O panfleto chegou às minhas mãos no semáforo. Papel brilhante, frente e verso. Na frente, um sujeito daqui: foi o vereador mais votado da cidade na última eleição municipal e, pelo que me consta, fez um bom trabalho. Agora quer ser deputado estadual.
Até aí, nada que mereça uma crônica. A crônica está no verso.
No verso está a presidente do partido, candidata a deputada federal. Pelo que sei, ela nunca pisou aqui. Nem precisa: é dona da chave do cofre do fundo partidário, e o cofre veio no lugar dela. A foto tem tanto photoshop que a deixou irreconhecível. Uma política que jamais poderá ser acusada de mentir só depois da eleição.
O nome disso é dobradinha, e é das coisas mais antigas da política brasileira — e ouso dizer que é tão desagradável tanto quanto a iguaria homônima. O candidato local empresta a cara conhecida, o partido empresta o dinheiro e o eleitor recebe as duas coisas no mesmo pedaço de papel, como quem compra um remédio e leva de brinde uma bula que ninguém lê.
Guardei o papel. Ele explica o próximo domingo melhor do que qualquer debate na televisão.
Domingo, na cabine, a urna vai pedir os votos numa ordem que ninguém repara: deputado federal, deputado estadual, 2 senadores, governador e, por último, presidente. A máquina pergunta primeiro pelo Congresso. O país passou 3 meses discutindo apenas as últimas duas teclas.
O resultado a gente conhece. Em junho, o Datafolha perguntou às pessoas em quem tinham votado em 2022. Para deputado federal, quase 70% não lembravam. Para presidente, menos de 10%.
Em 4 anos, o eleitor lembra perfeitamente do sujeito que mandou para um lado da Praça dos Três Poderes e esquece os 513 que mandou para o outro. O poder faz a conta ao contrário.
Quem não lembra em quem votou para deputado pode se consolar: é bem provável que o voto tenha eleito outra pessoa.
O mecanismo cabe num parágrafo. Soma-se tudo o que o partido recebeu, nos candidatos e na legenda, e divide-se pelo quociente eleitoral, que é o total de votos válidos do estado dividido pelo número de cadeiras. Cada quociente atingido vale uma cadeira, e as cadeiras descem pela lista do partido, do mais votado para baixo. O seu voto passa primeiro pelo partido e só depois chega ao candidato, se chegar.
Em 2022, segundo o Diap, 28 dos 513 deputados federais alcançaram o quociente com os próprios votos. Os outros 485 chegaram a Brasília de carona. Traduzindo: de cada 20 deputados, 19 ocupam a cadeira graças a votos que não foram dados a eles.
A caricatura do sistema é de 2002. O Enéas teve quase 1,6 milhão de votos em São Paulo, e o Prona levou junto mais 5 deputados. Um deles, Vanderlei Assis, se elegeu com 275 votos, menos que uma festa de casamento grande. Em 3 anos, 4 dos 6 eleitos já tinham trocado de partido. O eleitor do Enéas comprou um bilhete e ganhou 5 acompanhantes que nunca tinha visto, e que logo foram embora com outro.
Em 2015, o Congresso criou um piso: o candidato precisa de pelo menos 10% do quociente para ficar com a cadeira. Com 275 votos, ninguém entra mais. A regra acabou com a caricatura e deixou o desenho intacto. O puxador continua puxando. Só ficou um pouco mais caro ser puxado.
Seria de esperar que 485 desconhecidos formassem uma balbúrdia. Mas não: formam um batalhão.
Fernando Limongi e Argelina Figueiredo, dois cientistas políticos que passaram anos contando votos nominais na Câmara do começo dos anos 90, mostraram que, em média, 9 em cada 10 deputados votam como o líder orientou. O Congresso que ninguém lembra de ter eleito é perfeitamente previsível. Basta saber o que meia dúzia de pessoas decidiu na véspera.
Eis o óbvio ululante que o Nelson Rodrigues gostaria de ter escrito: o deputado eleito de carona sabe muito bem a quem deve a cadeira — e não é ao eleitor, que talvez nunca tenha ouvido falar nele.
Agora vire o panfleto de novo.
A presidente do partido concentrou os esforços, o dinheiro e a cara retocada no próprio nome. Com isso ganha duas vezes. Garante a própria eleição, e com ela a chave do cofre por mais 4 anos. E, de quebra, faz um quociente gordo o bastante para levar junto uma fila de gente que ninguém daqui saberia reconhecer na rua. Essa gente chega a Brasília sabendo exatamente quem pagou a passagem.
E a passagem é paga com dinheiro público. Este ano o fundo eleitoral distribuiu R$ 4,9 bilhões entre 30 partidos. O TSE entrega a cada partido a sua parte, e dali em diante quem decide qual candidato recebe quanto é a direção do partido. Na prática, o comando da legenda escolhe quem vai ter campanha e quem vai ter só o nome na urna.
O detalhe mais bonito está na regra de divisão: 48% do fundo é repartido conforme o número de deputados que cada partido elegeu na eleição anterior. Quem elege mais recebe mais, e quem recebe mais elege mais. O cofre alimenta a bancada, a bancada alimenta o cofre, e a chave fica sempre no mesmo bolso. Um moto-perpétuo que a física diz ser impossível e o Brasil opera desde 2018.
O vereador da frente pode muito bem ser um bom deputado estadual. Mas quem se elege com ele é quem está no verso.
O líder orienta, a bancada obedece, e alguém paga a conta. A moeda é conhecida: cargo, verba e emenda.
O Orçamento de 2026 reservou cerca de R$ 61 bilhões para emendas parlamentares. Entre 2020 e 2022 existiu inclusive uma modalidade em que não se sabia direito quem tinha indicado o dinheiro nem para onde ele ia. Ganhou o apelido de orçamento secreto, e o STF só a derrubou em dezembro de 2022.
O presidente que o país escolhe no domingo, seja quem for, vai passar os 4 anos seguintes pedindo licença a gente que o país não escolheu. E vai negociar com poucos, porque comprar um cacique sai mais barato do que convencer 500 deputados.
Às vezes a moeda nem é tão republicana assim. Em 2005, o Roberto Jefferson contou ao país que deputados da base recebiam uma mesada para votar com o governo. Virou o Mensalão, e o STF levou até 2012 para julgá-lo. O dinheiro corria pelos partidos, porque o voto em bloco já vinha pronto: quem comprasse o líder levava o rebanho.
Ainda bem que isso não tem a mais remota chance de acontecer de novo. Como bem sabemos, nossas instituições funcionam perfeitamente.
Eu gostaria de fechar recomendando que cada um escolha o deputado com o mesmo cuidado que dedica ao presidente, anote o nome e cobre o eleito pelos próximos 4 anos.
Ficaria bonito, e seria inútil. Os caciques não estão nem aí para nós, e a maioria dos eleitos vai obedecer a eles como sempre obedeceu.
Sobra o mínimo, e o mínimo é defensivo: não votar no cabeça de chapa.
Todo voto engorda a legenda, mas o voto no puxador é o que mais escorre. Ele se elegeria sem você. O que você der a mais desce pela lista até parar em alguém que não ganharia uma eleição de síndico, mas subiu dentro do partido fazendo sabe-se lá o quê.
O panfleto continua em cima da minha mesa. Domingo, antes de apertar a primeira tecla, vou virar o papel e me recordar de que meu voto vale bem menos do que tentam me fazer acreditar.
Ricardo Schweitzer




Excelente lembrete de como o show funciona. Obrigado pela dedicação.
Agora um ponto que me irrita profundamente no debate popular, e nem posso colocar na conta 'Brasil', pois é um ponto falho geral do Ocidente, é não debater em profundidade o conceito da coisa. Todas essas minúcias de mecânica de distribuição de voto está abaixo do grande chapéu do conceito de Democracia por Representação. E a parte que me irrita é ninguém questionar o porquê. Por que ainda temos democracia por representação? Por que não temos democracia direta? A explicação do livro de faculdade é que democracia direta funciona bem para uma pólis grega com 500 cidadãos, mas impossível para uma nação com milhões de votos. Espera, estamos em 2026, se tem uma coisa (uma das poucas) que o século XXI fez bem, foi ter aprimorado métodos de transferência de dados. Já inventaram internet, já inventaram blockchain, e já inventaram votos remotos.
Trocar o modelo atual para o modelo de democracia direta é o verdadeiro conceito tabu aqui. Não há barreiras técnicas mais. O país inteiro se beneficia, só perdem os parasitas de plantão em Brasília. Eu entendo o motivo da ideia não vir de Brasília, mas por que nós não discutimos isso? Falar é de graça, escrever é de graça. Ou não fazemos por falta de espírito, de cérebro ou excesso de distração.
O processo legislativo pode ser feito de forma perfeitamente organizada e descentralizada. Só precisa estabelecer as regras: Qual o quórum para proposição de novas leis? Qual o quórum para proposição de cancelamento / alteração de leis antigas? Qual o tempo hábil de discussão antes da votação? Quantas janelas de votação são permitidas dentro de um ano (sendo por internet e não urna, dá para fazer várias por ano)? ... E vários outros detalhes.
E para a galera do mimimi ou que nada nunca dá certo. Não é necessário abolir o sistema atual. Você pode ter democracia direta convivendo com democracia por representação. É só permitir que a pessoa X transfira o seu direito de voto para pessoa Y. O direito de transferência de voto convive lado a lado com os temas abertos à votação.
Isso mata o legislativo centralizado que possuímos hoje, e devolve o poder de decisão dos rumos do país de volta ao cidadão. Bem ... de volta dá a impressão que é o retorno à um situação que já existiu no passado. Não. Isso nunca houve. O correto seria dizer "Pela primeira vez na história desse país .... estaríamos caminhando no rumo correto de retornar o Kratos ao Demos, de dar soberania de decisão ao seu correto dono, o povo do país.".
Como disse, escrever e falar é de graça. Que se oriente o discurso ao futuro ideal.
Matador como sempre. É triste lembrar como esse circo funciona. Alimentamos a máquina mais ineficiente da galáxia. Do nada me lembrei do Justo Verissimo, personagem do Chico Anysio. Apesar de ser bem antigo continua bem atual.