Abri o relatório semanal de tempo de tela do meu smartphone na noite do último domingo.
O gesto tinha a mesma energia de subir numa balança depois do Natal: você sabe que não vai gostar do número, mas precisa da confirmação de que pelo menos não foi tão ruim assim.
Foi tão ruim assim.
Quarenta horas e trinta e dois minutos. Esse foi o meu tempo total de tela na semana passada. Vinte e oito horas e quatorze minutos só de redes sociais, WhatsApp incluído. Média diária: cinco horas e quarenta e sete minutos.
Minha primeira reação foi a mais previsível possível: o aplicativo deve estar errado. Algum bug, algum processo rodando em segundo plano, alguma explicação técnica que me devolvesse ao lugar confortável de quem usa pouco o celular. Afinal de contas, eu uso pouco o celular. Sempre usei pouco o celular. Ou pelo menos era isso que eu acreditava até domingo à noite.
Quarenta horas por semana é um emprego. Não uma metáfora de emprego, mas um emprego real, com carteira assinada, vale-transporte e reunião inútil de segunda-feira. A constatação inescapável é que eu trabalho um turno inteiro para o meu telefone.
Vinte e oito horas de redes sociais por semana dá quatro horas por dia. Eu poderia argumentar que presença em rede social é parte do meu trabalho, mas não: nem de longe eu fico isso tudo. Eu também poderia argumentar que esse número é serveramente inflado pelo WhatsApp (foram 16 horas nele), mas mesmo em relação ao maledeto eu sou obrigado a reconhecer: a maior parte do que eu faço em termos de trabalho é via WhatsApp Web — ou seja, não entra nessa conta.
E um detalhe adicional: eu sou conhecido por ser uma pessoa particularmente difícil de acessar via WhatsApp, pois tenho o péssimo hábito de procrastinar para responder mensagens. Eu realmente não sei para onde está indo esse tempo e, se minha esposa ler esse texto, provavelmente eu vou ter que me desdobrar para convencê-la de que eu não tenho outra família.
Fato é: só de Instagram foram 9h15min registradas. Não tenho defesa para isso: nem mesmo caixinha de pergunta eu tenho aberto todos os dias.
Com quatro horas por dia, em um ano, eu teria lido a obra completa de Machado de Assis. Duas vezes. Em vez disso, eu li threads sobre coisas que já esqueci, assisti a reels que jamais procurei e opinei silenciosamente sobre a vida de pessoas que não conheço.
Meu cérebro virou um quarto de hotel: muita gente passa, ninguém mora.
O mais interessante não é o número: o número é só um tapa. O interessante é a convicção inabalável que eu tinha, cinco minutos antes de abrir o relatório, de que eu era diferente; de que o problema do tempo de tela era dos outros — dos adolescentes, dos desocupados, de quem não tem coisa melhor para fazer. Eu, não. Eu sou um adulto funcional, tenho trabalho (dois!), tenho filhos (dois!), participo de associaçoes (duas!). Eu uso o celular “com propósito”.
Cinco horas e quarenta e sete minutos de propósito por dia.
Existe uma cidadezinha fictícia no interior do Minnesota chamada Lake Wobegon, inventada pelo escritor Garrison Keillor num programa de rádio lá no final dos anos 80. A descrição da cidade termina sempre igual: “onde todas as mulheres são fortes, todos os homens são bonitos e todas as crianças estão acima da média.”
Virou termo de psicologia para o fenômeno universal de todo mundo se achar melhor que a média: motoristas acham que dirigem melhor que os outros; profissionais acham que trabalham mais que os colegas; pais acham que educam melhor que os vizinhos. Estatisticamente impossível; psicologicamente inevitável.
Com tempo de tela, Lake Wobegon funciona ao contrário: todo mundo acha que usa o celular menos que a média. A vaidade é a mesma; só o sinal inverte. E quando o aplicativo entrega o número real, a reação não é mudar o comportamento, mas sim duvidar do instrumento — exatamente como eu fiz.
A balança está errada. O aplicativo está bugado. Deve ter contado aquele tempo que ficou tocando podcast com a tela desligada. Alguma explicação existe, e com certeza essa explicação me exime do constrangimento de descobrir que eu estou pior do que a média.
Pesquisadores mediram isso. Pediram a voluntários que estimassem quanto tempo passavam no celular; depois confrontaram com os dados reais. A subestimativa média foi de quarenta por cento: se você acha que usa o celular duas horas por dia, a probabilidade estatística é de que use três horas e vinte. Se acha que usa três, provavelmente usa mais de quatro.
O mecanismo é simples e humilhante. Ninguém senta e usa o celular por quatro horas seguidas. Você pega, olha, larga. Pega, rola, larga. Pega, responde, rola um pouco mais, larga. Cada episódio dura dois, três minutos aparentemente inofensivos. O problema é essa inofensividade acontece setenta, oitenta vezes por dia. E o cérebro, que é excelente em contar refeições mas péssimo em somar lanchinhos, registra cada episódio como irrelevante.
No fim do dia, a soma dessas irrelevâncias é o maior item da sua agenda.
Quero diminuir meu tempo de tela” é o “vou começar a academia na segunda” da nossa geração. A frase existe para ser dita, não para ser cumprida. Cumpre uma função ritual: ao pronunciá-la, você demonstra consciência do problema — e a consciência do problema substitui a solução do problema. Você se sente responsável sem precisar mudar nada.
Eu poderia terminar este texto prometendo que vou mudar. Que, nesta semana, tudo será diferente. Eu admito que vou tentar; que vou instituir limites, deletar aplicativos, usar um despertador (que eu já comprei, mas até então não usei) para não precisar mais do celular na mesa de cabeceira.
Mas eu sou obrigado a reconhecer: a não ser que dessa vez eu seja melhor sucedido do que nas outras, daqui a uma ou duas semanas eu vou estar de volta a essa triste normalidade. Porque foi feito para ser assim, viciante. E infelizmente não há como instituir 100% de abstinência: o aparelho é importante para algumas coisas.
É mais ou menos como se propor a parar de beber morando dentro de um bar.
Mas, pelo menos, agora eu vou ser obrigado a encarar essa realidade: semana que vem, quando eu abrir o relatório de uso de novo e constatar que mesmo que reduza algo, meu uso provavelmente ainda vai ser hediondo, não vou poder mentir para mim mesmo: não é a balança que está errada. Eu não sou acima (nesse caso, abaixo) da média. Estou rigorosamente no mesmo barco que todo mundo — e você, provavelmente, também. Mesmo que não tenha consciência disso.
Você já deu uma olhada no seu relatório de uso da última semana?
-Ricardo Schweitzer




Primeiro passo é remover o aplicativo do Instagram, acessa via navegador mesmo, só isso já reduz bruscamente seu uso. Tem algo no app que deixa muito mais viciante o uso do que no navegador.
Confesso que me fez olhar... rs ... mas o "X" eu uso pro trabalho!! ;)