Tudo o que eu não sabia sobre mim
ou: sobre festas insuportáveis, luzes fluorescentes e uma moda que dura oitenta e três anos
Quinta-feira é dia de mercado. Sempre foi. Não abro exceção, não negocio comigo mesmo, não troco a pauta porque o momento pede. Na última quinta, 2 de abril, havia um motivo forte para eu ter escrito sobre outra coisa. Não escrevi.
O texto sai hoje, sábado. Fora do calendário. Fora do padrão. E isso, por si só, já diz alguma coisa.
Eu não mudo as minhas regras. Esse é o ponto. Esse, talvez, sempre tenha sido o ponto.
Eu tinha uns seis ou sete anos. Minha mãe me levou a uma festa de aniversário. Balões, crianças gritando, música alta, aquele caos festivo que, para a maioria das pessoas, é sinônimo de alegria.
Para mim, era insuportável.
Eu não sabia dizer o que era. Não tinha vocabulário para “sobrecarga sensorial”. Não existia, no repertório de uma criança dos anos 90, a frase “esse ambiente me agride”. O que eu disse para a minha mãe foi: “Estou com dor de cabeça.”
Era mentira. E não era.
Nunca precisei que me avisassem: eu sempre soube. O que aconteceu com o tempo foi mais silencioso: a estranheza deixou de ser problema e virou fundação.
Meus interesses eram radicalmente diferentes dos das outras crianças. Minha forma de me expressar também: uma linguagem elaborada demais para a idade, que soava pedante quando eu só estava sendo preciso.
Fazer amigos era difícil. Não por timidez. Não por arrogância. Por uma incompatibilidade que eu não conseguia nomear.
Eu sempre preferia ficar sozinho.
Na adolescência, a coisa piorou. Baladas eram um exercício de tortura. Jamais tive sequer a curiosidade de ir a um estádio de futebol. Conto nos dedos a quantos shows eu fui na vida — e todos foram já na vida adulta. Música alta, multidão, imprevisibilidade; tudo aquilo que a maioria dos adolescentes buscava com entusiasmo, eu evitava com desespero.
Não era frescura. Não era fase. Era o meu sistema nervoso pedindo socorro de um jeito que eu ainda não entendia.
Sempre fui percebido como rígido demais. O que havia sido combinado precisava ser cumprido. A qualquer custo. Uma mudança de planos de última hora não era um inconveniente: era uma agressão. E se o compromisso havia sido firmado comigo, a conclusão era uma só: não me levavam a sério. E poucas coisas me irritam mais do que sentir que não me levam a sério.
Eu digo coisas que não se dizem. Sempre disse. O tipo de comentário que faz alguém engasgar com o café. Com o tempo, descobri que o sarcasmo é um mecanismo de precisão. Quando solto uma frase dessas, observo. A reação do outro me diz tudo que eu preciso saber, e me dá uma fração de segundo para decidir se aquilo era uma piada, uma provocação ou uma opinião firme. A depender da cara do interlocutor, pode ser qualquer uma das três. Eu escolho depois.
Já adulto, eu trabalhava num banco de investimento usando abafadores auriculares de 32 decibéis. Com 32 dB dá para operar uma britadeira. Não bastava. Nos dias piores, eu enfiava plugs de espuma da 3M dentro do canal auditivo e colocava os abafadores por cima. O objetivo era chegar a zero. Zero absoluto. No máximo os batimentos cardíacos, a respiração, o sangue circulando. Enquanto sobrasse qualquer ruído externo, ainda não estava bom.
Porque eu não suportava meus colegas conversando durante o expediente.
Não se tratava de dor física. Mas aquilo drenava a minha energia de tal maneira que eu já me sentia exausto no final da manhã. E inevitavelmente precisava levar todo o trabalho “importante” para fazer em casa, onde eu teria paz. Reclamei da intensidade das luzes fluorescentes para o pessoal da segurança do trabalho. Foram lá, mediram, me informaram que estava “em conformidade com a norma”.
A norma deles. Não a minha.
Hoje trabalho de um escritório a cinco minutos de casa. Acho que nunca abri a janela. Quando não trabalho na escuridão total, me limito a um abajur com uma lâmpada de luz amarela, pouco intensa. Branca, jamais. Branca agride.
Trabalho no mais absoluto silêncio. Deus me livre alguém falar comigo enquanto trabalho. Deus me livre “ouvir música” enquanto trabalho. Francamente, não sei como tanta gente consegue fazer isso.
Sempre detestei surpresas. Sempre precisei de previsibilidade.
E durante décadas, a explicação que o mundo me ofereceu (e que eu aceitei) foi: você é assim. Eu ainda me lembro bem da primeira vez em que me chamaram de “excêntrico”. Eu estava na quinta série do fundamental.
Na família, a visão de que eu era “diferente” já era consolidada, mas vista como um incômodo traço de personalidade.
Eu tinha exatos quarenta anos quando decidi buscar uma avaliação neuropsicológica. Por motivos que, francamente, não vêm ao caso aqui.
Existia um motivo.
Transtorno do Espectro Autista. Nível de suporte 1.
Vou dizer uma coisa que talvez surpreenda quem nunca passou por isso: o diagnóstico foi um alívio.
Não um alívio de quem recebe uma boa notícia. Um alívio de quem finalmente entende a pergunta que estava tentando responder a vida inteira.
A dor de cabeça na festa não desaparece retroativamente. Os abafadores no banco continuam tendo sido necessários. A penumbra continua sendo preferível. Nada disso muda.
O que muda é a lente.
Existe uma diferença brutal entre “eu sou estranho” e “meu cérebro processa o mundo de um jeito diferente”. A primeira frase é um julgamento. A segunda é uma informação. E informação, diferente de julgamento, é algo com o que se pode trabalhar.
O diagnóstico não é um rótulo. Ele é, na verdade, uma bússola pela qual eu passei décadas esperando.
Curiosamente, eu já havia aprendido a manejar muita coisa por instinto, antes de saber o que estava manejando.
Em eventos sociais muito intensos, eu “sumo” de tempos em tempos. Saio, respiro, recalibro, volto. As pessoas provavelmente acham que sou antissocial. Elas têm alguma dose de razão, mas eu também estou, em parte, poupando minhas energias para sobreviver até o final do evento.
Para quem não é neurodivergente, eu explico: a sensação de uma bateria social exaurida não é de dor física. É algo parecido com uma longa privação de sono; algo como 24 horas acordado. Você não boceja mais, mas claramente seu cérebro entrou em uma espécie de “modo de economia de energia”.
No seu celular, a tela escurece e os processos do sistema operacional são reduzidos ao essencial — é a metáfora perfeita. E, nesse estado, o risco de acabar sendo um interlocutor desagradável cresce exponencialmente.
Quase sempre carrego plugs de ouvido. Escolho deliberadamente ambientes mais escuros. Planejo minhas interações sociais para serem com um número reduzido de pessoas e não muito longas.
A diferença é que agora eu sei por que faço isso. E saber por que transforma um mecanismo de sobrevivência em uma estratégia consciente. É a diferença entre reagir e decidir.
Quanto à rigidez com combinados, essa continua. Porque nem tudo precisa mudar. Algumas coisas são só parte de quem eu sou.
Poucos dias atrás, eu ouvi de uma pessoa próxima a mim (uma pessoa que sabe do meu diagnóstico) que “autismo é moda”.
Pois bem.
Uma moda descrita pela primeira vez em 1943, quando Leo Kanner documentou onze crianças com o que chamou de “distúrbios autísticos inatos de contato afetivo”. Oitenta e três anos atrás. Um ano depois, Hans Asperger publicou observações independentes em Viena. O DSM só reconheceu formalmente a condição em 1980 — trinta e sete anos depois de Kanner.
Se é moda, é a mais lenta da história.
Mas o argumento da moda tem uma ironia particularmente deliciosa. O diagnóstico de autismo é clínico; não existe, hoje, um exame de sangue ou ressonância que confirme. E esse é o mesmo argumento usado para deslegitimá-lo: “se não aparece no exame, não existe de verdade.”
Acontece que depressão também é diagnóstico clínico. TDAH também. TOC também. Transtorno de personalidade borderline também. Ninguém pede ressonância para validar depressão. Mas, para autismo, exigem.
E a ironia final: entre todas essas condições de diagnóstico clínico, o autismo é justamente a que apresenta a base genética mais robusta. Herdabilidade estimada em 80%. Mais de 230 genes já identificados e associados ao espectro. Em 2025, pesquisadores de Princeton identificaram quatro subtipos biologicamente distintos.
Se é moda, é a moda mais bem documentada da história da medicina.
O acolhimento simplesmente chegou mais cedo para uns do que para outros.
Em outra época, eu teria sido institucionalizado. Hospício. Camisa de força.
O depressivo teria passado por eletroconvulsoterapia e, com algum azar, lobotomia — procedimento que foi rotina dos anos 1930 aos 1970 (sim, mil novecentos e setenta!!!). A pessoa com TDAH teria sido submetida, na marra, a aulas de reforço intermináveis. O portador de TOC teria sido simplesmente evitado. O borderline seria chamado de histérico.
Depressão era preguiça. TDAH era indisciplina. TOC era esquisitice. Autismo era o quê? Loucura. Retardo. Ausência…. inadequação social. Como alguém ousa não se encaixar na sociedade?!
Nenhuma dessas coisas era “moda” quando finalmente recebeu nome, estudo e tratamento. Eram condições reais que a ciência finalmente alcançou.
O autismo não é diferente. Só chegou depois na fila.
Eu tenho quarenta anos. Passei mais de trinta e nove deles sem saber por que festas me davam “dor de cabeça”. Sem saber por que a luz do escritório me agredia. Sem saber por que eu preferia a solidão, a penumbra, o previsível.
Hoje eu sei.
E carrego plugs de ouvido no bolso.
Quantas pessoas ao seu redor ainda não têm nome para o que sentem?
-Ricardo Schweitzer



