acabaria se destruindo, não por falha, mas por sucesso. As inovações seriam tão eficientes que eliminariam a necessidade dos próprios inovadores. A burocracia engoliria o empreendedor. O sistema racionalizaria a si mesmo até a morte.
Olhe para o que está acontecendo. A IA está tornando obsoleto o software que tornou obsoleto o trabalho manual. A Amazon investe meio trilhão e demite milhares. O mercado de trabalho americano encolhe enquanto os lucros sobem. O Brasil, por acidente geográfico e incompetência administrativa, está longe o suficiente do epicentro para surfar a onda em vez de ser engolido por ela.
A questão que ninguém consegue responder é se isso é o começo de uma reconfiguração global que beneficia mercados emergentes, ou se estamos apenas mais longe na fila do abatedouro.
Eu tenho uma opinião sobre isso. Tenho pele em jogo. Se quiser saber onde estou colocando meu dinheiro, o convite está feito.
Mas permita-me uma confissão: na velocidade em que as coisas estão se movendo, até a destruição criativa pode ser destruída criativamente. E isso, convenhamos, Schumpeter não previu.




Existe um paradoxo nisto tudo: os lucros sobem no curto prazo, mas com mais gente sem trabalho, o consumo tende a cair no longo. Então, fluxos de caixa considerando lucros infinitos com poder de consumo decrescente não parece combinar. Sei que é um problema para outro texto, mas é algo que tem me deixado pensativo.
GOOOOOD!