Esse impeachment não era meu
ou: a trend "2026 é o novo 2016", um acampamento em Brasília e dez anos depois
O ano era 2025. Meados de setembro para outubro.
Havia sido demitido recentemente de um banco de investimento, no meio de um corte de equipe causado pelas péssimas condições do mercado naquele fim de governo Dilma. Estava em casa há semanas, frustrado, com tempo de sobra.
Surgiu o convite para um ônibus de São Paulo a Brasília, alguém num grupo qualquer perguntando se ia mais gente. Aceitei sem refletir. Passei no Carrefour da marginal, sessenta reais numa barraca de uma pessoa, uma ninharia adicional num colchão inflável de solteiro. Total da despesa da minha estadia revolucionária: oitenta reais e troco.
Cheguei em Brasília no fim de outubro de 2015. Chovia. O gramado em frente ao Congresso já tinha barracas pelo perímetro inteiro, espalhadas por movimentos diferentes que àquela altura ninguém mais distinguia. Todo mundo estava ali pela mesma razão. A chuva entrava por baixo da lona, encharcava o colchão furado, e ninguém se importava. Eu olhava o Congresso e pensava: estou onde precisa acontecer.
A logística era espartana. O único banho que consegui tomar a semana inteira foi num vestiário do Anexo 2 do Ministério da Saúde. Para necessidades básicas, banheiro químico. A comida vinha de doação. Gente aparecia com marmita, sopa, pão, água, e nos olhava com o cansaço de quem já estava esgotado do que o país atravessava, fosse do lado de cá ou de lá.
Fiquei poucos dias. Voltei para casa por razão física, não por convicção abalada: minha coluna nunca me deu trégua e eu ia ficando menos útil a cada dia — achei melhor sair antes de virar mais um problema para os outros acampados terem que cuidar.
Mas voltei convicto de que, daquela vez, a coisa ia. E de que, tendo estado lá, eu tinha contribuído minimamente para que a coisa fosse.
Dez anos depois, abri o TikTok num intervalo qualquer e dei de cara com uma trend.
Vinheta com música dos anos 2010 ao fundo, fotos saturadas com filtro “Rio de Janeiro” do Instagram, o filtro de orelhinha de cachorro do Snapchat, gente fazendo Mannequin Challenge e Water Bottle Flip.
A legenda: “2026 é o novo 2016”.
Mais de um milhão e setecentos mil posts com a hashtag. Originada por usuários nostálgicos no fim de 2025, explodiu nos primeiros minutos do ano novo, e estourou também fora do Brasil.
A saudade dominante é estética. É saudade de Music.ly virando TikTok. De um tempo em que a internet ainda inventava coisas leves todos os meses, antes de se tornar a praça mal-iluminada que é hoje.
Só que alguns adultos pegaram a trend e ajustaram. Adultos do meu tipo, gente que viveu 2016 politicamente. “2026 é o novo 2016” virou também o slogan compartilhado entre amigos no WhatsApp: olha, Lula contra Bolsonaro de novo; olha, Trump de novo; olha, polarização escalada de novo; olha, fim do mundo previsto pela segunda vez na década.
Não é mentira: os personagens estão de volta; a polarização é dura; as redes estão em chamas. O paralelo, no espelho, parece parar em pé.
O problema é que o paralelo é um truque ótico. O que ele aponta é o que parece igual. E o que esconde, debaixo da pressa do “olha como tudo voltou”, é o que de fato mudou — e também o que, dez anos depois, agora sabemos que era ilusão.
Dia 22 de maio deste ano, em um programa da TV Brasil, Lula chamou a Operação Lava Jato de “grande mentira do século 21”. Cobrou pedido de desculpas da imprensa pelas manchetes que falavam de desvios bilionários na Petrobras. Disse que a operação fechou quatro milhões de empregos no Brasil.
Fez isso na televisão pública, com a tranquilidade de quem sabe que ninguém com microfone do outro lado vai responder. E, para a surpresa de absolutamente ninguém, ficou por isso mesmo.
O ícone moral de 2016 sobreviveu reciclado: Sergio Moro hoje é senador pelo Paraná. É seu primeiro mandato, mas já está no seu terceiro partido político (começou no Podemos, migrou para o União Brasil e, esse ano, fechou com o PL). É cotado como favorito ao governo paranaense nas eleições deste ano. Dez anos atrás era figura conhecida de norte a sul; hoje perambula pelo Senado e, logo mais, disputará um governo estadual com políticos de carreira — devidamente institucionalizado.
As condenações de Lula foram anuladas. A Odebrecht, rebatizada Novonor para tentar descolar de seu passado imundo para refletir seu novo posicionamento empresarial, emergiu da Lava Jato como fênix ressurgida das cinzas e voltou a ser sócia em empreendimentos imobiliários de luxo. Em São Paulo, é parceira da Magma Empreendimentos, controlada por fundos atribuídos pela Justiça a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, hoje preso.
Seis empreendimentos. Quinhentos e setenta e sete apartamentos de alto padrão.
A Lava Jato veio para a Odebrecht. Dez anos depois, a Odebrecht ergue prédios em parceria com outro figurão atrás das grades.
Em maio de 2016, Folha, UOL e TV Globo divulgaram em conjunto uma série de áudios obtidos a partir da delação premiada do ex-senador Sérgio Machado.
Em uma das gravações, Renan dos Santos, um dos principais coordenadores nacionais do MBL, um dos movimentos que organizou as caravanas como a que me levou a Brasília, dizia a um colega que tinha “fechado com partidos políticos” para divulgar os protestos do 13 de março. Confirmou panfletos pagos pelo PMDB, carros de som do Solidariedade, lanches e ônibus pela Juventude do PSDB, “máquina partidária” do DEM — o partido negou apoio financeiro, mas admitiu atuação conjunta.
Os panfletos eram vinte mil. Conforme as gravações, foram pagos por Moreira Franco, então presidente da Fundação Ulysses Guimarães do PMDB. O gabinete dele negou. O slogan estampado neles, em letras garrafais, era: “Esse impeachment é meu.”
O coordenador do MBL, hoje pré-candidato à Presidência pelo Missão, confirmou na época a autenticidade do áudio, contestando apenas a palavra “financiamento”: preferia “parceria”. No ano anterior, 2015, o movimento havia se apresentado, desde o primeiro ato, como espontâneo, sem vínculo partidário e sem dinheiro parceiros.
E eu, que me considerava informado, acreditei.
Hoje, dez anos depois, Eduardo Cunha, preso e cassado pela própria Lava Jato, apareceu em novembro passado num restaurante português em Brasília jantando com Arthur Lira (na época presidente da Câmara) e Guilherme Derrite, relator do PL Antifacção. A foto vazou.
José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil, condenado pelo mensalão, hoje transita novamente pelo Congresso, com naturalidade. Considera concorrer a deputado federal (e pode escrever: vai ganhar). Lula defendeu publicamente seu retorno: em discurso no 17º Encontro Nacional do PT, em agosto de 2025, citou Dirceu pelo nome e cobrou que voltasse à direção partidária.
Em entrevista recente, Dirceu disse, com naturalidade desarmante: “os mensaleiros nunca saíram.”
Na semana passada, o PSDB reuniu Solidariedade e Cidadania para discutir lançar Aécio Neves à Presidência da República, depois dos abalos sofridos pela candidatura de Flávio Bolsonaro — causados, ironia perfeita, pelas revelações de que Flávio teria pedido dinheiro a Daniel Vorcaro para um filme sobre o pai.
O mesmo Vorcaro que hoje é sócio da Odebrecht em prédio de luxo em São Paulo é o que alvejou um Bolsonaro e abriu a porta para um tucano morimbundo (pleonasmo?) ensaiar voltar à corrida presidencial.
“Derrubamos” (nós quem?) a Dilma. Entrou Temer, num mandato-tampão segurando as pontas (e até acho que fez muito para as circunstâncias). Veio Bolsonaro, que trocou os pés pelas mãos de todas as maneiras possíveis e imagináveis.
E depois?
Depois voltaram os de sempre. Os mesmos nomes. Os mesmos sobrenomes. Os mesmo conchavos nos mesmos restaurantes brasilienses.
É a política brasileira reafirmando sua identidade como museu de velhas novidades.
Estive lá em 2015. Acampei. Achei que era o momento.
Dez anos depois, a sensação é de que foi uma enorme perda de tempo.
É honestidade que me leva a dizer isso. O movimento para o qual cooperei tinha contas pagas por partidos — e eu fui um dos iludidos que só soube disso quando era tarde. A operação que prometia salvar o país virou pó. Os personagens que iam ser substituídos não o foram: acabaram absolvidos pelo Sistema ou absorvidos pelo Sistema. Em todos os casos, o Sistema venceu.
Aécio voltou. Dirceu voltou. Cunha está em Brasília comendo bacalhau. Lula está no Planalto chamando a Lava Jato de mentira. Moreira Franco morreu, mas a fundação dele segue pagando boletos.
E, como disse o próprio Dirceu, os mensaleiros nunca saíram.
Quem viveu 2016 politicamente e olha para a trend “2026 é o novo 2016” deveria sentir calafrio.
Saudade fica difícil.
-Ricardo Schweitzer
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