O que 196 mil pessoas acharam engraçado
ou: o que um pai de meninos pensa quando a violência vira conteúdo
O vídeo começa com flores. Às vezes com um anel. O rapaz se ajoelha, estende a mão, olha para a câmera com aquela cara ensaiada de quem vai pedir alguém em casamento. É bonito por meio segundo.
Aí surge a legenda: “treinando caso ela diga não”.
O que vem depois são socos num saco de pancada. Ou facadas no ar. Ou uma arma de brinquedo apontada para lugar nenhum. Quinze segundos. Corta. Emoji de risada. Próximo vídeo.
Isso não é um vídeo. São milhares. A hashtag circula desde 2023, em português e em inglês, e ninguém achou que valia uma notícia até a coisa explodir na semana do 8 de março. Dia Internacional da Mulher. Para quem aprecia esse tipo de ironia que o roteirista da realidade brasileira insiste em não aposentar.
A versão gringa, “if she says no”, já rodava há meses. O Brasil não inventou a trend. Fez o que costuma fazer com quase tudo que importa de fora: adaptou, escalou e acrescentou uma camada própria de brutalidade. Porque o garoto americano que socava o ar pelo menos fingia constrangimento na legenda.
O brasileiro não: o brasileiro colocou música, editou com transição suave e publicou no mesmo perfil em que anuncia whey protein. O conteúdo violento e o conteúdo comercial, lado a lado, com a mesma iluminação de ring light. Como se fossem a mesma coisa. Talvez porque, para o algoritmo, sejam.
Cento e noventa e seis mil likes.
Não numa conta anônima. Não num perfil de nicho. Na página de Yuri Meirelles: 1,6 milhão de seguidores no Instagram, 1,7 milhão no TikTok, ex-participante de A Fazenda, figurante no clipe de Funk Rave da Anitta. Casado com uma influenciadora que conheceu no reality. Pai de uma criança pequena. O tipo de sujeito que a internet chama de “criador de conteúdo” sem que ninguém precise especificar o conteúdo.
O vídeo dele acumulou aqueles 196 mil likes antes de ser removido. Não por iniciativa dele; pelo inquérito da Polícia Federal. Depois, Meirelles publicou que foi “humor de muito mau gosto” e que não repetiria. Uma frase calibrada por assessoria, curta o suficiente para caber num story de desculpas. O formato que a internet inventou para que arrependimentos durem exatamente 24 horas antes de desaparecer sozinhos.
É tentador transformar Meirelles no vilão dessa história. Seria confortável. O problema é que ele não é exceção; é média. A tradução exata do que o algoritmo recompensa: um rosto bonito fazendo algo indefensável com a naturalidade de quem está testando um filtro novo.
A banalidade não é acidental. É o produto.
O TikTok removeu 15 vídeos. Quinze. Num universo de milhares. O equivalente institucional de enxugar uma gota de um aquário e declarar a água limpa.
O governo deu cinco dias para a plataforma se explicar. A Câmara agendou votação na Comissão de Segurança Pública. Um deputado declarou, com a solenidade que o cargo exige, que “violência contra mulheres não é trend, não é humor, não é entretenimento”. A frase ficaria bonita num pôster. Talvez fique.
A engrenagem da indignação oficial fez o que sempre faz: girou, produziu barulho, e em duas semanas ninguém se lembrava mais do assunto. O ciclo é tão previsível que já deveria ter nome próprio. Trend, escândalo, inquérito, nota de repúdio, comissão, silêncio.
Repita no próximo trimestre com o próximo tema.
Mas eu me lembro.
Eu me lembro porque tenho dois filhos. Meninos. Pequenos ainda. E quando li a descrição dessa trend (não vi os vídeos; li sobre eles, o que de certa forma é pior, porque a imaginação preenche o que a tela pouparia), o primeiro pensamento não foi sobre as vítimas. Foi sobre os meus filhos.
Levei menos de um segundo para me corrigir. Para sentir vergonha desse reflexo. Para pensar nas mulheres reais que existem do outro lado do manequim, do saco de pancada, do ar que levou o soco. Mas o reflexo veio primeiro, e ele veio do lugar que eu não controlo.
Qualquer pai de menino que diga que não pensou a mesma coisa está mentindo ou não prestou atenção.
O medo não é um ou outro. É os dois ao mesmo tempo. Eu penso nas mulheres que cruzarão o caminho dos moleques que acharam aquilo engraçado. E penso nos meus filhos, que vão crescer no mesmo país e navegar a mesma internet que esses moleques. As duas preocupações não competem entre si. Elas se alimentam.
Não é que eu duvide da criação que estou dando. Eu não duvido. Meus filhos vão crescer sabendo que “se ela disser não” só admite uma continuação: você agradece e segue a sua vida. Isso está no alicerce. Não é mérito; é obrigação.
O problema é que eu também sei que nenhuma mãe, nenhum pai que trouxe ao mundo um desses lixos humanos errou de propósito. Ninguém sentou com o filho de seis anos e disse “quando uma mulher te rejeitar, você bate”. Ninguém planejou isso. E mesmo assim, cá estamos.
A criação certa é condição necessária. Não é suficiente.
Entre o que eu ensino dentro de casa e o que o algoritmo ensina em quinze segundos, existe uma disputa que nenhum pai honesto pode dizer que está vencendo com tranquilidade.
O TikTok não precisa de trinta minutos. Não precisa de argumento. Não precisa nem de palavras. Precisa de um rosto sorrindo, um soco, uma risada, e a validação silenciosa de cento e noventa e seis mil pessoas que apertaram o coração antes de rolar para o próximo vídeo.
O ensaio é esse. Não é o da violência em si; é o da normalização. O garoto que vê o vídeo não sai dali pensando “vou bater em alguém”. Sai achando graça. E achar graça é o primeiro ensaio. O segundo é compartilhar. O terceiro é imitar. Em algum lugar entre o terceiro e o quarto, a plateia desaparece e o palco vira a vida real. Ninguém sabe exatamente onde fica essa linha. O algoritmo, menos ainda. E se soubesse, não se importaria, porque a linha não gera clique; a transgressão gera.
Yuri Meirelles é pai. Eu sou pai. A diferença entre nós dois nesse assunto específico é que ele achou que era engraçado e eu não. Mas os nossos filhos vão crescer no mesmo país, consumir a mesma internet, frequentar as mesmas escolas. A criação que eu ofereço compete com o conteúdo que ele produz. E ele tem 1,6 milhão de seguidores. Eu tenho dois meninos e a esperança de que o alicerce aguente.
Existe algo particularmente cruel em ter que disputar a formação do seu filho com um sujeito que faz vídeo simulando agressão a mulher entre uma publi de suplemento e uma dancinha. Não porque ele seja o inimigo; ele é só o sintoma mais fotogênico.
O problema é a plateia. São os cento e noventa e seis mil. São os milhares de vídeos iguais. É a arquitetura de um sistema que aprendeu que a transgressão retém atenção e que atenção é a única moeda que importa.
Eu não tenho solução. Não tenho programa de cinco pontos, não tenho proposta de lei, não tenho thread otimista terminando em “mas nem tudo está perdido”.
O que eu tenho é a certeza desconfortável de que estou criando dois meninos num país que ensaia a violência contra mulheres como entretenimento e publica nota de repúdio como ritual de purificação.
O ensaio geral acontece todo dia, em milhões de telas, e ninguém vendeu ingresso. A estreia, a gente acompanha pelo noticiário. Às vezes pelo boletim de ocorrência.
-Ricardo Schweitzer




Concordo com você. O desafio é como resolver isso ? Qual a solução ?
Excelente texto, triste assunto. Crônica tão curta quanto possível, mas difícil competir com 15 segundos! Meus filhos hoje estão na faixa dos 30 anos. Tiveram celular a partir dos 13 anos e, naquela época foi difícil, mas eu morava numa cidade bem pequena. Hoje seria impossível.
Parabéns, Ricardo. Inclusive pela diversidade de assuntos!