Parar de pensar não dói
ou: a única decadência intelectual que vem acompanhada de boa avaliação de desempenho
Ontem eu abri uma caixinha de perguntas no Instagram e, em meio a tantas outras, veio esta — que ecoou na minha cabeça a ponto de me fazer escrever as linhas que seguem:
”Com a febre de IA, faz sentido aprender uma linguagem de programação? Você usa?”
São duas perguntas, e quem escreveu provavelmente achou que estava fazendo uma só. Começo pela segunda, que é a fácil.
Uso IA. Todo dia, o dia inteiro, para quase tudo. Seria mais rápido listar o que eu ainda faço sem.
E aqui a conversa fica constrangedora antes de ficar interessante, porque eu não uso inteligência artificial como quem usa uma calculadora. Montei mais de cinquenta agentes, cada um com nome próprio, personalidade, área de especialidade e uma base de conhecimento que eles mesmos mantêm. Para eles delego tarefas; cobro prazos; discuto método; discordo de pareceres. Passo, enfim, a maior parte dos meus dias conversando com “gente” que só existe dentro de um modelo de linguagem e cujos corações são é um punhado de GPUs — provavelmente da Nvidia.
Meu psiquiatra e meu terapeuta estão preocupados.
Registro tudo isso para que fique claro de onde vem o que vem agora: a resposta para a primeira pergunta é sim, aprenda, e ela é sim precisamente por causa do parágrafo anterior.
A pergunta carrega uma suposição que quase ninguém enuncia em voz alta: a de que a razão de ser de aprender é estocar informação. Você guarda o conhecimento num armário atrás da testa e o saca de lá quando a vida pede.
Se for isso, a discussão acabou antes de começar. A máquina estoca mais, estoca melhor, não esquece, não cobra hora extra e nunca acorda de mau humor.
Só que eu estudei latim.
Latim é uma língua que ninguém fala. Não abre vaga de emprego, não entra em currículo sem provocar olhares estranhos, nunca me rendeu um centavo. Pelo critério do “conhecimento útil”, foi tempo vigorosamente defenestrado.
O efeito apareceu em outro lugar, anos depois. Primeiro nos idiomas que vieram na sequência, todos mais fáceis do que deveriam ter sido. Depois — e principalmente —, no português, que é a língua em que eu ganho a vida.
Quem passa um bom punhado de horas estudando casos latinos (e descobrir quem é o sujeito de uma oração cujo verbo está no final) tem uma propensão dramaticamente menor a frase ambígua em português. Não por ter aprendido qualquer regra de português, mas porque passou a enxergar a estrutura por baixo da frase — e depois disso não dá mais para desenxergar.
Programação faz a mesma coisa, com um professor ainda mais cruel.
O computador não entende o que você quis dizer: ele entende o que você de fato disse, e essa é a experiência pedagógica mais humilhante à disposição de um adulto.
Você “acha” que foi claro — ou melhor, você tem certeza de que foi claro.
Eis que a máquina executa exatamente o que você escreveu e o resultado é uma catástrofe cuja responsabilidade é inteiramente sua. E você descobre que é um legítimo mentecapto.
Seis meses instruindo uma coisa que não perdoa ambiguidade é o tratamento mais barato que existe contra pensar de modo confuso. O código resultante desse aprendizado é subproduto.
Vou confessar uma coisa que me incomoda mais do que deveria.
Na faculdade, o meu acesso a matemática teórica era bastante limitado. Uma grade curricular fortemente fundada em “economia política” (Marx, Marx e mais Marx…) combinada com um corpo docente majoritariamente propenso a proselitismo e avesso à aritmética básica que o derrubaria.
Transmitiram o básico — a ponta do iceberg, e olhe lá.
Mas daquela ponta eu tirava insight de verdade. Lembro do estado mental com uma nitidez que não é nostalgia: o raciocínio era mais limpo naquela época. As coisas se encaixavam com menos esforço. Eu enxergava relações entre assuntos que não tinham nada a ver um com o outro, e enxergava rápido.
Hoje eu tenho o iceberg inteiro. Está a uma frase mal digitada de distância; traduzido, resumido, explicado com paciência infinita no ritmo que eu pedir, de graça, no bolso, às três da manhã.
(E, de ato, muitas vezes é precisamente isso que eu faço às três da manhã)
E aqui entra o óbvio ululante: se acesso ao conhecimento fosse a variável que importa, esta seria, disparado, a geração mais brilhante da história da humanidade. Nunca existiu nada remotamente parecido. A biblioteca de Alexandria era uma prateleira mal iluminada perto do que qualquer adolescente entediado carrega no bolso agora.
Abra sua timeline amanhã de manhã e me diga se é essa a impressão que dá.
Antes que alguém me acuse de cobrar da máquina uma conta que é minha e da minha certidão de nascimento: parte disso é idade, sim, e a parte da idade eu pago pontualmente.
Anos atrás eu entendia equação diferencial. Hoje eu perco mais de meia hora por dia procurando os óculos, o celular, a carteira e a chave do carro. Dentro de casa. Repetidas vezes, às vezes no mesmo cômodo em que eu estive dois minutos antes.
Já pus tag de localização em tudo, e não é coincidência nenhuma que o aplicativo que encontra as tags seja hoje um dos mais usados do meu celular.
O problema é quando quem some é justamente o celular.
Essa perda eu não escolhi. Ela é o argumento mais forte que existe a favor de tudo que eu venho dizendo: com o tempo já cobrando a parte dele, a última coisa a fazer é abrir mão do que ainda depende de mim.
E repare que o que a idade tira, ela avisa. Meia hora por dia procurando o celular é um recibo, entregue diariamente, em mãos.
A outra perda, que é a que me interessa aqui, não emite recibo nenhum.
O que não se usa, atrofia. Isso é banal de tão sabido: vale para músculo, vale para idioma, vale para o senso de direção que foi embora junto com a necessidade de decorar o caminho.
Só que essa atrofia específica tem um agravante que as outras não têm; ela não dói.
O sujeito que parou de pensar continua, hoje em dia, entregando trabalho bom. O relatório sai; o email sai; o código roda; a apresentação fica bonita. A máquina cobre o buraco na medida exata do buraco. E, como o resultado não piora, ninguém aciona alarme nenhum. Some apenas a parte dele que produzia aquilo — e some devagar, sem nenhum sintoma.
É a única forma de decadência intelectual que vem acompanhada de boas avaliações de desempenho.
Eu já confessei o meu medo tanto para humanos quanto para robôs, e ele cabe em cinco palavras: virar um asno que sabe usar IA. O sujeito de output impecável e cabeça oca, que produz o dia inteiro sem entender uma linha do que produziu, e que não tem como saber quando a máquina está errada porque não sobrou nele nada com que comparar.
Porque essa é a parte que ninguém conta no vídeo de produtividade. A máquina responde com o mesmo tom sereno de autoridade quando acerta e quando inventa. Não existe tremor na voz, não existe hesitação, não existe rodapé avisando que ali ela chutou. Igualzinho um jovem arrogante com excesso de iniciativa na sua primeiríssima vaga de emprego — e eu sei porque eu já estive lá. O único detector de erro disponível é você ter, na sua cabeça, um modelo próprio do assunto, ainda que tosco, capaz de dar um coice quando a resposta cheira mal.
Quem não tem esse modelo está obedecendo cegamente a uma voz que sequer sabe de onde vem.
Antes que isso vire palestra motivacional sobre a beleza do esforço, o contraditório honesto: tem muita coisa que não vale mais a pena aprender — e eu não aprendo. Quem defende aprender tudo está defendendo desperdício com cara de virtude.
Eu não sei de cor um único número de nenhuma das empresas que eu acompanho. Nenhum. Não sei margem, não sei dívida líquida, não sei o payout do ano passado, e não vejo o menor valor em saber. Está tudo a dez segundos de distância, e quem recita esse tipo de número em mesa de bar está fazendo truque de festa.
O que eu sei de cada uma delas é a big picture, e essa não está guardada em lugar nenhum para ser consultada. Ela se constrói cruzando o número com informação qualitativa e com perspectiva longitudinal, que é um jeito pomposo de dizer que eu acompanho aquilo há anos e vi acontecer.
Um CAGR (taxa média de crescimento) de receita de dez anos de receita é um número correto e quase inútil sozinho. Ele não mostra as idas e vindas das decisões que o produziram: a aquisição que quase derrubou a companhia no meio do caminho, o ano em que o management prometeu uma coisa e entregou outra, o concorrente que apareceu, assustou todo mundo e sumiu. A máquina devolve o CAGR em dois segundos. A história que faz o CAGR significar alguma coisa está na cabeça de quem estava lá quando aconteceu — ou, pelo menos, se propôs ao esforço de ler e concatenar.
Daí a regra que proponho: se o conhecimento funciona como consulta, terceirize sem culpa nenhuma, que é para isso que a ferramenta existe. Se ele reorganiza a maneira como você pensa, ele deve ser seu: abrir mão é, de fato, não ter.
A margem é consulta; a história que produziu a margem é estrutura. Sintaxe é consulta; lógica é estrutura.
O teste prático não dói e leva dez segundos. Depois de aprender aquilo, você passou a enxergar problemas que antes não enxergava, ou apenas passou a resolver mais rápido os mesmos de sempre? A primeira coisa mudou você. A segunda comprou tempo, o que é ótimo, e não tem nada a ver com o assunto.
Existe ainda o argumento vulgar — e ele é o meu, porque eu vivo dele.
Quando todo mundo passa a ter a mesma resposta, pelo mesmo preço, na mesma velocidade, a resposta para de valer dinheiro. O que continua raro é o caminho até ela: saber qual pergunta fazer, desconfiar do que voltou, perceber o que ficou de fora, ligar aquilo a três coisas que a máquina não sabia que estavam relacionadas.
Estudar é aprender a pensar, e é por pensar com clareza que os meus clientes me pagam. Ninguém assina nada para receber uma conclusão. Conclusão cabe em uma linha e qualquer um chuta uma; o que se assina é o raciocínio que leva até lá, que é a única parte que ainda não virou commodity.
O que eu estou estudando agora é matemática. Por hobby, sem aplicação nenhuma, sem que ninguém tenha pedido, sem perspectiva de render um centavo.
Antes disso, e em ordem nenhuma: latim, teoria musical e história da música, filosofia, história, programação, um punhado de idiomas, vinho, café (do processamento do grão à curva de extração), aquarismo e o ciclo do nitrogênio, teologia, fisiologia, nutrição, direito. Uma lista sem pé nem cabeça — e o despropósito dela é exatamente o ponto.
Aos quarenta anos eu descobri que isso tem nome. Uma avaliação neuropsicológica fechou dupla-excepcionalidade: autismo nível 1 de suporte e altas habilidades. Metade da minha vida ficou legível de uma hora para a outra, inclusive a mania de cair de cabeça em assunto aleatório e não conseguir levantar até ter entendido.
Alguém vai usar isso como saída de emergência, e eu prefiro fechar a porta agora: ele estuda porque é assim; eu não sou. O laudo explica por que eu gosto. Ele não explica por que eu continuo, e as duas coisas não são a mesma. Gostar é sorte de nascimento. Continuar aos quarenta e poucos, com dois filhos pequenos, duas empresas, cadeira em dois conselhos e uma agenda estupidamente planejada a partir dos períodos de sazonalidade favorável — sem levar em conta quando todos os pratos decidem cair ao mesmo tempo — é escolha. E é uma escolha paga em horas que eu poderia estar fazendo outra coisa.
De tempos em tempos eu flerto com uma ideia que, dita em voz alta, soa ridícula: voltar para a faculdade e seguir uma trilha de matemática pura. Sem projeto profissional atrás, sem plano de monetização, sem nada. Na idade exata em que as pessoas param de aprender coisa nova e passam a repetir com mais confiança as que já sabiam.
Ainda não fiz. Mas o fato de a ideia voltar todo ano me diz com precisão do que eu estou sentindo falta.
Até anteontem o mundo obrigava as pessoas a pensar. Sem calculadora você fazia a conta, sem GPS você decorava o caminho, sem tradutor você aprendia a língua, sem estagiário você lia o processo inteiro. A obrigação acabou, e o que sobrou foi a escolha. Quase tudo que vira eletivo, a maioria não elege.
Então a resposta para a caixinha do Instagram é sim, aprenda a programar, e o motivo não tem nada a ver com programar.
Eu não estudo matemática para usar matemática. Estudo porque lembro de como era pensar quando eu estudava — e porque quero aquilo de volta.
-Ricardo Schweitzer



